Antigamente, íamos ao açougueiro e dizíamos: “Leve estes ovos e me dê um pouco de carne”. Íamos ao verdureiro e dizíamos: “Leve este saco de trigo e me dê queijo”. Fazíamos trocas. De maneira semelhante, trocamos Deus e Seu Reino por tudo aquilo que nos ocupa.
Essas trocas são realizadas pelo órgão mais nobre e divino que Deus nos deu, nosso intelecto, e, portanto, ele é atraído, por sua própria natureza, para as coisas com as quais “habitualmente se ocupa”. Aquilo que nosso intelecto observa e contempla habitualmente em nosso coração é o que pesa sobre nós.
Por exemplo, digamos que eu vá me submeter a uma cirurgia e, devido à anestesia, minha mente fique em branco e eu não entenda nada. Lentamente, muito lentamente, começo a me recuperar e minha mente volta à consciência. Me perguntam: “Quem você ama?”. Eu respondo: “Amo Maria, minha esposa”. No entanto, se eu estivesse preocupado com outra coisa, se estivesse preocupado com minhas plantações, perguntaria se choveu, mesmo tendo passado por uma operação e não conseguindo sentir minhas mãos ou minhas pernas.
Em outras palavras, o intelecto se acostuma ou com “coisas terrenas, ou paixões, ou bênçãos celestiais e eternas” e, correspondentemente, é atraído por elas.
Como diz São Basílio Magno, um hábito persistente adquire toda a força da natureza.
Quando nos acostumamos a nos ocupar com algo, carregamos isso em nosso coração e em nossa mente, mesmo quando ascendemos ao Céu. É por isso que devemos esquecer e deixar ir todas as coisas que são “estranhas” para que se tornem “uma terra estrangeira” (cf. Sl 136:4 LXX), detestadas por nós, para que possamos ser livres.
O hábito persistente tem “toda a força da natureza”. Ou seja, o próprio intelecto, o próprio ser de uma pessoa, se apega àquelas coisas que são “estranhas” e, então, para nós, elas se tornam percepção, memória, amor e tesouro. De alguma forma, uma pessoa se mistura com aquilo que viveu.
Geronda Aimilianos de Simonopetra
tradução de monja Rebeca (Pereira)








