Deus anseia nos receber como Seus filhos em Seu Reino eterno, e por isso a Igreja se enche durante este período de grande graça, que é oferecida a todos os que têm sede de provar a Ressurreição, seguindo seu programa. A Quaresma é uma jornada. No Evangelho de São Mateus, Deus diz de Seu Filho Unigênito: “Do Egito chamei o meu Filho”. Então Cristo fugiu para o Egito para escapar da inveja de Seus inimigos, e quando o perigo passou, o anjo de Deus O chamou de volta à Palestina. Deus nos chama a todos “para fora do Egito”. Na tradição ascética, o “Egito” simboliza o lugar de trevas, a escravidão das paixões, do pecado, da negligência e da desolação em que o homem vive após a sua queda. Deus nos chama a todos para fazer um êxodo, como os israelitas da antiguidade fizeram um êxodo da terra do Egito para a terra de Canaã, a Terra Prometida.
Mas para onde Deus nos chama? A primeira etapa é um êxodo geográfico do lugar do pecado e das paixões, enquanto a segunda é espiritual; consiste em erradicar a lei do pecado de nossos corações. O caminho para a adoção divina é, portanto, uma jornada do Egito das paixões para o lugar de Sua eterna e gloriosa Presença, onde o Senhor reina na “terra dos viventes”, isto é, dos espíritos perfeitos de todos os santos e anjos. O próprio Cristo é a terra dos viventes, e Ele nos chama a todos para herdá-la e viver eternamente com Ele. Durante o Santo Jejum, a Igreja nos chama precisamente a essa luta, a sair da terra estrangeira, da confusão e das trevas deste mundo em que vivemos, e a retornar a Cristo, ressuscitado dos mortos, para entrar em Seu quarto nupcial e receber uma experiência viva da Ressurreição.
Cada domingo do período que antecede a Quaresma nos oferece um princípio constante para caminharmos em direção ao Senhor com humildade. Aprendemos com Zaqueu, por exemplo, que o desejo de ver a Face de Cristo permite ao homem receber o Senhor como habitante do seu coração, assim como Zaqueu recebeu a visitação do Senhor em sua casa. No domingo do Publicano e do Fariseu, aprendemos a diferença entre a verdadeira justiça da humildade, que Deus aceita, e a falsa justiça do orgulho e da condenação, que Ele abomina. No domingo do Filho Pródigo, aprendemos que o verdadeiro arrependimento é querer retornar à Casa do Pai com um espírito humilde e sem reivindicar quaisquer direitos. Todos os ensinamentos que recebemos nesses domingos que antecedem a Quaresma são ensinamentos de humildade, para que nosso esforço durante o jejum seja frutífero e alcance o seu destino desejado, que é a Ressurreição do Senhor Jesus. Trabalhamos arduamente para adquirir a experiência viva da Sua Ressurreição, que é a promessa e o prenúncio da nossa própria ressurreição no mundo vindouro.
O domingo de hoje tem um duplo significado. Por um lado, os hinos que ouvimos nas Vésperas e no Matinas lembram-nos que somos pecadores, e isso nos dá a humildade necessária para cumprir os mandamentos de Deus. A Quaresma, como toda a nossa vida, é uma jornada do Egito, não para a Jerusalém terrena, mas para a Jerusalém Superior, isto é, para a Presença de Cristo. Hoje, a Igreja nos exorta a ter a determinação dos antigos israelitas, que nunca se esqueceram de que eram “estrangeiros e peregrinos” e que cantavam: “Como cantaremos o cântico do Senhor em terra estranha?”. Toda a terra lhes era “estranha”, estrangeira, pois não podiam esquecer-se da Mãe Sião. Embora os antigos israelitas fossem nômades, conheciam as leis desta vida; Eles tinham um coração tão aberto que podiam conversar com Deus, apropriar-se da palavra de Deus e proclamá-la. Quando se viram no exílio da Babilônia, isto é, quando foram expulsos do Paraíso de Deus, da cidade de Deus, Jerusalém, compreenderam que precisavam ter a determinação de priorizar Jerusalém em tudo o que lhes viesse à mente.
Com essa determinação, eles juravam pelo Nome de Deus que, se esquecessem Jerusalém, sua mão direita também seria esquecida e sua língua se grudaria ao céu da boca: “Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que a minha mão direita se esqueça da sua destreza. Se eu não me lembrar de ti, que a minha língua se me pegue ao céu da boca; se eu não preferir Jerusalém à minha maior alegria”. Tal abnegação, tal determinação eles tinham, para fazer tudo a fim de encontrar “uma morada para o Deus poderoso de Jacó”. Assim também nós, meus irmãos, em todas as práticas que a Igreja nos oferece durante a Quaresma, sobretudo o jejum e a oração, devemos manter uma única determinação: permanecer em constante contato com a energia de Deus, que gradualmente removerá todas as camadas de pecado que se acumularam em nossos corações no Egito deste mundo.
A luta durante este período é tão grande que não pode ser vencida sem que o homem entregue o seu coração. É por isso que a leitura do Evangelho deste domingo nos exorta a perdoar a todos os nossos semelhantes e a pedir perdão a todos os nossos semelhantes. Precisamos de muita humildade para empreender a grande luta que nos aguarda na Grande Quaresma, para oferecer a Deus o dízimo de nossa vida para que toda ela seja abençoada. Sem perdão, o coração permanece fechado; ergue um muro entre o homem e seus semelhantes, que então se torna um muro entre o homem e Deus. É impossível fazer essa jornada de retorno a Deus e agradá-Lo se não tivermos um coração livre, rendido à Sua palavra, rendido à Sua vontade. Precisamos de um coração grande e começamos a encontrá-lo quando aceitamos perdoar todos aqueles que nos feriram, todos aqueles que nos fizeram mal, e pedir perdão a todos. Se não em grandes coisas, ao menos em pequenas, todos somos culpados, muitas vezes sem perceber.
Sem perdoar e ser perdoado, é impossível encontrar a essência do nosso coração. Deus exige que, quando cremos, creiamos com o coração; quando perdoamos, perdoemos com o coração; quando oramos, oremos com o coração, para que possamos permanecer em comunhão com o Seu Espírito. Se o nosso coração estiver livre, certamente será capaz de oferecer um arrependimento agradável a Deus, expresso em lágrimas de arrependimento. Quando o homem chora diante de Deus pelos seus pecados, ele tem apenas um pensamento no coração, o pensamento de Deus, e anseia pela reconciliação com Ele.
Deus nos chama para a festa do Seu amor. O nosso ancião Sofrônio costumava dizer que aguardava ansiosamente cada Grande Quaresma como uma festa de Deus. Qual é a nossa festa? Viver na presença de Deus e regozijar-nos na Sua graça. E assim como os israelitas tinham a determinação e oravam diante de Deus para se lembrarem de Jerusalém acima de todas as coisas, até que Deus lhes concedesse o direito de retornar, também nós devemos ter a determinação em nossas vidas de cumprir os dois grandes mandamentos de Deus acima de todas as coisas. Muitas vezes, meus irmãos, não conseguimos amar o nosso próximo porque não amamos a Deus. E quando o nosso amor esfria e o nosso coração se torna insensível ao amor pelo próximo, não conseguimos encontrar contato com a energia criativa de Deus.
Em seu livro Sobre a Oração, o Ancião Sofrônio dedica um capítulo intitulado “A Oração como Criação Infinita”. A oração é uma criação infinita porque nos mantém em contato com a energia de Deus, que criou o universo no princípio. Essa energia nos abre novos horizontes criativos que nos conduzirão à regeneração. Com tudo isso em mente, iniciemos a Santa Quaresma agradecendo a Deus por tudo o que Ele tem feito por nós e pedindo-Lhe que nos ajude a encontrar o lugar da Sua Presença. A renovação que Deus oferece durante este período é verdadeiramente grandiosa e a graça é abundante. Por essa razão, grande esforço e grande humildade são necessários de nossa parte, para que também nós não deixemos de celebrar a Páscoa eterna.
Arquimandrita Zacarias (Zacharou)
tradução de monja Rebeca (Pereira)








