UMA INTRODUÇÃO À GRANDE QUARESMA

Ao contrário do que muitos pensam, a Quaresma é um tempo de alegria. É um tempo em que voltamos à vida. É um tempo em que repudiamos o que é mau e morto em nós para nos tornarmos capazes de viver, viver com toda a vastidão, toda a profundidade e toda a intensidade para a qual somos chamados. A menos que entendamos essa qualidade de alegria na Quaresma, faremos dela uma caricatura monstruosa, um tempo em que, em nome do próprio Deus, tornamos nossa vida uma miséria. Essa noção de alegria ligada ao esforço, à busca ascética, ao empenho árduo pode de fato parecer estranha, e ainda assim percorre toda a nossa vida espiritual, a vida da Igreja e a vida do Evangelho.

O Reino de Deus é algo a ser conquistado. Não é simplesmente dado àqueles que, de forma ociosa e preguiçosa, esperam que ele venha. Àqueles que o esperam nesse espírito, ele de fato virá: virá à meia-noite; virá como o Julgamento de Deus, como o ladrão que entra quando não é esperado, como o esposo, que chega enquanto as virgens insensatas dormem. Esta não é a maneira pela qual devemos aguardar o Julgamento e o Reino. Aqui novamente precisamos recuperar uma atitude mental que geralmente não conseguimos conjurar de nossa profundidade, algo que se tornou estranhamente alheio a nós: a expectativa alegre do Dia do Senhor – apesar de sabermos que este Dia será um Dia de julgamento.

Pode nos parecer estranho ouvir que na Igreja proclamamos o Evangelho – as ‘boas novas’ – do julgamento, e no entanto o fazemos. Proclamamos que o Dia do Senhor não é medo, mas esperança, e declaramos juntamente com o espírito da Igreja: ‘Vem, Senhor Jesus, e vem depressa’ (Ap 22,20). Enquanto formos incapazes de falar nesses termos, falta-nos algo importante em nossa consciência cristã. Ainda somos, apesar do que possamos dizer, pagãos vestidos com trajes evangélicos. Ainda somos pessoas para quem Deus é um Deus fora de nós, para quem a vinda é escuridão e medo, e cujo julgamento não é nossa redenção, mas nossa condenação, para quem encontrar o Senhor é um evento temível e não o evento pelo qual ansiamos e vivemos. A menos que percebamos isso, a Quaresma não pode ser uma alegria, já que a Quaresma traz consigo tanto julgamento quanto responsabilidade: devemos julgar a nós mesmos para mudar, para nos tornarmos capazes de encontrar o Dia do Senhor, a Ressurreição, com um coração aberto, com fé, prontos para nos alegrar com o fato de que Ele veio.

Cada vinda do Senhor é julgamento. Os Padres traçam um paralelo entre Cristo e Noé. Eles dizem que a presença de Noé em sua geração foi ao mesmo tempo condenação e salvação. Era condenação porque a presença de um homem que permaneceu fiel, de apenas um homem que era um santo de Deus, era evidência de que a santidade era possível e de que aqueles que eram pecadores, aqueles que haviam rejeitado Deus e se afastado d´Ele, poderiam ter feito o contrário. Assim, a presença de um homem justo foi julgamento e condenação sobre seu tempo. No entanto, foi também a salvação de seu tempo, porque foi somente graças a ele que Deus olhou com misericórdia para a humanidade. E o mesmo é verdade sobre a vinda do Senhor. Há também outra alegria no julgamento.

O julgamento não é algo que cai sobre nós de fora. Sim, chegará o dia em que estaremos diante de Deus e seremos julgados; mas enquanto nossa peregrinação ainda continua, enquanto ainda vivemos no processo de nos tornarmos, enquanto ainda temos pela frente o caminho que nos leva em direção à plenitude da estatura de Cristo, em direção à nossa vocação, então o julgamento deve ser pronunciado por nós mesmos.

Há um diálogo constante dentro de nós ao longo de nossas vidas. Você se lembra da parábola em que Cristo diz: ‘Faze as pazes com o teu adversário enquanto estás a caminho’ (Mt 5,25). Alguns dos escritores espirituais viram no adversário não o diabo (com quem não podemos fazer as pazes, com quem não devemos chegar a um acordo), mas nossa consciência, que ao longo da vida caminha lado a lado conosco e nunca nos deixa em paz. Nossa consciência está em contínuo diálogo conosco, contradizendo-nos a cada momento, e devemos chegar a um acordo com ela, porque caso contrário chegará o momento em que finalmente alcançaremos o Juiz, e então nosso adversário se tornará nosso acusador, e ficaremos condenados.

Portanto, enquanto estamos a caminho, o julgamento é algo que acontece constantemente dentro de nós mesmos, um diálogo, uma tensão dialética entre nossos pensamentos, nossas emoções, nossos sentimentos e nossas ações que ficam diante de nós para julgamento e diante de quem nós ficamos para julgamento. Mas a este respeito, muitas vezes andamos nas trevas, e essas trevas são o resultado de nossa mente obscurecida, de nosso coração obscurecido, do obscurecimento de nosso olho, que deveria estar claro. É somente se o próprio Senhor derramar Sua luz em nossa alma e sobre nossa vida, que podemos começar a ver o que está errado e o que está certo em nós.

Há uma passagem notável nos escritos de João de Kronstadt, um sacerdote russo do século XIX e início do século XX, na qual ele diz que Deus não nos revela a feiura de nossas almas a menos que possa ver em nós fé suficiente e esperança suficiente para não sermos quebrados pela visão de nossos próprios pecados. Em outras palavras, sempre que nos vemos com nosso lado sombrio, sempre que esse conhecimento de nós mesmos aumenta, podemos então nos entender mais claramente à luz de Deus, isto é, à luz do julgamento divino. Isso significa duas coisas: significa que ficamos entristecidos ao descobrir nossa própria feiura, de fato, mas também que podemos nos alegrar ao mesmo tempo, pois Deus nos concedeu Sua confiança. Ele nos confiou um novo conhecimento de nós mesmos como somos, como Ele sempre nos viu e como, por vezes, não nos permitiu ver a nós mesmos, porque não poderíamos suportar a visão da verdade.

Aqui, mais uma vez, o julgamento se torna alegria, porque embora descubramos o que está errado, ainda assim a descoberta é condicionada pelo conhecimento de que Deus viu fé suficiente, esperança suficiente e fortaleza suficiente em nós para nos permitir ver essas coisas, porque Ele sabe que agora somos capazes de agir. Tudo isso é importante se quisermos entender que alegria e Quaresma podem andar juntas. Caso contrário, o esforço constante e insistente da Igreja – e da palavra de Deus – de nos conscientizar do que há de errado em nós pode nos levar ao desespero e às trevas, até que finalmente tenhamos sido levados tão baixo que não somos mais capazes de encontrar a Ressurreição de Cristo com alegria, porque percebemos – ou imaginamos perceber – que a Ressurreição não tem nada a ver conosco. Estamos nas trevas, Deus está na luz. Não vemos nada além de nosso julgamento e condenação no momento exato em que deveríamos estar emergindo das trevas para o ato salvífico de Deus, que é tanto nosso julgamento quanto nossa salvação.

A Igreja Ortodoxa introduz a Quaresma com uma série de semanas preparatórias nas quais as leituras do Evangelho nos conduzem passo a passo das trevas exteriores, por assim dizer, ao ponto do julgamento. Gostaria de lembrá-los rapidamente desses estágios.

O primeiro estágio dramático em que nos encontramos consiste no fato de que somos cegos e ainda assim não estamos cientes de nossa cegueira. Estamos nas trevas e não percebemos que essas trevas estão dentro e ao nosso redor. Nosso olho está escuro e escurece tudo o que está dentro de nós, enquanto permanecemos alheios a isso. A primeira leitura do Evangelho que nos confronta com este aspecto de nossa preparação para a Quaresma é a história de Bartimeu, o cego à porta de Jericó, um homem que havia perdido a visão ou nascera cego, mas foi deixado lá na escuridão, nas trevas exteriores. Não havia luz para ele, não havia vida para ele também, e não havia alegria para ele. Ele provavelmente havia se conformado com sua angústia. Ele continuou a existir, já que não podia viver. Ele continuou a existir dia após dia graças à caridade fria e indiferente dos seus conterrâneos.

Mas uma coisa tornou sua miséria tanto dramática quanto trágica: ele vivia no tempo de Jesus. Mais de uma vez Bartimeu deve ter ouvido falar desse homem de Deus que viera ao mundo, que estava curando e renovando pessoas e coisas, um homem que havia aberto os olhos dos cegos, que havia dado a visão ao cego de nascença. A presença da possibilidade de salvação, de uma cura impossível, deve ter tornado sua escuridão ainda mais escura. Era possível, se Deus passasse por seu caminho, mas impossível, porque como poderia encontrar o pregador e curador itinerante que nunca estava parado, nunca no mesmo lugar? Como um cego poderia acompanhá-lo? As trevas entraram em sua consciência porque havia uma possibilidade de que ele pudesse ver. Seu desespero tornou-se mais profundo do que nunca, porque havia esperança. E assim, quando Cristo Se aproximou dele, ele pôde pedir a cura a partir da própria profundidade de seu desespero e da própria profundidade de um anseio total e apaixonado por salvação. A vinda de Deus o havia feito consciente da escuridão como nunca antes, consciente como nunca da tragédia que ele vivia.

Este é o primeiro passo, que devemos aceitar e que achamos tão difícil de aceitar: devemos enfrentar nossa verdadeira situação, não nos consolando com o pensamento de que temos algum tipo de vida dentro de nós que pode substituir a vida divina. Devemos aceitar que estamos nas trevas no que diz respeito à luz de Deus. E então devemos fazer algo a respeito. Em primeiro lugar, devemos tomar consciência do fato de que sem luz estamos perdidos, porque a escuridão em que fomos deixados é morte, a ausência de Deus. Mas quando se trata de fazer algo, há duas coisas que ficam em nosso caminho.

Em primeiro lugar, não agiremos a menos que estejamos cientes de que estamos em uma situação desesperadora. Se não estamos cientes de que é realmente uma questão de vida ou morte, da única coisa que importa, então não faremos nada. Oraremos a Deus para que Ele faça algo. Esperaremos que, mesmo sem sequer orarmos, Ele venha e aja. Mas é apenas a partir de um senso de urgência mortal que podemos começar a agir, como Bartimeu, a quem ninguém poderia impedir de gritar, clamando por ajuda, já que ele sabia que este era o momento decisivo. Cristo estava passando. Em um minuto Ele teria ido embora e a escuridão se tornaria permanente, irremediável.

Outra coisa que nos impede de fazer algo é a maneira como temos medo das pessoas. Lembro-me de um homem na prisão que me contou como era maravilhoso ser descoberto, porque, como ele disse, ‘Enquanto não fui descoberto, passei todo o meu tempo e meu esforço tentando parecer que estava bem. No momento em que fui pego, senti: “Agora posso escolher: posso permanecer o que era, um ladrão e um trapaceiro, ou então posso mudar. Agora estou livre para me tornar diferente, e ninguém ficará mais surpreso do que ficaram ao descobrir que eu era um ladrão”‘.

Enquanto você tiver aparências para manter, é terrivelmente difícil mudar, e é isso que a parábola de Zaqueu, que segue a história do Cego, mostra com tanta clareza. O problema de Zaqueu era este: ele queria ver Cristo. Ele correria o risco de ser ridículo ou não? Ser ridículo é muito mais difícil do que ser desaprovado, porque quando somos duramente desaprovados podemos nos esconder atrás de nosso próprio orgulho. Sentimos que ficamos contra o mundo inteiro, mesmo que esse mundo seja tão pequeno que não vale a pena notar. Mas ser alvo de risadas, ser ridicularizado, é algo que está além da coragem da maioria de nós.

Você pode imaginar um gerente de banco em uma cidade pequena subindo em uma árvore no meio de uma grande multidão, com todos os meninos assobiando, apontando para ele com os dedos, fazendo miados e tudo mais, apenas para encontrar Cristo? Bem, essa era a posição de Zaqueu, o homem rico. Mas para ele encontrar Cristo era tão essencial, uma questão de morte ou de vida, que ele estava preparado para desconsiderar o ridículo, a humilhação, ligada à sua ação – e ele viu Cristo.

Há duas maneiras de sair de nossa dependência das opiniões e julgamentos humanos. Devemos ou fazer o que Zaqueu fez, aceitar a humilhação porque é essencial para sermos salvos, ou podemos deixar nossos corações endurecerem e aceitar o orgulho que negará o julgamento dos outros. Não há terceira via. Há apenas a oscilação espontânea que todos experimentamos, sabendo o que é certo, sabendo o que é errado, e nunca decidindo nem pelo certo nem pelo errado, porque sempre que nos voltamos para o errado temos medo do julgamento de Deus, enquanto sempre que nos voltamos para o certo temos medo do julgamento dos homens. Orgulho ou humildade são os únicos dois caminhos pelos quais podemos sair dessa situação. E então há o problema do julgamento de Deus. A história de Zaqueu mostra como podemos oscilar entre o julgamento dos homens e o julgamento de Deus.

Agora surge a oportunidade para outro movimento. Não é hora, quando somos confrontados com vida e morte, de nós mesmos nos julgarmos e não sermos completamente dependentes dos outros? Vemos isso no Publicano e no Fariseu – o primeiro julgamento nítido e definido que é tanto humano quanto divino, porque ambos coincidem. Se nos perguntarmos como é possível que o Fariseu pudesse ser tão orgulhoso apesar de saber tanto sobre Deus e coisas divinas, como era que o Publicano poderia ser tão verdadeiramente humilde apesar de ser simples, acho que podemos encontrar a resposta nisto: os termos de referência para o Fariseu eram encontrados na lei, a letra da lei. Pode-se sempre estar certo no que diz respeito à lei e à letra. Pode-se sempre cumprir regras e mandamentos. Pode-se sempre ter ‘cumprido seu dever’ e sentir-se irrepreensível.

Os termos de referência do Publicano, no entanto, eram diferentes. Ele não era um bom homem. O que ele sabia da lei era isto: certos aspectos da lei o condenavam porque ele sabia como era. Certos outros aspectos da lei ele poderia usar para extorquir o que quisesse das outras pessoas. A lei para ele era um instrumento poderoso, cruel e duro em suas mãos ou nas mãos de Deus. E como ele conhecia a vida, sabia perfeitamente bem que a única salvação da lei era a misericórdia humana, a compaixão humana, uma abordagem e atitude humana uns para com os outros. Era a única coisa que poderia salvar um devedor da prisão ou salvar um extorsionário do julgamento do magistrado: um toque humano. E assim seus termos de referência estavam em tensão entre uma lei que era inexorável, implacável, sempre um poder que não poderia ser cumprido porque ele era fraco demais para ela e, por outro lado, uma lei que poderia ser usada com tanta crueldade contra os outros – e então a relação humana que poderia redimir tudo.

Os termos de referência do Publicano eram as pessoas, seus vizinhos, incluindo aquele vizinho invisível, Deus. É por isso que ele poderia ficar no limiar do templo e bater no peito, embora sem esperança: apesar de toda a lógica das coisas, ele sabia que em seu mundo de homens duros, cruéis e implacáveis havia momentos em que todas as coisas se tornam possíveis, pois um homem pode ser um homem mesmo quando está endurecido e cruel. E assim era com Deus. A lei estava lá para condená-lo, mas Deus era ‘alguém’. Ele não era apenas o legislador. Ele não era apenas Aquele Que Se certificava de que a lei fosse observada. Ele era livre dentro de Sua lei para agir com humanidade. Esse conhecimento fez o Publicano humilde diante de Deus, porque seus termos de referência continham esperança, e o objeto de sua esperança era misericórdia, piedade, caridade. Isso tornou todas as coisas possíveis, apesar do fato de ser tão humilhante ser amado e ser salvo pelo amor.

A mesma verdade aparece de outra forma na parábola seguinte, a do Filho Pródigo. Aqui novamente encontramos dois homens, um que é justo e outro que é injusto. O Filho Pródigo é, de certa forma, outro aspecto do Publicano, e o irmão mais velho é o mesmo que o Fariseu. Mas aqui somos confrontados não apenas com a tensão entre uma lei que é objetiva e, portanto, morta, e a misericórdia, que é subjetiva porque viva e pessoal, mas somos confrontados com o tema do pecado em si. O que significa estar no pecado? Pode ser claramente definido em termos da breve conversa entre o filho e o pai no início da parábola. E se você quiser colocar isso em palavras mais modernas e mais cruas do que o Evangelho, realmente se resume a isto: ‘Pai, eu quero viver, e você fica no meu caminho. Enquanto você estiver vivo os bens são seus. Morra, para todos os efeitos. Vamos supor que você já está morto. Não tenho tempo para esperar até você morrer de fato. Vamos concordar que, no que me diz respeito, não tenho mais pai, mas tenho seus bens porque os herdei’.

Este é o tipo de discurso que encontramos, com a mesma ou talvez menor dureza, em tantas ocasiões entre filhos e pais, entre pessoas que estão relacionadas umas com as outras de uma forma ou de outra. Realmente envolve dizer: ‘Como pessoa você não importa. Você fica no meu caminho. A única coisa que tem valor para mim é o que posso tirar de você. E para que eu possa obter tudo de você, você deve se render até mesmo à sua existência. Você deve aceitar não ser’. Isto é pecado, pecado com relação a Deus, e pecado com relação ao homem. Em relação a Deus, ficamos felizes em tomar tudo o que Ele dá e depois expulsá-Lo de nossas vidas. Ficamos felizes em ir a um país estrangeiro para gastar tudo o que Ele nos deu, enquanto negamos Sua existência com a mesma frieza com que, na Semana Santa, os soldados cobriram os olhos de Cristo para que Ele não pudesse ver, para que pudessem rir d` Ele mais livremente.

O mesmo acontece tantas vezes com nossos relacionamentos com as pessoas. E isso também é pecado. Esse é exatamente o ponto: excluir o outro porque ele não importa. O que importam são as coisas – e o uso que posso fazer delas. E então há outro aspecto nesta parábola: a fome, a angústia, a solidão, todas essas coisas que tanto odiamos na vida, e que no entanto nos vêm como nossa única salvação, porque enquanto estamos cercados de conforto, não percebemos nossa verdadeira situação. Mostramo-nos incapazes de olhar para dentro e de ver que estamos sozinhos no meio dessa multidão e que somos pobres no meio de toda essa riqueza. É importante para nós percebermos que tudo o que vem ao nosso encontro que é amargo, que é duro, que é difícil, que odiamos com toda a nossa ganância e com todo o nosso medo – isso é a nossa salvação. Ser privado é essencial para nós. E se não somos privados, devemos aprender a nos privar até o ponto de nos tornarmos conscientes de que estamos face a Face com o Deus vivo na nudez e no abandono totais e finais que são a condição do homem quando ele não se esconde atrás das coisas. Julgamos tão mal nossa situação a este respeito.

Há uma passagem bonita nos Contos dos Hassidim traduzidos por Martin Buber, na qual ele conta sobre um homem, um rabino, que vivia em uma miséria terrível e ainda assim toda manhã e toda noite agradecia a Deus por Seus generosos presentes. Um daqueles que ouviu sua oração lhe disse: “Como você pode ser tão hipócrita? Você não vê que Deus não lhe deu nada?” E ele disse: “Não, você está enganado. Deus olhou para mim e pensou: ‘Este homem, para ser salvo, precisa de fome e sede, de frio e solidão, de doença e abandono.’ E Ele me deu estas coisas em abundância.”

Esta é a verdadeira atitude cristã, a atitude de um crente para quem a alma realmente importa. E isso é o que o retorno do Filho Pródigo a si mesmo nos mostra. Isso também nos mostra outra coisa. O Filho Pródigo volta, tendo ensaiado sua confissão, e diz: ‘Pequei contra o céu e contra ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho. Permite que eu seja como um dos teus servidores assalariados’. Mas o pai não o deixa dizer as últimas palavras.

Cada um de nós pode ser um filho pródigo, uma filha pródiga, um filho indigno, uma filha indigna, um amigo indigno. O que ninguém pode fazer é ajustar-se a um relacionamento, por mais digno que seja, abaixo de sua posição. Ninguém que é um filho indigno pode se tornar um empregado digno. Não podemos descer de nosso direito de primogenitura, do direito que o amor nos deu em primeiro lugar. E, portanto, não devemos procurar compromisso e reajustes legais com Deus e dizer: ‘Não posso te dar meu coração, mas vou me comportar bem. Não posso te amar, mas vou te servir’, e assim por diante. Isso é uma mentira, um relacionamento que Deus não está disposto a aceitar e Se recusará a aceitar.

O último passo em nosso caminho para a Quaresma é aquele que nos é mostrado na Parábola das Ovelhas e dos Bodes. Coloca diante de nós o seguinte problema: sobre o que vamos julgar e ser julgados? E a resposta é absolutamente clara. Em todo esse processo de julgamento, podemos ter pensado que seremos julgados sobre se temos um conhecimento profundo de Deus, se somos teólogos, se vivemos no reino transcendental. Bem, esta parábola deixa absolutamente claro que a pergunta de Deus para nós, antes que possamos entrar em qualquer tipo de realidade divina, é esta: você foi humano? Se você não foi humano, então não imagine que será capaz de se tornar como o Deus que Se fez homem, como o Deus-Homem Jesus, que é a medida de todas as coisas. Isso é muito importante, porque o tipo de julgamento que estamos constantemente fazendo é um julgamento falsificado. Notamos quão piedosos somos, quanto conhecimento de Deus temos, questões pertencentes ao reino do que um escritor inglês chamou de “Igrejandade” em contraste com o Cristianismo. Mas a pergunta que Cristo nos faz é esta: Você é humano ou subumano? Em outras palavras, você é capaz de amar ou não? Eu estava com fome, eu estava com sede, eu estava nu, eu estava na prisão, eu estava doente. Você foi capaz de responder com seu coração à minha miséria? Você foi capaz de responder, mesmo que isso significasse sacrificar algo seu, com toda a sua humanidade – ou não?

Neste ponto, devemos lembrar o que dissemos antes sobre o Fariseu e o Publicano. Cristo não nos pede para cumprir a lei. Ele não vai contar o número de pães e de copos de água e o número de visitas que fazemos aos hospitais e assim por diante. Ele vai medir a resposta do nosso coração. E isso fica claro a partir das palavras de Cristo em outra parte do Evangelho de São João, onde Ele diz: ‘E, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis’. O fazer não significa nada. Tornamo-nos humanos no momento em que, como o Publicano, como o Filho Pródigo, entramos no reino do coração quebrantado, no reino do amor que é uma resposta tanto ao amor divino quanto ao sofrimento humano. Isso não pode ser medido. Nunca podemos, nesse nível, dizer: ‘Estou seguro. Vou chegar ao julgamento e ser uma das ovelhas’, porque não será uma questão de termos ou não cumprido a lei, mas se esta lei se tornou tanto nós mesmos que cresceu no mistério do amor. Ali, nesse ponto, estaremos na fronteira, no próprio limiar de entrar naquela fonte de vida, naquela renovação da vida, naquela novidade de todas as coisas, que é a Quaresma. Teremos passado por todas essas etapas do julgamento e teremos emergido da cegueira e da lei para uma visão do relacionamento misterioso que pode ser chamado de ‘misericórdia’ ou ‘graça’. E estaremos face a face com sermos humanos.

Mas devemos lembrar que ser humano não significa ser ‘como nós’, mas ‘como Cristo’. Com isso podemos entrar na Quaresma e começar a experimentar através das leituras da Igreja, através das orações da Igreja, através do processo de arrependimento, aquela descoberta dos atos da graça divina que sozinhos podem nos conduzir ao crescimento na plena estatura da semelhança de Cristo. Eu os trouxe até o portão. Agora vocês devem caminhar para dentro dele.


Metropolita Anthony (Bloom) de Sourozh
tradução de Elitza Bachvarova

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

8 visualizações

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes