UMA HOMILIA NO SÁBADO DO GRANDE MÁRTIR TEODORO,
DE TIRON (“O RECRUTA”)
Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Após termos passado a Primeira Semana da Grande Quaresma, hoje, no seu primeiro sábado, celebramos a festa de um mártir, um dos milhares, milhões de guerreiros de Cristo que sofreram o martírio pelo Nome do Senhor e carregaram esta fé em seus corações até o fim, que derramaram seu sangue e assim consolidaram a fé em Cristo. Hoje, a Igreja comemora particularmente o Grande Mártir Teodoro de Tiro. Este sábado é inclusive chamado de “Sábado de Teodoro, o Recruta”, em honra deste santo.
Esta festa comemora um evento especial associado ao Imperador Juliano, o Apóstata, que chegou ao poder depois que os governantes piedosos que haviam concedido direitos legais ao Cristianismo o reconheceram e, eventualmente, o tornaram a religião oficial do Estado. O Imperador Juliano apostatou e então retomou a perseguição anticristã. Contudo, desta vez a perseguição não foi explícita, mas insidiosa. Sabendo que os cristãos estavam orando fervorosamente e cumprindo um jejum rigoroso durante a Primeira Semana da Grande Quaresma, preparando-se para receber o Corpo e o Sangue de Cristo, para um encontro com o Senhor, o imperador obrigou o governante de uma cidade a fazer o seguinte: retirar todos os alimentos e bebidas dos mercados e lojas e substituí-los por alimentos e bebidas contaminados com o sangue de animais que haviam sido oferecidos em sacrifício a ídolos. O imperador pretendia profanar os cristãos que, desconhecendo isso, consumiriam involuntariamente aquele sangue impuro, aquele sacrifício a ídolos. No entanto, o Grande Mártir Teodoro de Tiro apareceu ao bispo dessa cidade em uma visão e ordenou-lhe que dissesse aos cristãos, os fiéis filhos de Deus, para não fazerem isso no dia seguinte. Vendo que seu plano maligno fora descoberto, o imperador e o governante da cidade não puderam mais prejudicar os cristãos. Teodoro de Tiro também sugeriu ao bispo que os cristãos comessem koliva — um prato feito com grãos de trigo cozidos. Assim, essa tradição se estabeleceu na Igreja em comemoração ao milagre de São Teodoro.
Quanto ao Grande Mártir Teodoro, ele ficou famoso por seu zelo e seu ódio especial por ídolos e idolatria. Como soldado, servindo no exército do imperador, certa vez se recusou a adorar ídolos após sua conversão ao Cristianismo. Mais do que isso, entrou em um templo pagão e praticamente o destruiu, esmagando o altar pagão e todos os ídolos “sagrados” que lá se encontravam. Depois disso, foi torturado, preso e finalmente executado.
A comida e a bebida físicas são vitais na vida das pessoas, mas o alimento espiritual é muito mais significativo. O inimigo da humanidade, tentando os cristãos e levando-os a adorá-lo, muitas vezes age com muita astúcia e artimanhas neste mundo; é assim que ele engana as pessoas. Através de qualquer tipo de alimento, informação ou energia presente nesta vida, seja física ou espiritual, o diabo tenta repetidamente nos impor esse sangue profano e idólatra. Ele está corrompendo e envenenando tudo ao nosso redor. Sem perceber e sem saber disso, muitas vezes somos completamente vencidos por esses falsos deuses, idolatria, dinheiro, vaidade, luxúria… Parece que tudo isso já permeia a vida de cada um de nós, cristãos, assim como a de nossos amigos e parentes. E nós mesmos sofremos com essa profanação, com essas mentiras, com esse veneno que invade constantemente nossas vidas e almas.
É por isso que a Santa Igreja nos prepara tão minuciosamente e nos concede esses dias abençoados para a purificação de nossas almas em vigília, oração e jejum, para que a graça de Deus possa agir em nossos corações de maneira especial, para que possamos ver o verdadeiro alimento e bebida e, ao mesmo tempo, a imundície que nos leva à morte, a maldição diabólica, o veneno do pecado.
Hoje, muitas pessoas vêm à Igreja guiadas pela graça do Senhor, e os sacerdotes que ouvem confissões notam especialmente esse fato. Um grande número de pessoas que não tiveram tempo ou forças para vir à Igreja em períodos anteriores de suas vidas estão vindo agora à Casa de Deus. E vemos como o Salvador visita seus corações de uma maneira particular. Essas pessoas vêm e, geralmente, buscam algo que chamam de “cura”. Vimos isso duas vezes na leitura do Evangelho de hoje. Primeiro, as pessoas se aglomeravam ao redor de Cristo, uma grande multidão O pressionava, todos buscando cura. E depois vemos que o Próprio Jesus curou um homem com a mão atrofiada. Frequentemente reclamamos em nossas igrejas, incluindo nosso Monastério de Sretensky, que muitas pessoas vêm se confessar, que muitas pessoas se reúnem na igreja. Mas, pelo contrário, isso deveria ser um grande alívio espiritual para nós, especialmente quando nos lembramos daquelas pessoas que se aglomeravam ao redor de Cristo. E essa é uma misericórdia especial de Deus para todos nós.
Assim, essas pessoas vêm e buscam alguma cura. Mas intuitivamente elas sentem onde a salvação e a solução para os problemas simples da vida podem ser encontradas, embora ainda não entendam, ainda não tenham percebido qual é o propósito da vida, qual é o significado do verdadeiro alimento e bebida para a vida humana. A graça divina é, de fato, o verdadeiro alimento e bebida para todos nós. Se nos privarmos dessa graça, tudo o que conquistarmos e adquirirmos em nossa vida não terá significado — apenas nos afastará cada vez mais da nossa salvação e de Cristo, da comunhão com Deus. A graça divina cura tudo, preenche tudo de significado, corrige tudo, nutre tudo e vivifica tudo em nossas vidas. É nestes dias santos que a consciência disso se manifesta repetidamente, mesmo para os cristãos que vivem na Igreja há muitos anos. É por isso que o Senhor nos deu a Grande Quaresma.
O jejum não consiste apenas em abster-se de certos tipos de alimentos e bebidas, mas, antes de tudo, é uma oportunidade para crescermos espiritualmente, nos fortalecermos e nos aproximarmos de Cristo, para recebermos a graça de Deus. Portanto, hoje é um dia maravilhoso, a celebração da vitória, e nós, juntamente com o Grande Mártir Teodoro, o Recruta, celebramos a vitória sobre esses ídolos. Cada um de nós tem uma pequena vitória hoje. Mas o principal é lembrar que este é apenas o começo da nossa batalha, o início da nossa jornada. Devemos estar muito vigilantes para não cairmos e sofrermos uma derrota, como costuma acontecer após a Primeira Semana da Grande Quaresma. Não devemos nos deleitar cegamente com a nossa vitória e nos acomodarmos. Em vez disso, como soldados de Cristo, devemos valorizar esta graça, guardá-la em nossos corações, levá-la a este mundo e estar muito vigilantes para que o maligno não se aproxime de nós e prejudique as nossas almas. Amém.
Hieromonge Ignaty (Shestakov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)






