O texto a seguir é um trecho de uma discussão no programa “Orthodoxy Live” da Ancient Faith Radio, conduzida pelo Padre Evan Armatas e John Maddox. Esta discussão é especialmente voltada para aqueles que são novos na Grande Quaresma, mas mesmo aqueles que praticam o jejum quaresmal há muitos anos encontrarão informações interessantes e úteis que talvez ainda não conheçam.
Padre Evan: Estamos oferecendo uma edição especial do Orthodoxy Live com o tema da Grande Quaresma, Páscoa e Semana Santa, o Tempo Pascal, Tridion e uma introdução básica à Ortodoxia e à Grande Quaresma. Reunimos as perguntas que recebemos ao longo do último ano e as compilamos em um programa sobre o período da Igreja chamado Grande e Santa Quaresma.
John Maddox, bem-vindo ao Orthodoxy Live. É um prazer estar com você novamente.
John Maddox: Obrigado. É um prazer estar de volta, Padre.
Padre Evan: Esta é uma oportunidade especial para dialogarmos sobre a Grande Quaresma e os períodos que a antecedem e a sucedem.
John Maddox: Bem, sei que muitos de nossos ouvintes são novos por aqui. São pessoas interessadas ou catecúmenos. Talvez esta seja até mesmo a primeira Grande Quaresma deles. E eu me lembro, como cristão evangélico, de não refletir muito sobre a Quaresma ou o seu significado. No entanto, tenho notado nos últimos anos que alguns dos meus amigos evangélicos têm começado a falar mais sobre a Grande Quaresma. Mas geralmente é algo como: “Bem, decidi abrir mão disso ou daquilo durante a Quaresma”. Então, acho que este programa será útil para qualquer pessoa interessada em como a Igreja Antiga sempre encarou a Quaresma e como a Igreja Ortodoxa a vivencia hoje.
Pe. Evan: Sim, é um período que realmente representa o ponto alto do ano para um cristão ortodoxo, e tudo o que fazemos durante o ano litúrgico nos conduz à celebração da morte e ressurreição de nosso Senhor — a gloriosa celebração da Páscoa. Para os ortodoxos, a Páscoa é a festa das festas, que define o ritmo de tudo o que fazemos. E para aqueles que, como você disse, podem estar se aproximando deste período ou aprendendo sobre ele pela primeira vez, devemos dizer que este será um programa que abordará os conceitos básicos. Não teremos tempo nem capacidade para nos aprofundarmos, mas, mesmo assim, esperamos de alguma forma expressar a profundidade e a riqueza desta temporada.
John Maddox: Exatamente. E algo que seria útil, logo de início, seria você nos dar a perspectiva histórica. Onde tudo começou e por quê?
Padre Evan: Este é um assunto que surge nas conversas sobre a Grande Quaresma. Como a Igreja chegou a este período e estrutura de serviços? Quer você já tenha vivenciado a Quaresma antes ou esta seja sua primeira vez, verá que este é um período bastante complexo; há muita coisa acontecendo, diversos Serviços que você não conhece. Há novos nomes e expressões para as coisas. Certas disciplinas espirituais são destacadas, das quais você talvez não esteja ciente, ou pelo menos não costuma vê-las durante o restante do período.
Então, vamos começar dizendo que a Igreja chegou a este período no tempo e no espaço. No início, não tinha a estrutura atual que possui hoje. Precisamos mencionar isso. Aliás, se observarmos os registros históricos que temos sobre a celebração primitiva da Páscoa, uma das primeiras coisas que vemos é um jejum; e por jejum, ou nestia em grego, entende-se a abstinência completa de todo alimento e água. Assim, vemos que na Igreja primitiva havia um jejum completo e total — geralmente na sexta-feira e no sábado que antecediam o domingo da Páscoa. Não sei se você sabia disso?
John Maddox: Não, isso é novidade para mim. Eu certamente já tinha ouvido falar da preparação para o Batismo, mas não sabia que havia abstinência completa de comida e água na sexta-feira e no sábado.
Padre Evan: Sim, foi aí que tudo começou; e desde muito cedo vemos cristãos cronometrando o jejum para que durasse quarenta horas. Eles jejuavam de água e comida por quarenta horas, em preparação para a celebração da morte e ressurreição de nosso Senhor. Claro, duas perguntas podem surgir rapidamente. Por que esse jejum absoluto e por que o número quarenta? Há duas respostas rápidas para isso. A primeira é que, quando o Senhor estava conosco, perguntaram-Lhe por que Seus discípulos, ao contrário dos discípulos de João, não jejuavam. Ele respondeu: “Como podem eles? Como podem jejuar aqueles que estão com o Noivo?” É claro que Cristo Se compara a Si mesmo ao Noivo e a Sua noiva é a Igreja. Ou seja, quando o Noivo está convosco, quando estamos na festa de casamento, não há jejum, mas sim festa. Então Ele disse: “Vem o dia em que o Noivo será levado, e nesse dia, a minha noiva, ou melhor, os meus discípulos, jejuarão” (cf. Mt 9,14-15). Assim, desde muito cedo, os cristãos compreenderam que um jejum — qualquer jejum — estava sempre ligado à sua ausência do Senhor e ao seu subsequente reencontro com Ele. Isto dá-nos uma nova perspetiva sobre o jejum que observamos todas as semanas, começando no sábado à noite e terminando no domingo de manhã, antes de recebermos a Eucaristia.
John Maddox: É uma preparação.
Padre Evan: Sim. É uma preparação completa. É um mandamento bíblico. Aumenta nossa consciência da ausência do Senhor em nossas vidas. Assim, somos lembrados da distância que pode haver entre nós e o Senhor; e então, ao recebermos a Eucaristia, com a celebração da Páscoa, somos lembrados de Sua iminência, de Sua presença absoluta, da união de nossas vidas com a Sua.
John Maddox: E quanto às quarenta horas?
Padre Evan: Isso provavelmente se relaciona mais facilmente à história do Antigo Testamento sobre os israelitas no deserto. Todos conhecemos a história em que os israelitas, tendo deixado a escravidão do Faraó e saído do Egito com Moisés, atravessaram o Mar Vermelho e vagaram pelo deserto por quarenta anos por sua desobediência, antes de receberem a oportunidade de entrar na Terra Prometida. Essa conexão com a peregrinação deles é feita especificamente nas orações da Grande e Santa Quaresma. Os primeiros cristãos entendiam isso. Eles compreenderam esse período de tempo em que o povo de Deus esteve separado de Deus e incapaz de participar da aliança e da promessa plenas de Sua presença. Assim, as quarenta horas surgem naturalmente dessa lembrança. O Antigo Testamento contém diversas outras histórias que incorporam o número quarenta. Podemos pensar em algumas facilmente, não é mesmo?
John Maddox: No Novo Testamento, Jesus está no deserto por quarenta dias.
Pe. Evan: Nessa história específica, Ele ora e jejua à sua maneira para se preparar para o confronto com Satanás — o maligno. Portanto, esse é um período preparatório antes da batalha. No Antigo Testamento, temos a história de Noé e a arca, na qual ele permaneceu quarenta dias e quarenta noites. Temos a história de Moisés, que passa quarenta dias em preparação na montanha para receber os Dez Mandamentos de Deus. Temos os quarenta dias do profeta Elias na montanha antes de confrontar os falsos profetas. Portanto, quarenta é um número muito familiar tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Para os primeiros cristãos, era um período para se preparar de uma maneira bíblica. Não era algo que eles simplesmente inventaram.
John Maddox: Mas não é algo que se pratique em todos os lugares hoje em dia. Eu me pergunto por quê?
Padre Evan: Bem, com o tempo, a Igreja começou a se desenvolver, e vemos evidências de práticas diferentes na Igreja primitiva. Enquanto alguns jejuavam na sexta-feira e no sábado, temos evidências de que os cristãos jejuavam por mais tempo, incluindo a semana anterior. Muito cedo, vemos, na época do Primeiro Concílio Ecumênico, o estabelecimento de um período — quarenta dias antes da celebração da morte e ressurreição de nosso Senhor, a grande Festa das festas, a Páscoa. Existem ótimos recursos para quem quiser estudar o desenvolvimento histórico desse jejum. Falaremos um pouco mais sobre os recursos disponíveis, mas se as pessoas estiverem interessadas em alguma leitura que as ajude a entender como as coisas funcionavam na Igreja primitiva e como as práticas se estabeleceram como são hoje, certamente podem consultar o Padre Evan. O livro de Thomas Hopko, “Primavera da Quaresma”, ou a obra do Padre Alexander Schemann, “Jornada para a Páscoa”. Há também uma pequena obra interessante chamada “O Ano da Graça do Senhor” — um comentário bíblico e litúrgico sobre o calendário da Igreja, escrito por um monge da Igreja do Oriente (Lev Gillet). Qualquer uma dessas obras pode nos ajudar, mas uma das coisas que quero destacar é que, por volta do ano 400, há registro da visita de uma peregrina chamada Ethodea. Vocês conhecem essa peregrina?
John Maddox: Esse nome é novo para mim.
Padre Evan: Ela era uma peregrina que foi a Jerusalém e escreveu sobre sua visita. Em seu relato, vemos que ela escreveu sobre um jejum de quarenta dias em Jerusalém. Isso foi no século IV. E, claro, as Constituições Apostólicas, escritas por volta do ano 400 d.C., prescrevem um jejum de quarenta dias. Ao chegarmos ao Concílio de Trulo, que ocorreu em 692 d.C., vemos a menção às sete semanas da Quaresma, o que nos leva a crer que essa prática era geralmente aceita no Oriente. Nos séculos VIII e IX, ela se tornou universal. O que nos leva à seguinte pergunta: se partíssemos de algo um pouco mais simples, como seria hoje? Se você nunca vivenciou a Quaresma, talvez se pergunte: como ela se apresenta?
John Maddox: Além disso, o Oriente difere um pouco do Ocidente. O Ocidente tem um jejum de quarenta dias, mas o Oriente, na verdade, jejua por mais tempo, embora a Quaresma dure quarenta dias.
Padre Evan: Sim, a Quaresma em si tem quarenta dias, e uma das razões para isso — e é algo curioso — é que a Igreja nunca considerou o sábado e o domingo como dias de jejum. Se analisarmos tecnicamente, hoje no Ocidente [isto é, na Igreja Católica Romana — Ed.], a Quaresma começa na Quarta-feira de Cinzas e termina na Sexta-feira Santa. Então, se somarmos, são quarenta dias. Já no Oriente, o jejum começa em um dia que chamamos de “Segunda-feira Limpa” e termina nas Vésperas que encerram o Sábado de Lázaro. Mas acho que estamos nos adiantando; talvez devêssemos voltar um pouco e ajudar as pessoas a compreenderem toda a abrangência deste período.
Sacerdote Evan Armatas
tradução de monja Rebeca (Pereira)







