Muitas pessoas que conversaram comigo tinham a consciência pesada, uma consciência do pecado pelo qual se sentiam acusadas, e acusadas de uma forma que as levava ao desespero; elas não viam mais a luz, não viam mais Deus, não viam mais nenhuma possibilidade — às vezes surge uma tentação que diz: “Ah, a eternidade é só uma história; não existe. O amor é uma quimera, etc., etc.”
Uma pessoa também pode se ver, mais ou menos, em uma situação da qual não consegue escapar. Quero falar sobre um dos aspectos que precisamos entender e ter em mente: Deus também acusou Siluan — perdoem-me por seguir por esse caminho — Deus disse: “Os orgulhosos sofrem com os demônios”. Depois de 15 anos de batalhas titânicas contra demônios, dia e noite, agora Deus vem e me sobrecarrega com a condenação?! Não, a palavra de Deus não me sobrecarrega, e quero dizer que se a palavra da minha condenação na minha consciência me traz esse tipo de desespero, então significa que essa palavra não vem de Deus. Se não vem de Deus, então devemos aprender a nem sequer ouvi-la. Em confissão, uma mulher disse: “Padre, confesso que minha consciência diz, e está escrito no livro do diabo, que…” e eu disse: “Pare!” Tudo o que está escrito no livro do diabo, por mais verdadeiro que possa ser objetivamente, é mentira. Se o diabo diz que sou um monge, então é mentira. Se Deus diz que não sou um monge, então da sua boca eu receberei: não sou.
Mas se uma palavra lhe dá esperança e força para ir mais longe, para confrontar e vencer aquilo que Deus lhe revela, ela não o faz desesperar, mas mostra-lhe do que deve escapar, qual é o próximo passo. O diabo lhe dá isso para destruí-lo, e o diabo o alimenta com colher para destruí-lo; o diabo o condena para destruí-lo; O diabo diz coisas que, na realidade, são verdadeiras, que você fez isso ou aquilo, mas o espírito com que ele o faz transforma tudo em mentira. E eu gostaria de chamar a sua atenção para isto, e que Deus o ilumine, porque em uma breve palestra não podemos explicar tudo, mas tenha isto em mente: existe uma consciência que me condena, mas se ela não tiver uma característica divina, aprenda a não lhe obedecer. Eu não me glorifico; eu não me condeno, exceto diante de Deus, meu Criador, meu Juiz, que me salvou antes de me julgar.
E assim, creio que os grandes Santos, e aqueles de quem não sabemos, passaram pelas casas de pedágio sem sequer as observar; como Cristo diz, eles passaram diretamente da morte para a vida — aqueles que creem n´Ele. E creio que os grandes Santos que passaram diretamente da morte para a vida aprenderam, durante suas vidas, a não dar ouvidos à voz do inimigo. E se essas casas de pedágio aéreas são demônios que nos condenam por uma coisa ou outra — vemos em alguns ícones um cantor com alma, um anjo que canta e um demônio que quer vir e fazer sabe-se lá o quê, e um anjo que empurra o demônio para o lado — algo disso é verdade. Portanto, se essas casas de pedágio são demônios que nos acusam de coisas que sabemos bem que fizemos e que somos sabe-se lá o quê, se sabemos que mentiras saem de suas bocas, então devemos aprender, a partir deste momento, a não ouvi-los: “Eu não falo com vocês; eu falo com Deus”. E eu nem diria “com você, o demônio”. Eu diria: “A Ti, Deus. Senhor, eu não falo com ele, eu falo con´Tigo”, para que Deus Se torne a segunda pessoa e nossas palavras se transformem em uma oração. E não coloquemos o diabo na segunda pessoa, para não termos comunhão com ele. Esse pensamento vem de São Siluan, que fala sobre pessoas, santos, que conseguiam falar com o diabo — Santo Antão, o Grande, o próprio Cristo no deserto e em outras ocasiões. E Siluan diz que é melhor nem falar com eles, porque mesmo que tenhamos essa comunhão, não sairemos ilesos — algo da atmosfera deles, das energias em que existem, permanecerá em nós.
Eu diria: Senhor, ajude-nos, eu acredito no que disse e direi o que acredito, e me perdoe porque não sou assim, mas compartilharei algo com vocês em que acredito: não precisamos ter medo de demônios. Evitamos falar com eles não por medo, mas porque decidi que este mundo não me pertence – o mundo do diabo, o mundo das mentiras, o mundo virtual. Eu escolho, quero que meu mundo seja o mundo de Deus – o mundo da vida.
De modo que, quando nos conscientizamos do pecado dentro de nós, e farei um parêntese, vemos que ao nosso redor existe um mundo que pratica as coisas mais terríveis, as coisas mais demoníacas. Eles não se importam, tudo bem, vestem-se bem, vão ao cinema, se divertem, enquanto milhões de pessoas morrem por causa das palavras do diabo.
Gostaria de destacar o que o Ancião Sofrônio diz em algum lugar, e que está presente em toda a tradição da Igreja: a consciência do pecado é a presença da graça. É a presença da graça sem a graça. Uma pessoa não se torna consciente do seu pecado. Talvez você tenha observado que, em nossa jornada, em nosso processo de transformação, em algum momento de nossas vidas não percebemos o que havia de pecaminoso em nós, e talvez, após anos de comunhão e confissão, não consigamos mais, algo se tornou mais espiritual dentro de nós, e às vezes pensamos: “Senhor, como pude fazer ou pensar isso?”. Nossa consciência se desenvolve, e isso vem da graça. O Ancião Sofrônio diz que, sem a graça, uma pessoa não consegue ver o seu pecado, e vai além, afirmando que a consciência do próprio pecado é o início da verdadeira contemplação. O que acontece? Ver os próprios pecados — e aqui gostaria de encorajar novamente os cristãos — ver os próprios pecados é muito doloroso, mas muito mais importante do que o pecado em si é o fato de vê-los.
Muitos que vieram a mim disseram:
“Padre, vejo que sou assim e assado.”
Eu os testei e perguntei: “Qual vocês acham que foi a palavra mais importante que disseram na confissão?”
“Que sou orgulhoso?”
“Não.”
“Que faço isto?”
“Não.”
“Que faço aquilo?”
“Não. Que você vê.”
Você diz que vê que está orgulhoso? Siluan viu que era impossível para ele ser salvo até os séculos dos séculos, e viu isso claramente. Bem, ele viu! Claro, porque ele perseverou, e eu não sei o que ele fez para não se atirar da janela, para não se matar, mas ele não o fez. Ele clamou a Deus: “Tu és inflexível!” Mas eu não sei como ele sobreviveu àquele momento. Ele sobreviveu, chegou a hora das Vésperas, e depois das Vésperas ele viu Cristo vivo diante do ícone. Claro, porque se ele pôde ver seu pecado ao extremo — “Sou incapaz de ser salvo até os séculos dos séculos, e em vão clamo a um Deus inflexível, que é surdo, que não existe; lanço palavras ao ar e nada acontece” — claro, estou criando um cenário que nós, em maior ou menor grau, vivenciamos em tais momentos, mas ele vivenciou tudo, ao extremo.
Sim, mas é importante que ele tenha começado a enxergar e, claro, duas horas depois, viu Cristo diante do ícone. Por quê? Porque ele havia desenvolvido sua visão espiritual. E é por isso que ouso dizer que é muito mais importante que enxerguemos do que a feiura e a dor do que vemos. E que a graça do Senhor nos fortaleça nisso, para lembrarmos que eu não seria capaz de ver o que vejo agora como pecado se não houvesse graça. Se há graça, significa que este Deus que não existe, em quem não sinto, não vejo, não acredito — muitos confessaram: “Pai, perdi a fé” — é uma fase pela qual todos nós devemos passar em algum momento da vida; é uma pedágio; é um momento de provação, como todos os outros.
“Você quer continuar assim?”
“Não, não quero.”
“Ótimo, então veremos o que Deus nos reserva e por qual caminho Ele nos conduzirá para fora da incredulidade, e não sei que outros pecados.”
E por mais doloroso, vergonhoso, horrível e repugnante que seja o que vejo em mim, é muito mais importante que eu veja, e a partir daí posso ir mais longe. Como posso ser curado do meu pecado, ou melhor, como posso escapar do abismo do pecado, do inferno em que me encontro, se não vejo, se não sei que estou num abismo? E se eu souber, então encontrarei uma saída — não eu, mas Cristo Deus em mim, como diz São Paulo, porque não podemos basear nossa força, nosso entendimento em nossa cultura, lógica, experiência monástica de 180 anos ou o tempo que passei no mosteiro — três anos. Não, é a graça de Deus em mim que fará isso. Sim, eu não posso fazer nada, mas sem que eu veja, e sem que eu faça uma escolha, a escolha certa, Deus Omnipotente não pode fazer nada em mim.
Durante muitos anos, tive uma dúvida. Observei certas coisas e me questionei: o que é a impotência do Omnipotente? Uma contradição em termos, é claro. Sou o tipo de pessoa que entende rapidamente, mas para quem é preciso explicar algo por muito tempo, e isso significava que eu tinha que refletir sobre essa questão por muitos anos até que um dia percebi que a impotência do Omnipotente é a sua falta de arrependimento.
Arquimandrita Rafail (Noica)
tradução de monja Rebeca (Pereira)








