SANTA TORNADA LOUCA OU LOUCA TORNADA SANTA?

HOMILIA SOBRE SANTA XÊNIA DE SÃO PETERSBURGO, LOUCA POR CRISTO

É fácil esquecer que os nossos caminhos não são os caminhos de Deus, que geralmente existe uma grande diferença entre o que é popular e o que é sagrado. Ele nos deu algumas pessoas bastante incomuns para deixar isso claro através do exemplo de suas próprias vidas. Elas são conhecidas na Igreja Ortodoxa como “Loucos por Cristo”, que, embora perfeitamente sãs, agiram e falaram de maneiras que as fizeram parecer loucas aos olhos de muitos e contrariaram a corrente de suas sociedades. Através de seu testemunho singular, elas chamaram seus semelhantes para a vida de um Reino que não é deste mundo.

Se isso lhe parece estranho, lembre-se de como São Paulo disse que a cruz de Cristo é loucura segundo o pensamento humano convencional (1 Coríntios 1:18). Recorde como parecia absurdo aos judeus e aos gentios afirmar que o Filho de Deus nasceu de uma Virgem, morreu na cruz, ressuscitou do túmulo e ascendeu aos céus. Muitas vezes nos esquecemos de que até mesmo os ensinamentos mais básicos da nossa fé pareciam, a princípio, um disparate para a maioria das pessoas.

Hoje comemoramos Santa Xênia de São Petersburgo, Louca por Cristo, que no início do século XVIII, na Rússia, ficou viúva quando seu marido, um oficial militar, morreu repentinamente. Jovem viúva sem filhos, ela doou todos os seus bens aos pobres e desapareceu da sociedade por vários anos, dedicando-se à luta espiritual em ambientes monásticos. Quando retornou a São Petersburgo, adotou a vida de uma andarilha sem lar, vestindo o uniforme militar de seu falecido marido e atendendo apenas por seu nome, André. Ela orava sozinha à noite em campos abertos, suportava o frio extremo com roupas inadequadas, vivia entre mendigos e sofria abusos de muitos por parecer louca. Secretamente, carregava pedras pesadas à noite para ajudar na construção de uma igreja e dava as esmolas que recebia aos pobres. Mas ela abraçou suas lutas com paciência, abandonando o orgulho em todas as suas formas e orando pela alma de seu falecido marido. Na humildade de Xenia, Deus concedeu-lhe grandes dons de oração e profecia, e ela previu eventos futuros, como a morte de uma imperatriz russa.

Durante sua vida, alguns reconheceram sua santidade e buscaram sua bênção e orientação. Após a morte de Xênia, aos 71 anos, seu túmulo tornou-se fonte de milagres, com muitas pessoas levando terra e até pedaços de uma lápide como bênção. (Se parece estranho que um túmulo possa ser fonte de bênção, lembre-se de como os ossos do profeta Eliseu trouxeram um homem morto de volta à vida em 2 Reis 13:21.) Santa Xênia é uma santa muito conhecida e amada, cujas orações são especialmente solicitadas para emprego, moradia ou para encontrar um cônjuge.

Ao longo dos séculos, o Senhor suscitou santos extraordinários para nos despertar da nossa complacência, para nos lembrar que tornar-se participante da natureza divina (2 Pedro 1:14) vai muito além de levar uma vida convencionalmente respeitável. São João Batista, Precursor de Cristo, antecipou-se aos insensatos, pois viveu em estrita ascese no deserto, alimentando-se de gafanhotos e mel, julgou os líderes religiosos estabelecidos dos judeus e ousou até mesmo dizer à família real para se arrepender dos seus pecados, o que acabou lhe custando a cabeça. Os discípulos e apóstolos de nosso Senhor não foram menos ousados ​​e não convencionais, trilhando um caminho para o martírio em nítido contraste com o que judeus e gentios consideravam uma boa vida naquela época e lugar. São Paulo escreveu aos Coríntios que os apóstolos eram verdadeiramente “loucos por amor a Cristo…” (1 Coríntios 4:10).

Quando o Cristianismo se tornou legal e popular no início do século IV, monges e monjas partiram para o deserto para testemunhar, por meio de sua vida de oração e abnegação, um Reino que julga até mesmo a melhor cultura ou sociedade humana. E especialmente quando as pessoas são tentadas a banalizar o significado de tomar a sua cruz e seguir a Cristo, Ele nos dá o testemunho de santos insensatos que zombam do orgulho e da presunção do mundo e incorporam em suas próprias vidas uma humildade que leva à prostração todos aqueles que têm olhos para contemplar o significado espiritual de seu exemplo impactante.

São Paulo se autodenominou o principal dos pecadores em sua primeira carta a São Timóteo. Afinal, ele havia sido um fariseu muito respeitado e perseguidor de cristãos antes de o Senhor Ressuscitado lhe aparecer no caminho para Damasco. Podemos ter certeza de que todos que conheceram Paulo naquele momento de sua vida pensaram que ele havia perdido completamente a cabeça e era um tolo por se tornar um seguidor de Cristo. Ele escreveu que “alcancei misericórdia, para que em mim, o principal, Jesus Cristo demonstrasse toda a sua paciência, como exemplo para os que hão de crer nele para a vida eterna” (1 Timóteo 1:15-16). Se a misericórdia do Senhor se estendeu até mesmo a um perseguidor de cristãos tão fervoroso, então há esperança para todos nós.

Infelizmente, é muito fácil nos cegarmos para a nossa necessidade da misericórdia do Salvador. Podemos nos vangloriar por termos a sabedoria de nos tornarmos cristãos ortodoxos. Podemos nos vangloriar por não cometermos crimes óbvios que vemos outras pessoas cometendo. Podemos nos alegrar por pensarmos que temos todas as soluções para os problemas da nossa nação e do mundo, se ao menos nossos oponentes e inimigos começassem a pensar como nós. A única questão relevante diante de Deus, porém, é muito diferente, pois diz respeito a se temos olhos para ver claramente quem somos, quem Ele é, e então viver de acordo com isso. Em outras palavras, devemos saber, no fundo de nossas almas, que estamos em constante necessidade da graça, misericórdia e bênção divinas, que não merecemos e não podemos produzir por nós mesmos. Nossa vida no mundo deve se tornar um ícone do Reino celestial, não um fim em si mesma. É por isso que Cristo enviou, e ainda envia, Seus santos loucos para nos despertar, para nos sacudir da nossa complacência em presumir que tudo está bem e que são apenas os outros que precisam mudar seus caminhos. Não, o arrependimento sempre começa em nós e facilmente nos faz parecer um tanto tolos aos olhos do mundo.

Infelizmente, os cristãos fiéis de hoje não precisam se esforçar muito para parecerem tolos. Quando perdoamos aqueles que nos ofenderam, recusamos guardar rancor e fazemos o bem aos nossos inimigos, alguns não saberão o que pensar de nós. Quando contribuímos sacrificialmente para ajudar os necessitados, sejam membros da nossa própria paróquia, vítimas de guerra e perseguição no Oriente Médio ou mulheres grávidas em nossa cidade que buscam uma alternativa ao horror do aborto, muitos pensarão que estamos desperdiçando nosso dinheiro. Quando vemos e servimos a Cristo em nossos semelhantes, independentemente de sua raça, nacionalidade, riqueza, posição social ou qualquer outra característica humana, alguns pensarão que somos ingênuos e perigosos. Quando reservamos a intimidade sexual apenas para a união singularmente abençoada entre marido e mulher e nos afastamos do entretenimento que inflama nossas paixões e enche nossas almas de tentação, podemos ser ridicularizados ou insultados. Quando priorizamos a oração, o jejum e a frequência aos Serviços Litúrgicos em detrimento da preguiça, da auto-gratificação ou de nossas rotinas e preocupações obsessivas, nos destacamos da corrente principal. E quando demonstramos nossa lealdade suprema a Cristo e ao Seu Reino, em contraste com a política e as expectativas sociais deste mundo, devemos esperar ser chamados de tolos.

Se vivermos assim, nos colocaremos no lugar do mendigo cego da leitura do Evangelho de hoje, que clamou: “Jesus, Filho de David, tem misericórdia de mim!”, mesmo quando outros lhe diziam para se calar. Ao fazerem isso, aquele homem abençoado clamou ainda mais pela misericórdia do Senhor. Como o mendigo cego, receberemos a nossa visão quando persistirmos em nos prostrar diante d´Ele em humildade, com toda a nossa alma, independentemente do que os outros pensem ou digam. Foi isso que todos os Loucos por Cristo fizeram com suas ações e palavras. Eles alcançaram a clareza espiritual para ver que o absurdo em torno do qual geralmente organizamos nossas vidas é uma terrível distorção da verdade que tão facilmente se transforma em um falso deus.

Cristo certamente não nos chama a todos para o raro ministério de um Louco por Cristo como Santa Xênia, mas todos podemos aprender com seu exemplo que a humildade de reconhecer nossa constante necessidade de misericórdia está no cerne da fidelidade a um Senhor cujo Reino não é deste mundo. Deve haver algo do santo louco em todos nós, se quisermos que nossos olhos se abram para uma verdade que o mundo ainda não vê. Portanto, não tenhamos medo de viver de acordo com essa verdade e de estar em desacordo com a sabedoria convencional, pois é assim que O seguiremos através da loucura da cruz até a glória do túmulo vazio. Pois a loucura de Cristo é mais sábia que a sabedoria do mundo, e Ele é a sua salvação.


Sacerdote Philip LeMasters
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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