Qual é a principal arma que o inimigo usa para nos combater? Especialmente durante a Quaresma, quando nos observamos atentamente? Pensamentos — é assim que o demônio tenta se apoderar de nossas almas. Ele nos atira no fogo e na água. E o que são esses pensamentos? Ou o demônio nos inspira uma alegria imensurável, uma esperança imensurável que não nos cabe. Mas o outro extremo é o desânimo, o desespero, a falta de fé em Deus, o terror de possíveis eventos futuros que parecem nos aguardar. E nos esquecemos de Deus, nos esquecemos da Santa Igreja, que nos protege, e mergulhamos no abismo do desespero.
Sempre que esse estado nos acomete — especialmente a tentação do desespero que se abate sobre aqueles que vivenciaram a Semana da Veneração da Cruz — quando o inimigo, com a permissão de Deus, se levanta contra nossas almas justamente por meio dessas tentações e desses pecados, lembremo-nos de que existe um Deus Onipotente e eterno que nos ama infinitamente, sem cuja vontade nada acontece neste mundo. Lembremo-nos de que somos cristãos ortodoxos, não por mérito próprio, mas somente pela graça de Deus, preservados por Deus e pela Santa Igreja. E todas as tentações que nos são permitidas servem para fortalecer nossas almas, para que possamos vencer esses espinhos, para que possamos atravessar as dificuldades da vida neste mundo.
Por que muitas vezes pensamos que estamos fazendo algo, quando na realidade é a intenção do inimigo que está sendo plantada em nossas mentes, e a confundimos com a nossa própria? Por que milhões e bilhões de pessoas vivem em paz, se alegram nesta vida, neste mundo, não se reprimem em nada e, ainda assim, permanecem calmas, bondosas e gentis umas com as outras? Por que nós também não deveríamos aproveitar ao máximo a vida que este mundo nos oferece? Eis um pensamento que, secretamente, mas de forma obsessiva e persistente, assombra o coração de todo cristão.
Durante a Quaresma, muitas vezes nos deparamos com o eterno problema da alma: nossa fraqueza, nossa timidez e nossa falta de fé. Os apóstolos pediram a Cristo: “Aumenta a nossa fé” (Lucas 17:5). A pouca fé é uma doença da natureza humana decaída que só Deus pode curar. Mas com a ajuda de cada um. Com um esforço da alma, comparável ao menos a um grão de mostarda, com o trabalho que os Santos Padres chamam não apenas de labuta, mas de ascetismo. E esta não é uma palavra bonita, mas uma verdadeira consciência da exigência de Deus sobre nós, pois somente através do ascetismo a fé pode ser realizada na prática.
O ascetismo é um ato no limite da força humana, literalmente além das nossas capacidades, quando vencemos tudo o que é fraco, tudo o que é débil, tudo o que não se esforça por Deus dentro de nós. E há muito disso. Ascetismo é não ceder à nossa tendência à preguiça, à timidez, à falta de fé e, em última instância, à infidelidade a Deus.
O que nos separa, principalmente, de Deus e impede que nossas súplicas sejam atendidas pelo Senhor? É a nossa falta de fé, quando nossa oração se torna fraca, insincera, incerta quanto ao seu atendimento e dúbia. E, em segundo lugar, a falta de ascetismo. Somente uma sinceridade profunda, equivalente ao ascetismo, e a paciência podem mover o Criador do Universo a atender às nossas súplicas, pois no tempo certo, quando realmente precisarmos, o Senhor nos guiará, criará e atenderá ao que Lhe pedimos.
Essa espécie de maldade só pode ser extirpada pela oração e pelo jejum (Mateus 17:21), ou seja, pela mesma luta. A oração é comunhão viva com Deus, e o jejum, em seu sentido geral, é o afastamento do mundo, o afastamento das leis perniciosas da existência pelas quais todos vivemos, e sua transformação em leis vivificantes, criativas e não destrutivas. Toda petição cristã é atendida somente por meio de fé sincera, paciência e luta.
Queremos entender tudo imediatamente. Que tudo nos seja claro. Se algo nos é obscuro ou incompreensível, então, por orgulho, surge um certo sentimento de resistência e desconfiança. Essa é uma grave doença do homem moderno, por causa da qual alguns querem refazer o próprio ensinamento da Igreja, refazer a própria Igreja. Devemos pedir ao Senhor que, no tempo certo, nos conceda o conhecimento da verdade que o Cristianismo representa. Não se precipitem, mas busquem com paciência e persistência o conhecimento da verdade de Deus.
O sacrifício de Deus por cada pessoa. Deus espera que compreendamos isso; o Senhor Deus espera e anseia que possamos compreendê-Lo. Mas se isso de fato acontecerá depende de nós: da nossa fé, da nossa sinceridade e do nosso desejo de sermos colaboradores inteligentes e sinceros de Deus nesta vida. Ou seremos apenas “transeuntes”, entendendo pouco, duvidando eternamente e sem estar firmados na rocha da fé, que é Cristo? Que o Senhor nos conceda a todos sinceridade de fé, mesmo em meio às tempestades de dúvida que inevitavelmente aguardam uma pessoa no caminho da vida.
No Evangelho, ouvimos as palavras do Salvador: “Se podes crer, tudo é possível ao que crê” (Marcos 9:23). O que essas palavras significam para nós? Apenas uma promessa do Senhor aos Seus escolhidos especiais e maiores? Palavras para fortalecer os outros? Ou será que é realmente assim — que tudo é possível ao que crê? A fé é o grande mistério e sacramento da vida cristã. “Nem a terra nem o céu podem conter os tesouros da fé”,[1] diz Santo Isaac, o Sírio. A fé é verdadeiramente a coisa mais importante que temos. E, no entanto, ao mesmo tempo, é a mais frágil, a mais esquiva, justamente aquilo que muitas vezes traímos, encontrando-nos num estado entre a fé e a descrença.
Como se desenvolve a fé em nós? O primeiro passo é o reconhecimento de que Deus existe, de que Ele governa o mundo, de que, embora seja absolutamente incompreensível, nos ama infinitamente. Ao mesmo tempo, sabemos pelas palavras do Apóstolo e pelos ensinamentos da Santa Igreja que até os demônios creem e tremem (Tiago 2:19). O próximo estágio da nossa fé é o início do cumprimento dos mandamentos de Cristo. Santo Isidoro de Pelúsio diz: a fé, tendo justificado no princípio, exige obras que a comprovem, sem as quais a salvação é impossível[2], isto é, o cumprimento dos mandamentos de Cristo. Todos nós devemos experimentar a longa jornada inicial entre a fé e as dúvidas nas quais o demônio mergulha a alma humana, e as tentações que acompanham essa jornada, assim como os apóstolos e todos os santos as experimentaram na luta pela sua fé.
E então começa o próximo estágio — a batalha contra as paixões, definida pelos Santos Padres como “uma luta até o derramamento de sangue”. O Senhor não nos apressa. Mas, para o conhecimento do mundo, de si mesmo e de Deus, esta etapa da vida espiritual é necessária como a conclusão daquele caminho de conhecimento do bem e do mal que nossos antepassados tão tragicamente iniciaram. O que é verdadeiramente valioso neste mundo? O que e Quem conduz à salvação? E o que, por mais sedutor e humanamente sábio que seja, é “vaidade de vaidades e aflição de espírito” (ver Eclesiastes 1:2, 14)?
As pessoas que souberam escolher entre as alegrias desta vida, proibidas pelos mandamentos de Deus, e o conhecimento do mundo celestial, pessoas que escolheram o mundo celestial e se mantêm firmes nessa escolha — essas são os grandes santos. Suas orações a Deus são exatamente assim, sua fé em Deus é exatamente assim. A fé realiza grandes coisas, coisas surpreendentes, incompreensíveis para a nossa mente; esses são os poderes de Deus dos quais lemos tanto nas Sagradas Escrituras quanto na Sagrada Tradição da nossa Igreja. Mas todos nós, sem exceção, temos essa oportunidade, se tão somente, como disse São Serafim de Sarov, tivermos a determinação de aproveitá-la.
Metropolita Tikhon (Shevkunov) de Simferopol e Crimeia
tradução de monja Rebeca (Pereira)







