“E, tendo Jesus entrado em Jericó, ia passando. E eis que havia ali um homem, chamado Zaqueu; e era este um chefe dos publicanos e era rico. E procurava ver quem era Jesus e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura. E, correndo adiante, subiu a uma figueira brava para o ver, porque havia de passar por ali. E, quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, viu-o e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque, hoje, me convém pousar em tua casa. E, apressando-se, desceu e recebeu-o com júbilo. E, vendo todos isso, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador. E, levantando-se Zaqueu, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se em alguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado. E disse-lhe Jesus: Hoje, veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.” (Lc. 19:1-10)
A parábola do cobrador de impostos Zaqueu, pelo menos na Tradição Ortodoxa eslava, é sempre a última leitura do Evangelho de Domingo do Ciclo de leituras do Evangelho de Lucas (basicamente do outono para o inverno). Como tal, na Tradição Ortodoxa eslava, ela também prenuncia a chegada da Grande Quaresma, pois com este Evangelho encerramos o ano velho e entramos nos ciclos de leituras do Evangelho de Domingo Pré-Quaresmais – conhecidos na Ortodoxia como o início do Triódio. [A Tradição Ortodoxa não eslava proclama o Evangelho da Mulher Cananeia antes do início do Triódio Quaresmal. Na Ortodoxia, a variação na prática é bastante normal em muitos níveis. A Ortodoxia não é um bloco monolítico, onde todos os ortodoxos fazem sempre as mesmas coisas. Esta tem sido, por muitos séculos, a prática aceita e a Tradição recebida da Igreja. O que é feito em uma paróquia ou tradição ortodoxa difere do que é feito em outra paróquia ou tradição. Isso não é visto como uma divisão da Igreja ou uma quebra da unidade da “única igreja santa, católica e apostólica”.]
Nos últimos anos, em meus sermões, muitas vezes me juntei ao coro daqueles que desprezavam Zaqueu como um pecador que teve uma conversão milagrosa em seu encontro com Cristo. É assim que a história é frequentemente interpretada e, como na Tradição Ortodoxa eslava ela é precursora da Grande Quaresma, o tema do pecador que se arrepende é frequentemente atribuído à narrativa. Mas há outra interpretação possível para esta passagem do Evangelho. Se prestarmos bastante atenção ao texto, veremos que a multidão judaica certamente reage a Zaqueu como se ele fosse um pecador terrível. Eles sentem o cheiro do pecado nele e ficam repugnados pelo fato de Jesus se convidar para a casa de Zaqueu. Mas observem o que Zaqueu diz a Jesus quando Jesus está em sua casa:
“Eis que, Senhor, dou metade dos meus bens aos pobres; e, se de alguém recebi alguma coisa por falsa acusação, restituo quatro vezes mais.”
Geralmente, interpreta-se isso como uma mudança de coração de Zaqueu, uma conversão, e o texto estaria dizendo: “a partir deste momento, darei e restituirei.”
Mas no texto grego, Zaqueu fala no presente — não “Começarei a fazer isso”, mas declara o que está fazendo. Zaqueu diz que dá metade de sua renda aos pobres. A multidão presume erroneamente que Zaqueu é podre de rico, ganancioso e desonesto por ser um cobrador de impostos. Eles o julgaram duramente sem conhecer os fatos. A multidão é culpada de julgamento e presunção. Cristo mostra à multidão: “Vocês são culpados de julgar mal este homem”. Vocês são culpados de pecado, não ele.
A lição do Evangelho, portanto, não trata tanto de arrependimento, mas de reconciliação. Zaqueu estava fazendo a coisa certa o tempo todo, mas em segredo. As pessoas o julgaram mal porque o viam como rico e cobrador de impostos, presumindo, assim, que ele era desonesto. Mas o que Cristo mostra às pessoas é que Zaqueu é um homem bom, um verdadeiro filho de Abraão. Cristo oferece reconciliação entre Zaqueu e a multidão judaica. Zaqueu estava perdido porque as pessoas o rejeitaram injustamente, não porque ele fosse um pecador. Cristo, portanto, não o está convertendo de pecador em santo, mas revelando o diamante que estava escondido sob a sujeira que as pessoas lhe haviam lançado. Cristo mostra às pessoas que ele é realmente mais justo do que aqueles que o julgam e o rejeitam.
Isso me lembra uma história que li há muito tempo sobre um ferreiro trabalhador de uma cidade, amado por todos por sua generosidade em fazer caridade, apesar de ser apenas um trabalhador braçal. Havia também um homem rico que morava em uma propriedade bem cuidada em uma colina acima da oficina do ferreiro. Esse homem rico era odiado pelos moradores da cidade porque o consideravam avarento – ele não se relacionava com as pessoas e nunca fazia caridade. O homem rico morreu e ninguém compareceu ao funeral, apenas para provocá-lo. Simultaneamente, o ferreiro parou de fazer caridade generosamente. As pessoas o confrontaram sobre o motivo de sua mudança de comportamento. Ele respondeu: “Vocês realmente pensaram que, durante todos esses anos, eu estava dando meu dinheiro para caridade? Eu não sou rico, nunca tive dinheiro para dar. O homem rico me deu o dinheiro e pediu que eu o distribuísse, mas sem nunca revelar a origem. Fiz como ele pediu durante todos esses anos. Quando ele morreu, eu não tinha mais dinheiro para dar, pois sou pobre como vocês.” Todos na cidade ficaram admirados com essa revelação e envergonhados pela forma como haviam tratado o homem rico, ao perceberem o quão mal haviam julgado seu benfeitor.
Por sua vez, Zaqueu sobe na árvore para ver Jesus porque deseja ver um rabino que ensina o que ele (Zaqueu) vem praticando o tempo todo. Zaqueu compreende que a mensagem de Jesus é diferente do que é frequentemente ensinado por outros rabinos. Zaqueu quer vislumbrar alguém que ensine o caminho da humildade. Zaqueu está praticando o que Jesus ensina:
“Cuidado para não praticarem a sua piedade diante dos outros para serem vistos por eles; caso contrário, vocês não terão recompensa do Pai celestial. Portanto, quando você der esmola, não toque trombeta diante de si, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos outros. Eu lhes digo verdadeiramente que eles já receberam a sua recompensa. Mas, quando você der esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que a direita está fazendo, de forma que a sua esmola fique em segredo; e seu Pai, que vê em segredo, lhe recompensará.” (Mateus 6:1-4 – este é o Evangelho que leremos no Sábado do Carnaval, pouco antes do início da Grande Quaresma)
Zaqueu está vivendo a vida que Jesus ensinou, e Jesus revela isso à multidão. Ele revela à multidão como a presunção pecaminosa deles os levou a julgar Zaqueu erroneamente. Foi a multidão que fez com que Zaqueu se separasse do povo de Deus e se perdesse, não o próprio comportamento de Zaqueu. Jesus oferece reconciliação a todos, se a aceitarem, se deixarem de lado suas presunções. (Como dizemos no Salmo 19:13: “Acima de tudo, livra o teu servo da presunção; não permitas que ela me domine! Então serei irrepreensível e livre de pecado grave.”)
Observe também que na oração da bênção de um lar, mencionamos Zaqueu:
Ó Deus, nosso Salvador, a Verdadeira Luz que foi batizada no Jordão pelo profeta João e que quis entrar na casa de Zaqueu, trazendo salvação a ele e à sua família, proteja-nos, Senhor, de todo mal aqueles que aqui habitam; conceda-nos a Sua bênção, purificação e saúde corporal, e atenda a todos os nossos pedidos de salvação e vida eterna; pois o Senhor é bendito, juntamente com o Seu Pai, que é desde a eternidade, e o Seu Espírito Santo, Bom e Vivificador. Amém.
Ao abençoarmos o lar, trazemos Cristo, que é a nossa Salvação, para dentro de nossas casas, assim como Cristo entrou na casa de Zaqueu e reconciliou ele e sua família com o povo de Deus. A oração pela bênção de um lar não menciona o arrependimento das pessoas como resultado da bênção, mas reconhece a bênção de ter Cristo presente no lar. A oração pressupõe que as pessoas na casa que está sendo abençoada desejam a presença de Cristo, assim como Zaqueu desejava que Cristo entrasse em sua casa. E, esperançosamente, pelo mesmo motivo: porque aqueles que estão em casa já praticam a retidão, assim como Zaqueu!
Duas considerações finais sobre Zaqueu, reconhecido como santo na Igreja Ortodoxa:
Primeiro, Zaqueu tinha um forte desejo de ver Cristo e, embora ocupasse uma posição pública, estava disposto a arriscar o constrangimento e a humilhação apenas para vê-Lo (ele não sabia que Cristo falaria com ele ou que desejaria ir à sua casa). Nós, que somos discípulos e família de Cristo, por outro lado, às vezes nos sentimos constrangidos em dizer aos outros que somos cristãos, ou mesmo em fazer o sinal da cruz ou rezar antes das refeições. Sentimos vergonha de nos manifestar contra o aborto, o racismo, a pornografia ou piadas obscenas. Podemos aprender com a ousadia e a coragem de São Zaqueu para viver segundo os valores divinos e nos opor ao mal no mundo. Podemos orar, jejuar e praticar a caridade em segredo, como Jesus ensinou. Mas também podemos, discretamente, sem alarde ou busca de atenção para nós mesmos, fazer o bem e o que é certo, mesmo com nossos amigos nos observando.
Em segundo lugar, Zaqueu admitiu publicamente ser um pecador. Quando Cristo estava em sua casa, ele não se proclamou sem pecado e perfeito, mas reconheceu que, se havia enganado alguém, tentava reparar o dano. Ele se arrependeu publicamente de seus pecados – não de erros, mas das coisas erradas que escolheu fazer. Basta pensar em nossos representantes públicos hoje em dia, que, mesmo quando provas de seus delitos são apresentadas, tendem a negar, obscurecer, encobrir e atacar. Eles carecem de honestidade, integridade, humildade e coragem – todas características que Zaqueu demonstrou. Devemos pensar em Zaqueu ao nos prepararmos para nossas próprias confissões. Quando estamos na presença de Cristo, podemos admitir nossos pecados. Cristo quer estar em nossa presença, em nossos lares, em nossas vidas, e Cristo não se afasta de nós porque sabe que somos pecadores. Pelo contrário, como Ele mesmo disse, veio buscar e salvar o pecador. Veio buscar e salvar todos aqueles que se separaram do povo de Deus. Na confissão, convidamos Cristo a entrar sob o teto do nosso coração e a viver conosco.
Sacerdote Ted Bobosh
tradução de monja Rebeca (Pereira)








