As igrejas que Deus estabeleceu nas cidades são como portos no mar; refúgios espirituais onde encontramos uma paz espiritual indescritível quando chegamos a elas depois de termos sido sacudidos pela turbulência do mundo. E assim como um porto sem vento nem ondas oferece segurança aos navios ancorados ali, a igreja salva aqueles que a visitam da tempestade das preocupações da vida e permite que os fiéis permaneçam em segurança e ouçam a palavra de Deus em grande serenidade.
A Igreja é o fundamento da virtude e a escola da vida espiritual. Basta cruzar a soleira, a qualquer hora, e você imediatamente esquecerá todas as suas preocupações diárias. Entre, e uma brisa de ar espiritual envolverá sua alma. Essa calma inspira reverência e ensina a vida cristã. Ela corrige nossos pensamentos e nos impede de nos apegarmos às coisas do presente; ela nos conduz da terra ao céu. E se há tal ganho mesmo quando não há uma assembleia para o culto, imagine os benefícios que inundam a congregação quando a liturgia é celebrada e os profetas ensinam, os apóstolos pregam o Evangelho, Cristo está no meio dos fiéis, Deus Pai aceita o sacrifício realizado e o Espírito Santo concede a Sua própria alegria.
Na Igreja, a alegria daqueles que se alegram permanece. Na Igreja, você encontra a alegria daqueles que foram feridos, a felicidade dos tristes, o alívio dos atormentados e o descanso dos cansados. Porque Cristo diz: “Venham a Mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos darei descanso” (Mateus 11:28). O que mais se pode desejar além dessa voz? Que convite poderia ser mais doce do que este? Quando o Senhor te convida para a Igreja, Ele está te oferecendo um banquete, te incentivando a descansar de teus trabalhos, te trazendo alívio da tua dor. Porque Ele alivia o fardo dos teus pecados. Ele cura a preocupação com contentamento espiritual e a tristeza com alegria.
Não há muitas pessoas aqui hoje. Por quê? Celebramos a memória dos santos e quase ninguém vem à igreja. Parece que a distância leva as pessoas à negligência. Ou melhor, não é a distância, mas a negligência que impede a presença delas. Porque, assim como nada pode impedir aqueles que são bem-intencionados e zelosos de fazer algo, da mesma forma, tudo pode impedir aqueles que são negligentes, preguiçosos e procrastinadores.
Os mártires derramaram seu sangue pela verdade, e você se preocupa com uma distância tão pequena? Eles perderam a cabeça por amor a Cristo e você não quer fazer o menor esforço? O Senhor morreu por você e você O despreza? Celebramos a memória dos santos e você não se dá ao trabalho de vir à igreja. Prefere ficar em casa? E, no entanto, você tem que vir, para ver o diabo derrotado, o mártir vitorioso, Deus glorificado e a Igreja coroada.
“Mas eu sou um pecador”, você diz, “e não me atrevo a olhar para o santo”. Justamente por ser pecador, você deveria vir aqui, para se tornar justo. Diga-me quem é alguém sem pecado… Ou talvez você não saiba que aqueles que estão diante do altar sagrado também cometeram pecados? Foi por isso que Deus providenciou que os sacerdotes também sofressem certas paixões: para que pudessem compreender a fraqueza humana e perdoar os outros…
Que loucura e irracionalidade é essa de que, ao ouvirmos falar de um harpista, dançarino ou algo do gênero, todos nós ficamos mais do que felizes em correr para nos entreter. E passamos metade do nosso tempo prestando atenção apenas a eles. Só quando Deus nos fala por meio dos profetas é que bocejamos, nos coçamos e perdemos o fio da meada. E nas corridas de cavalos, mesmo sem cobertura para proteger os espectadores da chuva, a maioria das pessoas corre como loucas, mesmo que esteja chovendo torrencialmente, mesmo que o vento esteja soprando em seus rostos. Elas não se importam com a tempestade, o frio nem a distância que precisam percorrer. Nada as fará ficar em casa. Mas se for para ir à igreja, chuva e lama são um obstáculo. Pergunte a elas sobre Amós ou Obadias, quantos profetas ou apóstolos existem, e elas não conseguem abrir a boca. Fale sobre cavalos, porém, ou cocheiros, sofistas e oradores, e elas lhe contarão todos os detalhes. Diga-me, como isso é aceitável?
Eu te avisei várias vezes para não ir ao teatro. Você ouviu, mas não deu ouvidos. Você continua indo ao teatro, ignorando minhas palavras. Não tenha vergonha; volte e ouça novamente. Você dirá: “Eu ouvi, mas não fiz o que me foi dito. Como posso voltar e ouvir agora?”. Você não ouviu? Ótimo motivo para voltar. Venha, ouça novamente e, desta vez, tente aplicar. Se você passa pomada em uma ferida e ela não cicatriza, logo não passará mais no dia seguinte? Se um lenhador quer cortar um carvalho e não consegue com um só golpe, ele não o golpeará uma segunda, quinta, décima vez? Faça o mesmo.
São João Crisóstomo
tradução de monja Rebeca (Pereira)








