UM DIA FECHAREMOS OS OLHOS PARA O TEMPO E OS ABRIREMOS PARA A ETERNIDADE

O ser humano vive constantemente entre dois horizontes: o tempo e a eternidade. Nossa vida terrena é marcada pelo ritmo dos dias e das noites, pelo trabalho e pelo descanso, pelas alegrias e pelas dores. Mas, inevitavelmente, chegará o momento em que os olhos que hoje contemplam este mundo irão se fechar para o tempo, e então se abrirão para a eternidade. Esse é o destino de todos, e também o maior mistério que a fé cristã nos convida a abraçar com confiança.

O Senhor nos ensina: “É necessário que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar” (Jo 9,4). A vida que nos foi dada não é somente um dom passageiro; é um tempo sagrado de preparação. São João Crisóstomo recorda que a vida presente é como um campo onde se planta; a eternidade é o tempo da colheita. Quem semeia no Espírito colherá para a vida eterna (cf. Gl 6,8).

Assim, cada instante que vivemos, cada decisão que tomamos, cada gesto de amor ou indiferença tem um peso eterno. Não somos criaturas feitas apenas para o tempo, mas chamados a viver já aqui, de forma antecipada, a comunhão com Deus.

A morte, tão temida e tantas vezes escondida pela sociedade moderna, não é o fim para o cristão. O Senhor Jesus nos revelou: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25). Para nós, morrer é adormecer no tempo para despertar na eternidade. São Basílio Magno nos recorda que a morte, para quem está em Cristo, é apenas uma passagem, “um êxodo do que é corruptível para a incorruptibilidade, do que é transitório para o que não passa”.

Os Santos Padres insistem que a lembrança da morte não deve gerar desespero, mas sabedoria. Santo Antônio, o grande pai do deserto, dizia: “Recorda-te de tua morte e não pecarás jamais”. Pensar no fim nos ajuda a purificar o presente e a viver com mais verdade diante de Deus.

Fechar os olhos para o tempo e abri-los para a eternidade é, para os fiéis, abrir os olhos para a Face de Cristo. É entrar na plenitude do amor de Deus, onde não haverá mais lágrimas, nem dor, nem morte (cf. Ap 21,4).

Mas os Padres também nos alertam: a eternidade não é neutra. Quem viveu no amor de Deus experimentará a eternidade como luz, alegria e plenitude. Quem, ao contrário, rejeitou o amor divino, experimentará a eternidade como trevas, pois, como diz São Gregório de Nissa, “a mesma luz que ilumina os justos é fogo que queima os que se afastaram de Deus”.

A grande sabedoria cristã é viver no tempo com os olhos fixos na eternidade. Isso não significa desprezar esta vida, mas santificá-la. O Senhor nos chama a ser fiéis no pouco, para que possamos ser fiéis no muito (cf. Mt 25,21).

Quando cuidamos dos pobres, quando perdoamos de coração, quando rezamos com sinceridade, quando carregamos a cruz de cada dia, já estamos participando do Reino eterno. A eternidade não começa apenas após a morte; começa agora, na medida em que Cristo habita em nós.

Um dia, sim, fecharemos os olhos para o tempo. Mas, para o cristão, essa não é uma tragédia, é o início de uma nova visão. Abriremos os olhos para a eternidade, para contemplar o Senhor face a face.

Como nos lembra Santo Efrém, o Sírio: “Bem-aventurado aquele que mantém sua lâmpada acesa, porque quando o Esposo vier, ele encontrará luz e será introduzido no banquete eterno”. Que nossa vida seja, portanto, uma preparação constante, para que, ao fechar os olhos neste mundo, possamos abri-los no seio da luz eterna de Deus.

24.09.2025
+ Bispo Theodore El Ghandour

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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