“VOCÊ ACREDITA QUE ELE RESSUSCITARÁ?”

HOMILIA SOBRE O SÁBADO DE LÁZARO

Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Estamos no limiar da Semana Santa, mas neste limiar, somos preenchidos por uma grande e alegre esperança pela ressurreição de Lázaro. O Senhor é mais forte que a morte, o Senhor a venceu; não apenas no sentido óbvio em que se manifesta na ressurreição corporal de Lázaro, mas em outro sentido que nos diz respeito no dia a dia de forma ainda mais direta. Deus criou o homem para ser Seu amigo, e essa amizade se torna mais próxima e profunda pelo nosso batismo. Cada um de nós é amigo de Deus, como Lázaro foi chamado, e em cada um de nós esse amigo de Deus já viveu; viveu pela sua amizade com Deus, viveu pela esperança de que essa amizade se tornasse mais profunda, mais forte, mais brilhante. Às vezes isso aconteceu na nossa infância, às vezes mais tarde, na nossa juventude, mas em cada um de nós esse amigo de Cristo viveu. E então, no processo de viver, como uma flor que murcha, como as forças da vida, da esperança, da alegria e da pureza que se esvaem, assim também a força do amigo do Senhor se esvai, e muitas vezes sentimos como se ele estivesse jazendo num caixão em algum lugar dentro de nós. Não podemos nem dizer que ele está descansando, temos que dizer que o amigo do Senhor jaz morto há quatro dias, ferido por uma morte horrível, cujo caixão suas irmãs temem se aproximar porque seu corpo já está em decomposição. Muitas vezes nossa alma se entristece por esse amigo, muitas vezes Marta e Maria se entristecem por ele; aquele lado da alma que, por sua vocação, em força e habilidades, é, como Maria, capaz de contemplação, de sentar-se em silêncio aos pés do Senhor, escutando cada palavra que dá vida e se tornando vivo e trêmulo; E o outro lado, que poderia ser como Marta, capaz de realizar a obra de Deus com inspiração, em verdade e pureza, poderia ser, não uma serva preocupada, mas capaz de transformar as coisas mais comuns, com seu amor e cuidado, no Reino de Deus, a manifestação do amor humano e divino. E assim, esses dois elementos em nós, a Maria e a Marta, as faculdades contemplativa e criativa, lamentam a morte de Lázaro, o amigo do Senhor.

Em certos momentos, o Senhor Se aproxima de nós, e quando O vemos, estamos prontos para exclamar com Marta: Senhor, por que não estavas aqui quando a luta entre a vida e a morte se resolvia, no momento em que Lázaro ainda estava vivo, embora mortalmente ferido, e poderia ter sido mantido nesta vida? Se estivesses aqui, ele não teria morrido. Mas o Senhor estava aqui, esteve aqui o tempo todo enquanto nossa alma morria, e ouvimos Suas palavras: Credes que ele ressuscitará? Com ​​Marta, estamos prontos para responder: Sim, Senhor, no último dia. Mas Marta falou com tanta esperança. Ela disse: “Sempre acreditei que Tu és o Senhor e creio que Ele ressuscitará no Último Dia”. Enquanto nós concordamos, com certa melancolia, que no Último Dia Ele ressuscitará — mas somente quando, como afirma o Grande Cânone, a Festa da Vida tiver terminado e for tarde demais para conquistar qualquer coisa na Terra, tarde demais para viver na fé, na esperança e na alegria de um amor cada vez maior. Mas o Senhor dá a mesma resposta à nossa desesperança que deu à esperança perfeita dela: Eu sou a Ressurreição e a Vida; quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá.

Há ainda outro ponto a considerar. Marta não sabia, naquele momento, que poucos dias antes Cristo havia dito aos Seus discípulos que Lázaro estava à beira da morte; não sabia que Ele permitira que Lázaro morresse para que pudesse ressuscitar enriquecido com uma experiência tão repleta da vitória de Deus que nada jamais o abalaria. E assim o Senhor veio e ordenou que Lázaro ressuscitasse dos mortos.

Eis a imagem para nós: em cada um de nós, Lázaro jaz morto, vencido e rodeado pela nossa dor, muitas vezes desesperançosa. Mas a leitura do Evangelho que antecede os dias da Paixão traz esta mensagem: “Não temais, Eu sou a ressurreição e a vida. O amigo do Senhor que está em vós, a quem considerais irremediavelmente morto, pode ressuscitar com uma só palavra inha, e de fato ressuscitará.” Entremos, portanto, nos dias da Paixão com a esperança, com a certeza de que caminhamos para a transição do temporário para o eterno, da morte para a vida, da nossa derrota para a vitória de Deus. Entremos nestes dias da Paixão com temor, conscientes do quanto o Senhor nos ama e do preço que Ele nos dá a vida. Entremos com esperança e luz em nossos corações, e com alegria na Ressurreição que se aproxima.


Metropolita Anthony (Bloom) de Sourozh
tradução de monja Rebeca (Pereira)

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

6 visualizações

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes