Poucas coisas são tão difíceis no mundo moderno quanto o jejum. Não é simplesmente a ação de mudar nossos hábitos alimentares que consideramos problemática – é todo o conceito de jejum e o que ele realmente implica. Vem de outro mundo.

Entendemos o que é fazer dieta – mudar a forma como comemos para melhorar nossa aparência ou nosso bem-estar. Mas mudar a forma como comemos para conhecer a Deus ou para celebrar corretamente uma festa da Igreja – isso é estranho. Nossa primeira pergunta costuma ser: “Como isso funciona?”. Pois vivemos em uma cultura da utilidade – queremos saber a utilidade das coisas. Subjacente à questão da utilidade está a exigência de que algo faça sentido para mim e que eu possa, em última instância, assumir o controle, usá-lo como bem entender e moldá-lo de acordo com meus próprios desejos. Talvez o jejum pudesse ser melhorado?

Nossa autocompreensão moderna vê as pessoas principalmente como centros individuais de escolha e decisão. Uma pessoa é vista como o produto de suas escolhas e decisões – nossas vidas são auto-autenticadas. Como tal, somos gestores.

É claro que existem muitos problemas com essa visão de mundo sob a perspectiva do Cristianismo clássico. Embora sejamos livres para fazer escolhas e tomar decisões, nossa liberdade não é ilimitada. A maior parte de nossas vidas não é autodeterminada. Grande parte da retórica da modernidade é direcionada àqueles que detêm riqueza e poder. Ela privilegia suas histórias e zomba da fragilidade daqueles que não têm poder, com promessas que raramente, ou nunca, são cumpridas.

Nossas vidas são um dom de Deus e não algo que criamos. A vida espiritual cristã clássica não é marcada pela escolha e pela autodeterminação: ela se caracteriza pelo esvaziamento de si e pelo caminho da Cruz.

Quando um cristão moderno se depara com o período da Quaresma, a pergunta que frequentemente surge é: “Do que quero abrir mão durante a Quaresma?”. A intenção é boa, mas a pergunta está errada. A Quaresma rapidamente se torna mais uma escolha de vida, um jejum de consumo.

A prática do jejum tradicional diminuiu consideravelmente nos últimos séculos. A Igreja Católica modificou seus requisitos e simplificou o jejum quaresmal (hoje, inclui apenas a abstinência de carne nas sextas-feiras da Quaresma, o que as torna semelhantes a todas as outras sextas-feiras do ano). As Igrejas Protestantes que observam o período da Quaresma não oferecem diretrizes formais para a prática quaresmal. O indivíduo fica por conta própria.

A Ortodoxia continua a manter o jejum tradicional completo, que é frequentemente modificado em sua aplicação (as próprias “regras” são geralmente reconhecidas como escritas para monges). É essencialmente uma dieta vegana (sem carne, peixe, vinho ou laticínios). Alguns limitam o número de refeições e a forma de prepará-las. É claro que ter o jejum estabelecido e “cumprir o jejum” são duas coisas muito diferentes. Não conheço nenhum estudo sobre como os ortodoxos no mundo moderno realmente jejuam. Minha experiência pastoral me diz que, em geral, as pessoas se esforçam bastante.

Será que tudo isso importa? Por que os cristãos no mundo moderno deveriam se preocupar com uma prática tradicional?

O que está em jogo no mundo moderno é a nossa humanidade. A noção de que somos indivíduos que se auto-autenticam é simplesmente falsa. Obviamente, não criamos a nós mesmos – é uma dádiva. E a maior parte do que constitui nossas vidas é simplesmente um dado – uma dádiva. Nem sempre é uma dádiva com a qual alguém esteja feliz – gostariam de ser diferentes do que são. Mas o mito do mundo moderno é que, na verdade, criamos a nós mesmos e às nossas vidas – imagina-se que nossas identidades sejam de nossa própria criação. Somos apenas quem escolhemos ser. É um mito extremamente adequado para sustentar uma cultura construída sobre o consumo. A identidade pode ser adquirida a um preço. Os ricos têm uma gama muito maior de identidades à sua disposição – os pobres, em grande parte, ficam presos a ser quem realmente são.

Mas a única vida humana verdadeiramente autêntica é aquela que recebemos como um dom de Deus. A espiritualidade da escolha e do consumo sob o disfarce de liberdade é um vazio. A identidade que criamos é efêmera, um produto da imaginação e do mercado. Os hábitos do mercado servem para nos escravizar – a Quaresma é um chamado à liberdade.

Uma Quaresma Moderna

Assim, um começo para uma Quaresma moderna é arrepender-se do próprio mundo moderno. Com isso, quero dizer renunciar à noção de que você é um indivíduo autogerado e autoautenticável. Você não é definido por suas escolhas e decisões, muito menos por sua carreira e suas compras. Comece reconhecendo que somente Deus é o Senhor (e você não é). Sua vida tem significado e propósito somente em relação a Deus. A prática mais fundamental dessa vida centrada em Deus é a gratidão.

Renuncie à tentativa de se aprimorar e se tornar algo. Você não é uma obra em construção. Se você é uma obra, então é obra de Deus. “Pois somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos” (Efésios 2:10).

Não planeje ter uma “boa Quaresma” nem imagine como seria uma “boa Quaresma”. Pare de julgar, especialmente a si mesmo. Saia do centro do seu mundo. A Quaresma não é sobre você. É sobre Cristo e a Sua Páscoa.

Jejue de acordo com a Tradição, em vez de segundo suas próprias ideias e planos. Isso pode ser difícil para alguns, caso não façam parte da Igreja tradicional e, portanto, não tenham uma tradição de jejum. A maioria dos católicos tem regras diferentes para o jejum em comparação com os ortodoxos. Se você é católico, jejue como um católico. Não admire o jejum de outras pessoas.

Se você é protestante, mas gostaria de viver de forma mais tradicional, considere a possibilidade de se tornar ortodoxo. Na falta disso, faça um pacto com outras pessoas (família, amigos) para manter o jejum tradicional. Não seja muito rigoroso nem muito permissivo e, se possível, faça o jejum de uma maneira que seja mutuamente acordada, em vez de planejada individualmente. Seja responsável, mas não se sinta culpado.

Ore. Jejuar sem orar é chamado de “Jejum dos Demônios”, porque os demônios nunca comem, mas também nunca oram. Jejuamos como um meio de nos aproximarmos de Deus. Seu jejum e sua oração devem estar em equilíbrio o máximo possível. Se você jejuar de forma rigorosa, deverá orar por períodos mais longos. Se jejuar de forma mais leve, suas orações também podem ser mais leves. O importante é que haja união – que a oração e o jejum sejam uma só coisa.

À nossa oração e jejum deve-se acrescentar a misericórdia (doar, especialmente dinheiro). Generosidade nunca é demais. Sua misericórdia deve ser o mais invisível possível aos outros, exceto pela sua bondade para com todos. Gaste menos, doe mais.

Comer, beber, orar e ser generoso são atividades muito naturais. Observe sua vida. Quão natural é a sua alimentação? Sua dieta é baseada em alimentos industrializados e processados ​​(especialmente os servidos em restaurantes e lanchonetes)? Essas podem ser formas muito desumanas de se alimentar. Comer deve levar tempo. Não é perda de tempo gastar até seis horas em 24 horas preparando, compartilhando, comendo e limpando. Até os animais precisam de tempo para comer.

Vá à igreja com mais frequência (se sua igreja oferece cultos extras durante a Quaresma, participe). Isso pode ser problemático para os protestantes, visto que a maioria dos cultos protestantes é bastante moderna, ou seja, focada no indivíduo em vez de direcionada a Deus, bem-intencionada, mas antitética à adoração. Se sua igreja não é entediante, provavelmente é moderna. Isso não quer dizer que o Cristianismo Clássico seja inerentemente entediante – é apenas a experiência que as pessoas têm ao serem condicionadas a consumir. O Cristianismo Clássico pratica o culto de acordo com a Tradição e concentra sua atenção em Deus. Não existe para que você “tire algo de proveitoso” com ele.

Divirta-se menos. Em países ortodoxos tradicionais, os prazeres costumam ser deixados de lado durante a Quaresma. Isso pode ser muito difícil para as pessoas modernas, pois vivemos para consumir e, portanto, estamos presos em um ciclo de dor e prazer. Prazeres comuns, como exercícios ou caminhadas, não são o que tenho em mente – embora me pareça bastante moderno que existam empresas dedicadas a nos ajudar a fazer algo normal (como caminhar ou se exercitar), de modo que até mesmo nossas atividades normais se tornem uma mercadoria para consumo.

Abstenha-se de assistir/ler notícias e de ter/expressar opiniões. As notícias não são apresentadas para mantê-lo informado. Muitas vezes são imprecisas e servem ao propósito principal de propaganda política e frenesi consumista. Nenhuma das duas coisas é boa para a alma. Opiniões são profundamente destrutivas para a saúde da alma. Opiniões não são crenças necessárias e devidamente ponderadas. São paixões que se fazem passar por pensamentos ou crenças. A necessidade de expressá-las revela sua natureza passional.

Posso muito bem imaginar que uma pessoa moderna, ao ler tal lista, se sinta sobrecarregada e se pergunte o que resta. O que nos resta é ser humano. O fato de tanta coisa em nossas vidas não ser particularmente humana, mas sim uma distração efêmera, explica muito do nosso esgotamento e ansiedade. Não há alimento para nós naquilo que não é humano.

E assim me vêm à mente as palavras de Isaías: Ó vós, todos os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei. Vinde, comprai vinho e leite, sem dinheiro e sem custo. Por que gastais dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso salário naquilo que não satisfaz? Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e a vossa alma se deleitará na gordura (Isaías 55:1-2).

“Deixe a vossa alma se deleitar na gordura…” a ironia da Quaresma.


Sacerdote Stephen Freeman
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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