Posso ouvir música durante a Grande Quaresma? Que tipo de música é apropriado para este período?
Não há consenso sobre a abordagem a esta questão. Cada pessoa tem a sua própria maneira de avaliar a música, pois ela desempenha papéis diferentes na vida de cada um.
Existem músicas criadas exclusivamente para entretenimento. Elas alegram ou são eufóricas, com o intuito de evocar certos sentimentos ou emoções. É melhor evitar esse tipo de música. A Grande Quaresma é um período em que o indivíduo não deve se distrair ou se deixar levar por distrações. Pelo contrário, deve concentrar-se mais na sua vida, na sua relação com Deus e com o próximo. Portanto, se a música serve para entreter, distrair ou abafar a reflexão profunda, não será apropriada. Há também músicas que ajudam a pessoa a sentir empatia e outras emoções positivas. Elas auxiliam na concentração e levam à compaixão. Esse tipo de música é aceitável. Além disso, a Grande Quaresma é um período em que podemos permanecer em silêncio para tentar ouvir a voz de Deus em nossos corações.
Você deve olhar para dentro do seu coração e refletir sobre o impacto que esta ou aquela música realmente tem no seu humor. Ela te ajuda? Ela te aproxima de Deus? Ela traz algo positivo para a sua vida: algo que você precisa para sobreviver e não ficar deprimido ao lutar contra o pecado, ou é apenas uma forma de se divertir e preencher os espaços vazios da sua vida? Observe os efeitos: você ganha ou perde algo? Você se aproxima de Deus ou permanece distante? Esse deve ser o seu principal critério.
Você precisa ponderar todas as consequências das suas ações. Por exemplo, se for a Semana Santa e você ouvir música. Que toda a carne humana se cale — portanto, devemos nos manter em silêncio. O Ancião Siluan costumava dizer que se deve jejuar a ponto de poder orar após a refeição: era assim que ele conseguia identificar a medida certa de comida. Uma pessoa pode estar com disposição para orar mesmo comendo muito, enquanto outra não. É por isso que depende se você é viciado em música ou não. Se a música é a sua paixão, então você deve se abster dela durante a Grande Quaresma. Você deve buscar o equilíbrio necessário para permanecer vigilante e desperto.
No que diz respeito à música sacra, ela é até benéfica. Os cânticos quaresmais são orantes e nos conduzem ao arrependimento. É natural que tenhamos concertos quaresmais onde as pessoas ouvem música sacra, cantada nas igrejas durante a Grande Quaresma. É realmente útil para as almas que não conseguem se libertar das vaidades deste mundo. Acho que devemos aproveitá-la.
Ouvi uma opinião de que se pode até comer carne durante a Quaresma devido a uma doença ou por amor ao próximo. Isso é correto?
Deus não tem ciúmes. Onde está a fonte do amor? Está em mim ou em Deus? Posso amar alguém sem Deus ou meu amor é egocêntrico e passageiro? Essas são as perguntas que você precisa se fazer. Amar a Deus e amar o próximo são equivalentes. Como você pode amar outras pessoas sem Deus?
Para que Jesus Cristo veio a este mundo? Ele veio para nos ensinar a amar. Nosso objetivo é restaurar a conexão rompida com Deus. Graças a Deus, somos capazes até mesmo de amar nossos inimigos. Isso nos leva a um nível diferente de amor: um amor que não é passageiro ou emocional, mas inspirado pelo Senhor. É a graça e o amor de Deus que se refletem em nossos corações e transbordam para o nosso próximo.
Quanto ao consumo de carne… Quando São João de Kronstadt era criança, adoeceu. Seu pai disse que preferia morrer a comer carne. Era assim que as pessoas observavam rigorosamente o jejum, seguiam as normas da Igreja e confiavam em Deus. Nem todos alcançaram esse nível de fé. Atualmente, muitas pessoas pedem a bênção de um padre para comer alimentos não permitidos na Quaresma porque seus médicos as aconselharam a fazê-lo. Um padre se oporia ao conselho médico? Se uma pessoa pede essa bênção antecipadamente e está convencida de que não consegue suportar o jejum fora do período da Quaresma — se não confia totalmente em Deus — o sacerdote a abençoará para que jejue com menos rigor.
Parece-me que a questão do consumo de carne é puramente abstrata, dissociada da vida. Para que precisaria de carne uma pessoa moribunda? Ela pode precisar de água, é claro. Se apenas essa carne pudesse trazer a pessoa moribunda de volta à vida, não haveria problema em comê-la. No entanto, se essa pessoa é uma cristã devota e confia em Deus a tal ponto que não quebraria o jejum de jeito nenhum, então quem puder recebê-lo, que o receba (cf. Mateus 19:12)! Infelizmente, existem poucas pessoas assim hoje em dia. Quando um indivíduo começa a se preocupar e hesitar, é pior do que se comesse um pouco de carne e se esquecesse disso. É preciso observar a pessoa em questão e examinar a situação, tentando encontrar o mal menor. Podemos cometer muitos erros por sermos descuidados. As coisas podem ser perfeitas segundo a lei, mas não são aceitáveis segundo o espírito da lei.
Os sacrifícios para Deus são um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito, ó Deus, Tu não desprezarás (cf. Salmo 51:17). Aprendamos a servir a Deus e a honrar o jejum. Que o nosso jejum consista não só na abstinência de carne e laticínios, mas também de sentimentos pecaminosos, da vaidade e da negligência, que nos assaltam não só através da comida, mas também através do que vemos e ouvimos.
Durante a Grande Quaresma, preciso consumir alimentos que não são permitidos na Quaresma devido à minha saúde frágil. Mesmo assim, evito ir a concertos, que gosto muito, e reduzo outras atividades. Como posso me preparar para a Comunhão, além da oração?
É a sua vida, e cabe a você definir os limites das suas práticas ascéticas. Estamos na Quaresma, e você precisa considerar o que pode abrir mão por amor a Deus. Não podemos fazer muito, mas podemos levar ao Senhor a pequena oferta da viúva pobre, não é? Do que você pode se abster durante a Grande Quaresma por amor a Deus? Busque e encontre algo contra o qual você possa lutar. Acredito que isso lhe será útil.
Deus não discute conosco. Não precisamos barganhar com Ele: você faz o que quer, eu faço o que quero… Somos nós que precisamos jejuar, não Deus. Quando uma pessoa se esforça e se força a fazer algo, encontra a alegria e a graça que necessita. O poder de Deus se manifesta na fraqueza (cf. 2 Coríntios 12:9).
Arcipreste Andrey Lemeshonok
tradução de monja Rebeca (Pereira)






