Quem segue corretamente o caminho da cura se liberta dos logismoi; torna-se equilibrado interiormente e se comporta normalmente. Essa pessoa não se tortura nem tortura os outros. Isso é muito significativo, pois se observarmos pessoas psicologicamente desequilibradas, podemos ver claramente que elas estão possuídas por ideias fixas e padrões de pensamento e não conseguem se libertar delas.
d) A vida néptica é a vida social; e, de fato, é a vida social por excelência, porque ajuda a pessoa a recuperar as faculdades naturais de sua alma e a funcionar, a partir desse ponto, “segundo a natureza” (ou seja, como Deus planejou).
Nos ensinamentos dos Santos Padres, as paixões não são forças externas que entram em nós e devem, portanto, ser arrancadas. Em vez disso, elas são energias da alma que foram distorcidas e precisam ser transformadas. A alma de uma pessoa, no que diz respeito às paixões, é dividida em três faculdades: a inteligente (racional), a apetitiva (desejo) e a irascível (afetiva). Essas três faculdades devem ser direcionadas a Deus. Quando se afastam d[ Ele e dos outros, tornam-se conhecidas como paixões. Por isso, a paixão é um movimento da alma contra a natureza.
São João Sinaíta deixa isso bastante claro ao usar certos exemplos. As relações conjugais são completamente naturais para a procriação; no entanto, o homem contemporâneo alterou seu significado para algo banal. A raiva é natural quando dirigida contra o maligno, mas a usamos contra nossos irmãos. A inveja é natural, desde que o que é cobiçado e imitado sejam as virtudes dos santos. No entanto, ela também é empregada contra nossos irmãos.
O desejo de glória é natural, desde que se busque o Reino dos Céus, mas infelizmente esse desejo é gasto em coisas triviais, temporais e mundanas. O orgulho associado à glória é natural quando voltado contra os demônios. A alegria é natural quando se está em Cristo. Recebemos o rancor de Deus para usá-lo contra os demônios. Recebemos a inclinação para a verdadeira extravagância, que está relacionada ao desejo pela riqueza da eternidade. No entanto, transformamos isso em desperdício. Assim, as paixões são o movimento das faculdades da alma contra a natureza.
Dentro da perspectiva da espiritualidade ortodoxa, quando uma pessoa é libertada da vaidade, que gera mundanidade, avareza e ambição, ela adquire amor por Deus e amor pelos homens. Ela verdadeiramente ama os outros. Ela vê em cada pessoa a imagem de Deus. E por isso se torna verdadeiramente social. Quem pode negar o fato de que é a própria pessoa quem corrompe as instituições sociais, e, por sua vez, essas instituições sociais corrompidas fazem as pessoas cada vez mais disfuncionais? Quando uma pessoa doente assume uma posição de autoridade, ela cria enormes problemas sociais.
Uma exceção é aquele que vive na tradição hesicasta, que sendo ele próprio transformado, se torna um consolador para outros que têm problemas e são atormentados por eles.
e) Um dos maiores problemas existenciais, assim como sociais, é a morte. Ela aflige a todos pela sua própria existência ou quando atinge alguém que amamos. A morte é terrível para o homem, porque rompe a unidade entre a alma e o corpo e a união entre as pessoas amadas. É a fonte do pecado. Não só é filha do pecado, mas também causa o pecado.
O homem nasce mortal e perecível. Consequentemente, ele deve inevitavelmente enfrentar as exigências das doenças e a eventualidade da morte, o que definitivamente cria grande insegurança. O homem de fato experimenta a morte quando tenta ter sucesso na vida, fazer seu nome, ganhar muito dinheiro ou estar assegurado nas melhores seguradoras e ser querido por muitas pessoas.
“Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para que obedeçais às suas concupiscências (Rom. 6, 12).
“A aguilhada da morte é o pecado” (1Cor. 15, 56).
“Mas vejo outra lei nos meus membros, guerreando contra a lei da minha mente, e me aprisionando à lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rom. 7, 23-24).
Outra consequência da decadência e mortalidade em nossa natureza são as paixões da avareza e do amor pelas posses. Quando uma pessoa experimenta a tragédia da morte em seu ambiente mais íntimo, ao perder um dos seus entes queridos, ela sente seu impacto. Ela cai em desespero e depressão.
A tragédia da morte se torna mais intensa à medida que a pessoa sente que se aproxima dela. Se ele não acredita em Deus, é difícil superar os momentos dolorosos que se seguem.
O cristão, no entanto, que vive a vida ascética e sacramental da espiritualidade ortodoxa, supera a mortalidade. Através do Batismo e da Santa Comunhão, ele vai além de sua existência biológica e adquire a bem conhecida hipóstase espiritual. Ele tem comunhão com os Santos e está plenamente consciente da existência da Igreja triunfante, e que a morte foi abolida pela ressurreição de Cristo. Ele sabe que há também outra vida na qual ele entrará para viver eternamente no amor de Deus, além da mortalidade e da decadência. Ele também sabe que os corpos serão ressuscitados.
Algumas pessoas afirmam que a Igreja não está envolvida em obras sociais. Isso não é verdade, pois a Igreja exerce uma gama rica e variada de trabalho social. Se investigarmos com cuidado, descobriremos que existem os Arcebispos e padres locais que desenvolvem vários programas, confortando os pobres, os abandonados, os idosos, os enfermos, os órfãos, etc. Além disso, porém, devemos dizer que a maior oferta social da Igreja é que ela está lá para ajudar o homem a superar a morte. Não pode a perda de um ente querido causar uma ruptura tão grande dentro de uma família, que nada possa compensar? E isso não é um dos problemas sociais mais graves?
Além disso, como foi destacado anteriormente, a mortalidade e a decadência em nossa natureza geram uma infinidade de problemas sociais, criando o desejo por riqueza, posses, etc. A Igreja, através de seus pastores, liberta o homem desses problemas atormentadores. Ela o prepara para enfrentar a morte com vigilância, compostura e, acima de tudo, com fé em Deus.
Na Montanha Sagrada, encontram-se monges que não temem a morte, como acontece com todos os Santos. Em sua descrição da morte de Santo Antônio do Egito, Santo Atanásio diz que, depois que os irmãos presentes abraçaram Santo Antônio, o Santo, transbordando de alegria, esticou as pernas e “adormeceu”.
f) A pessoa curada e saudável também cultiva todos os outros valores culturais. Os Santos de nossa Igreja nos deixaram um legado cultural eminente — um fruto de sua própria personalidade santificada: igrejas magníficas, instituições monásticas, renomadas em sua época assim como na nossa, iconografia que não é facilmente reproduzida pelos contemporâneos, uma excelente hinografia de valor literário requintado, além de sua profunda fé e devoção; música apreciada pelos grandes musicólogos de nosso tempo. A pessoa espiritualmente saudável produz obras “saudáveis” — os frutos de sua própria regeneração.
g) Uma vez que o portador da espiritualidade ortodoxa ama a Deus e entende, através de seu nous iluminado, as causas dos seres, ou seja, ele vê a energia não criada de Deus em toda a criação, ele trata a natureza e todo o mundo adequadamente. Assim, pode-se também dizer que ele contribui para a solução dos frequentemente mencionados problemas ecológicos.
Hoje, o consumo excessivo está criando a demanda por superprodução. Essa produção excessiva tem consequências imensas para a terra, que está sendo violada para esse propósito. Não é surpresa, então, que uma natureza devastada esteja “punindo” os habitantes da terra. Essa poluição ambiental não é independente das paixões de amor ao prazer, avareza e ambição.
Hoje, a natureza sofre mais como resultado de sua opressão sob o domínio do homem impassível. Agora, mais do que nunca, o modo de vida ascético é uma necessidade.
Os exercícios espirituais da Igreja Ortodoxa, como descritos anteriormente, têm um efeito benéfico sobre o mundo ao redor. Isso é visível nas vidas de muitos Santos que respeitavam a natureza de forma extrema; não apenas emocionalmente amavam a natureza, mas porque podiam ver, através de sua pureza, a energia de Deus em toda a criação. Tais casos são abundantes na Montanha Sagrada:
“Uma vez matei desnecessariamente uma mosca. A pobre criatura rastejou no chão, ferida e mutilada, e durante três dias inteiros eu chorei pela minha crueldade com um ser vivo, e até hoje o incidente permanece na minha memória. De alguma forma, aconteceu que alguns morcegos se criaram no balcão do depósito onde eu estava, e eu derramei água fervente sobre eles, e mais uma vez derramei muitas lágrimas por isso, e desde então nunca mais feri qualquer criatura viva.
Um dia, indo do Monastério para o Velho Russikon-na-Colina, vi uma cobra morta no meu caminho que tinha sido cortada em pedaços, e cada pedaço se contorcia convulsivamente, e eu fiquei cheio de compaixão por cada ser vivo, por cada ser sofredor na criação, e chorei amargamente diante de Deus.
O Espírito de Deus ensina a alma a amar cada ser vivo, para que ela não cause mal nem mesmo a uma folha verde em uma árvore, ou pise sob os pés uma flor do campo.
Assim, o Espírito de Deus ensina o amor por todos, e a alma sente compaixão por cada ser, ama até seus inimigos e tem pena até dos demônios, porque caíram do bem.” (Arquimandrita Sofrônio, São Siluan o Athonita, Monastério Estavropégico de São João Batista, Essex 1991).
Além disso, é sabido que a natureza não possui vontade moral. Consequentemente, ela não caiu por si mesma, mas foi arrastada para a decadência pelos seres humanos. O pecado de Adão teve imensas consequências para a natureza também. Por essa razão, a santidade ou o pecado de cada pessoa reflete também sobre a criação.
Portanto, a espiritualidade ortodoxa é tanto néptica quanto social. E é precisamente porque é néptica no mais pleno sentido da palavra que ela pode ser social. A experiência de comunidade fora da vida néptica é, na realidade, antissocial.
Metropolita Hierothoes (Vlachos) de Nafpaktos
tradução de monja Rebeca (Pereira)








