TEOLOGIA NÉPTICA E SOCIAL – PARTE 1

A teologia, em sua expressão autêntica, é a palavra de e sobre Deus. Quanto mais a teologia está vinculada à verdade e à visão de Deus, mais verdadeira é a palavra sobre Deus. Isso, no entanto, pressupõe a presença de um teólogo verdadeiro e fiel. No ensinamento dos santos Padres da Igreja, o teólogo é aquele que vê Deus. Somente aquele que viu Deus e se uniu a Ele através da deificação (teose) adquiriu o verdadeiro conhecimento de Deus. Segundo São Gregório, o Teólogo, teólogos são aqueles que alcançaram a “theoria” [teoria, contemplação], tendo sido previamente purificados de suas paixões, ou estando pelo menos no processo de purificação.

É precisamente essa posição que revela que a teologia da Igreja é una e que não há separação entre teologia néptica e teologia social. Toda teologia é, simultaneamente, tanto néptica quanto social. Isso significa que os santos Padres também não são rigidamente divididos em teólogos népticos e sociais.

No entanto, pode-se fazer uma distinção convencional ao falar sobre os Padres que viveram toda a sua vida no deserto e aqueles que estiveram envolvidos no serviço pastoral. Ainda assim, deve-se dizer que essa distinção é artificial por duas razões fundamentais: primeiro, porque mesmo os chamados Padres sociais passaram pela népsis 1 (vigilância) e pela purificação do coração; e segundo, porque os Padres népticos, que viveram como eremitas, praticaram o serviço pastoral indiretamente, por meio de suas orações por todo o mundo e orientando os peregrinos que os visitavam em busca de cura.

O verdadeiro trabalho da teologia é a cura da pessoa. Um teólogo autêntico conhece o problema e é capaz de curá-lo. E, certamente, a própria enfermidade é o obscurecimento do nous. Assim, a verdadeira teologia é néptica, e o verdadeiro teólogo é, em essência, néptico, pois deve reconhecer todos os segredos da luta espiritual e possuir discernimento, cultivado como resultado de sua própria jornada espiritual rumo à saúde.

Portanto, toda a Teologia Ortodoxa é néptica, pois tem como objetivo a cura do ser humano. Ela cura o homem e liberta seu nous da tirania da razão, do ambiente e das paixões. Isso é realizado por meio da vigilância e da oração.

A vigilância (népsis) é atenção e o estado de alerta espiritual. Cristo disse a Seus discípulos: “Vigiai e orai” (Mt 26,41). O apóstolo Paulo também instrui seu discípulo Timóteo: “Sê sóbrio em tudo” (2Tm 4,5). Assim, a vigilância é a atenção espiritual; é a prontidão do nous para não aceitar nenhum pensamento sedutor. Segundo os santos Padres, a vigilância (népsis) é a presença da razão à porta do coração, protegendo-o contra a entrada da tentação e contra qualquer condição que possa levar ao pecado. A vigilância está intimamente ligada à oração. De acordo com São Máximo, o Confessor, a vigilância mantém o nous livre de qualquer sugestão tentadora, enquanto a oração traz abundante graça ao coração. Por isso, a vigilância também é chamada de sentinela do coração. Assim, vigilância e oração, ou seja, atenção e oração, são as duas armas espirituais que constituem a “filosofia em Cristo”.

A filosofia prática, da qual fala São Máximo, o Confessor, não é uma especulação teórica, mas um trabalho interior noético pelo qual a pessoa se torna um instrumento adequado da Revelação divina. É assim que o homem se torna portador da Revelação e conhece a Deus. O coração é libertado de todos os pensamentos (logismoi) e mantém apenas uma única invocação — a oração incessante: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador”.

O coração não aceita nenhum outro logismoi. A rejeição dos logismoi não significa, é claro, que a razão seja separada dos pensamentos, mas sim a libertação do nous, isto é, do coração. É assim que o coração é purificado e, através da oração, recebe abundante graça de Deus. Todo esse processo é chamado de hesiquia noética — hesicasmo. O hesicasmo nada mais é do que o “método” espiritual pelo qual o coração é purificado para reter apenas o Nome de Cristo em seu interior.

E precisamente essa atividade assume, ao mesmo tempo, um caráter social, pois, quando o homem é curado, ele se torna imediatamente o mais sociável dos homens. Quando uma sociedade ou uma família é composta por pessoas saudáveis, problemas sociais ou familiares graves praticamente não existem. Talvez, devido às circunstâncias individuais ou ao temperamento de cada pessoa, problemas possam surgir; no entanto, uma pessoa curada reconhece o que pode ser superado e coloca as coisas em ordem. Isso pode ser observado em certos ascetas, que mantêm deficiências devido à doença, idade ou ao caráter, mas até mesmo esses defeitos parecem “graciosos: , isto é, não provocam; são considerados como manifestações naturais de um homem que tem a graça incriada de Deus dentro de si.

Assim, ao estabelecer certos pontos, pode-se revelar que o homem néptico é o homem social por excelência.

a) O maior e mais significativo ato social na história da humanidade foi realizado pela Mãe de Deus. A Theotokos, como é chamada na Igreja Ortodoxa, não reivindicou nenhum cargo na primeira Igreja. Ela não exerceu ministério, como os Apóstolos. Ela Se ocupava, ao invés disso, com silêncio e oração. No entanto, prestou um grande serviço pastoral.

São Gregório Palamas diz que, após a Ascensão de Cristo ao Céu, a Theotokos viveu com paciência e muitas práticas ascéticas, orando por todo o mundo e exortando os Apóstolos, que pregavam no universo. Para os Apóstolos, a Theotokos era um pilar de apoio Cujas orações eles ouviam e Cujas percepções e contribuições para a pregação do Evangelho acolhiam. Assim, por meio de Sua oração e cooperação com os Apóstolos, ajudou, de maneira significativa, com o trabalho missionário 2.

O trabalho da Theotokos, no entanto, não se limita a essa área apenas. A Panagia (a Santa acima de todos os Santos) tornou-Se a maior missionária da história, pois ela se preparou e alcançou a divinização (teose) da maneira que sabia; Ela Se tornou “a mais abençoada” e, no final, Se tornou digna de gerar o Filho e Verbo de Deus. Ela deu Sua carne à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade para que Ele Se encarnasse. Ela, portanto, por um lado, nos mostrou o caminho que devemos seguir se desejamos nos aproximar da semelhança de Deus; por outro lado, nos ofereceu o remédio mais poderoso para nossa doença: isto é, Ela Se tornou a causa da maior felicidade que o mundo jamais conhecerá — Ela deu à luz o Cristo Encarnado.

Este grande trabalho é visto, é claro, nas vidas dos verdadeiros hesicastas também. Ao se envolverem na purificação de seus próprios corações e na cura de suas próprias personalidades, eles oferecem grande consolo à humanidade. A regeneração de uma única pessoa pode gerar o maior clamor em todo o universo. Os hesicastas testemunham ao longo dos séculos o trabalho missionário por meio de sua mera existência, suas orações e ensinamentos. Eles abençoam e santificam o mundo mesmo após sua morte, através de suas relíquias sagradas. Assim, é no silêncio que ocorre a ação mais dinâmica.

b) A pessoa que é regenerada pela graça divina se torna o ser mais sociável de todos. Um bom exemplo disso é a parábola do Filho Pródigo, conforme interpretada por São Gregório Palamas 3.

O “nous pródigo”, ou seja, o afastamento de Deus, tem consequências não apenas para o indivíduo, cuja degradação o tornou doente, mas também para toda a sociedade; pois ele se enfurece e luta contra seus semelhantes porque seus desejos irracionais não podem ser satisfeitos. Ele se torna homicida e passa a se assemelhar a um animal selvagem.

Portanto, quando o nous está afastado de Deus, a pessoa se torna anti-social, enquanto quando o nous retorna ao coração de sua dispersão e então ascende a Deus, ela se torna ainda mais social. Uma pessoa curada é a saúde de sua comunidade.

c) Conclui-se que a pessoa que é portadora da espiritualidade ortodoxa é interiormente integrada. Ela não sucumbe à tirania dos pensamentos-logismoi. E é bem sabido que os logismoi podem criar problemas psicológicos terríveis, levando a pessoa à insanidade.

Quando falamos de logismoi, não nos referimos apenas a pensamentos simples, mas sim àquelas sugestões racionais associadas a imagens e estímulos provocados pela visão ou pela audição, ou até mesmo por ambos. Portanto, os logismoi são imagens e estímulos com uma sugestão intrínseca. Por exemplo, uma imagem vem à nossa mente sobre glória, riqueza ou prazer. Essa imagem é acompanhada por um pensamento: “se você fizer isso, você ganhará glória, dinheiro – você será muito poderoso”. Essas racionalizações são chamadas de logismoi e, por meio de seu poder de sugestão, podem evoluir para o pecado.

O “acoplamento” é a conversa do homem com o logismos, ainda hesitando sobre agir ou não sobre ele. O “assentimento” é um passo além do simples acoplamento. O homem resolve agora agir conforme o logismos específico. O desejo entra no processo e o compromisso com o pecado é efetivado. Atos repetidos de pecado criam a paixão. No estágio do acoplamento, o logismos aspira incitar prazer para cativar o nous e, consequentemente, escravizar a pessoa.

De acordo com os Pais, os logismoi são simples ou complexos. Um logismos simples não é obsessivo, enquanto um pensamento complexo está ligado à paixão e a um conceito. São Gregório faz a distinção entre paixão, conceito e objeto. O ouro é um objeto, assim como uma mulher ou um homem. A simples memória de um objeto é um conceito. E paixão é um amor irracional ou ódio aleatório ligado ao conceito de um objeto particular.

Os logismoi evoluem para o pecado e a paixão. E a paixão não nasce apenas dos logismoi, mas também é fortalecida por eles. Ela adquire raízes poderosas e, depois, a pessoa encontra grande dificuldade em sua própria transformação. Os logismoi literalmente fazem a pessoa apodrecer. Eles envenenam e contaminam a alma. Os logismoi trazem turbulência para as faculdades da alma. Os Santos Padres não apenas atribuem as quedas de uma pessoa aos logismoi, mas também descrevem as perturbações que eles causam nos relacionamentos interpessoais. Além disso, muitas doenças físicas são causadas pela presença desenfreada de logismoi. Além de tudo isso, no entanto, um homem possuído pelos logismoi perde sua sinceridade e a comunhão íntima com Deus.

A posse e o sustento é o nosso nous. Quando o nosso nous confia em Deus, estamos em um bom estado. No entanto, quando abrimos a porta para nossas paixões, então o nosso nous “se dispersa” e vagueia constantemente na direção das coisas mundanas, vários prazeres e pensamentos impetuosos. No nosso caminho, ele nos desvia do verdadeiro amor, o amor por Deus e o amor pelo próximo, e nos conduz para o desejo de coisas sem valor e o anseio por glória vã. É assim que o amor ao prazer, a ganância por dinheiro e a ambição se desenvolvem. Então, a pessoa adoece, como expressa São Gregório Palamas, ela se torna infeliz, e nem o brilho do sol nem a respiração do ar fresco lhe dão prazer.

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1 Népsis [ou nípsis] (vigilância): Estado de alerta espiritual, atenção constante e prontidão para que o pensamento não progrida a partir da razão e entre no coração. Somente o nous deve estar dentro do coração, e não os pensamentos — logismoi. Esse estado de alerta espiritual é chamado de népsis.

2 Cf. acima São Gregório Palamas, E. P. E., Vol. 10, p. 442-444.

3 Cf. acima São Gregório Palamas, E. P. E., Vol. 9, p. 92.



Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos
tradução do Sub-Diácono Gregório Siqueira

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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