Após a metade deste período [Quaresma], a Igreja oferece, então, um auxílio adicional apropriado aos nossos esforços ascéticos, que variam de acordo com as capacidades de cada um de nós, apresentando a figura perfeita do ascetismo – São João da Escada – aquele grande asceta que realmente derramou sangue em suas lutas espirituais para receber Deus, o Espírito Santo. Toda a luta que o levou a Deus é descrita por ele em sua obra “A Escada”, um livro que, para os monges, é o guia mais seguro para sua vida. É claro que a Igreja reconhece nossa fraqueza humana, mas não faz concessões a ela. Ela continua a elevar o padrão, mostrando-nos o que é perfeito, para que continuemos a buscar o que é melhor. É muito difícil “em um dia e uma hora”, ou mesmo ao longo dos quarenta e tantos dias da Grande Quaresma, alcançar a estatura espiritual de São João do Sinai. Mas perceber isso só pode nos ensinar que precisamos de uma luta contínua para sacrificar nosso egoísmo.
A vida de São João da Escada nos oferece um valioso tesouro de sabedoria sobre como viver estes dias abençoados da Quaresma. Se nos sentimos cansados, em dificuldades, pressionados pelos nossos esforços espirituais (o jejum, as orações, etc.), então estamos fazendo algo errado. É aqui que São João entra em cena, mostrando-nos com que força e intensidade devemos nos voltar para Deus para que nossa luta se torne mais fácil. Em sua “Escada”, ele diz que devemos nos voltar para Deus com amor “erótico”, isto é, da maneira como uma pessoa apaixonada olha para o objeto de sua afeição. Como a outra pessoa está constantemente em seus pensamentos. É assim, diz ele, que devemos amar a Deus. O amor divino é voltar-se para Ele loucamente e entregar todo o nosso ser ao Seu amor.
Na mesma linha, o representante moderno de São João da Escada, São Porfírio Kavsokalyvitis, nos ensina a amar a Deus com amor erótico. São Porfírio, que vivia em Kavsokalyvia, no Monte Atos, confessou que existe outro caminho, mais fácil, para Deus e uma maneira de evitar as armadilhas do demônio: o amor erótico por Deus. Este se expressa na lembrança contínua de Cristo, em nosso coração e mente, mesmo quando o corpo está ocupado com outras tarefas. Este caminho, diz ele, “implica estar apaixonado por Cristo e ansiar por Ele”. E em seu desejo de se entregar a Deus, você é auxiliado por todos os meios que a Igreja coloca à sua disposição: jejum, ascetismo, participação nos Sacramentos, hinologia, Vidas dos Santos, serviços religiosos, a Oração de Jesus e muito mais, formal ou espontâneo, que podemos fazer, contanto que o façamos por anseio, e não por coerção.
São Porfírio é realmente o grande mestre de hoje, porque compreende nossa mentalidade complacente, que nos dificulta ver Deus. Ele ensinava que existem dois caminhos para Deus: um árduo e cansativo, com ferozes ataques contra o mal, e o outro mais suave e fácil. O primeiro descreve os grandes guerreiros santos e ascetas, como João da Escada e São Paisios, o Athonita. O segundo caminho, mais fácil, é simplesmente entregar-se ao amor de Deus e não combater o mal diretamente. Você não tenta dissipar as trevas da câmara da sua alma, apenas abre um pequeno buraco para a luz entrar. Você não luta contra o inimigo, você o despreza e abraça Cristo de diversas maneiras. São Porfírio também diz que foi isso que ele conseguiu fazer por meio de intensa devoção aos hinos e livros da Igreja e às Vidas dos Santos, que o comoveram e inspiraram profundamente.
Como disse o Padre Alexander Schmemann, levemos a Grande Quaresma a sério e nos entreguemos de bom grado aos Serviços Semanais. Durante o tempo que nos resta, vivamos “em oração e jejum”. Com amor e devoção ardentes, não por coerção. A Quaresma não deve ser uma formalidade, mas uma necessidade da vida. Deve ser natural, não forçada. Que cada ação seja um ato de sacrifício e amor a Deus. Através da leitura do Evangelho de hoje, Cristo preparou Seus discípulos, então e agora, para os eventos da Grande Semana. O “fim”, que é o início da Ressurreição da Eternidade, está próximo. Preparemo-nos o melhor possível, pois “o Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e eles O matarão; e, três dias depois de morto, ressuscitará”.
Protopresbítero Nikolaos Patsalos
tradução de monja Rebeca (Pereira)






