SOBRE A SANTA CRUZ E O SOFRIMENTO HUMANO

HOMILIA PARA O TERCEIRO DOMINGO DA GRANDE QUARESMA

Não nas flores e no ouro, nem na prata e nas pedras preciosas, encontra-se o valor da Cruz, mas nas chagas do Senhor e no Seu Puríssimo Sangue derramado por nós. Portanto, quando contemplarmos a Santa Cruz, não olhemos para os seus adornos, mas sim para as gotas de sangue que a santificam; pensemos nas lágrimas que a umedeceram durante dois mil anos e lembremos dos nossos pais que a beijaram com tanta fé e reverência!

Este é o verdadeiro valor da Cruz, e é sobre isso que gostaria de falar hoje: sobre o sofrimento e o seu significado na Terra.

Se a palavra “cruz” significa sofrimento, então sofrer significa tomar a sua cruz e seguir a Cristo (cf. Mc 8,34) por toda a vida, no caminho das virtudes e do arrependimento; significa sacrificar-se pelos seus filhos, pela salvação dos que estão em perigo, pela correção dos caídos; significa suportar ofensas injustas de nossos irmãos, significa ser crucificado junto com Cristo — na mesma colina, na mesma cruz e pelo mesmo ideal.

Quanto ao significado do sofrimento na vida dos cristãos, ele é imensurável. Ninguém pode ser salvo sem dificuldade, sem lágrimas, sem sofrimento. Ninguém pode ver Cristo se não O seguir, se não tocar em Suas feridas, se não carregar Sua cruz. Este é o significado do sofrimento. Sem ele não há salvação.

Assim como a alma humana está intimamente ligada ao corpo, o sofrimento está ligado à vida humana. Separe a alma do corpo e o homem morre; separe o sofrimento, isto é, a tristeza, da vida de um cristão, e este fiel se afastará cada vez mais de Cristo, da salvação. Este é o significado do sofrimento!

E se alguém disser: “Se Cristo sofreu por nós uma vez, por que devemos sofrer nesta vida?” Sim, devemos sofrer com Ele! Ele sofreu pelos nossos pecados, mas não nos tirou o dom do sofrimento! Pois o sofrimento é uma cruz, é um dom, é redenção, é um lugar de provação, é uma misericórdia que o Senhor oferece a cada alma humana. E se esta vida é um vale de lágrimas, então o sofrimento é uma escada, que conduz as pessoas com mais segurança para fora deste abismo miserável.

Jesus Cristo sofreu por nós, mas nos chama, dizendo: “Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me” (Mc 8:34). Ele suportou muito por nós, mas nos exorta à mesma paciência, dizendo: “No mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo, Eu venci o mundo” (Jo 16:33). Ele entregou a Sua alma por nós, mas nos exorta ao mesmo sacrifício, dizendo: “Quem perder a sua vida por amor de Mim ec do Evangelho, esse a salvará” (Mc 8:35).

Assim, se o Pastor sofreu, então as Suas ovelhas devem sofrer. Se o nosso Noivo Se ofereceu em sacrifício, então nós, que somos chamados ao matrimônio, devemos nos oferecer em sacrifício. Se Cristo morreu pela nossa salvação, então daremos toda a nossa vida por Seu amor. O amor se expressa com amor. O sofrimento se retribui com sofrimento.

Essa é a cruz da vida, e esse é o caminho da cruz. Quem evita o caminho da cruz, quem quer alcançar o Paraíso sem sofrimento, sem tristeza, esse é um ladrão e um salteador, e Deus lhe dará a sua sorte com os ladrões. Permaneçamos com Cristo. Onde Ele estiver, lá estaremos nós, como nos exorta o grande Paulo, dizendo: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1 Coríntios 11:1).

E onde está Cristo? Cristo está deitado na manjedoura; Cristo é perseguido por Herodes; Cristo Se humilha diante de José de Nazaré; Cristo não tem onde reclinar a cabeça; Cristo está entre os leprosos; Ele está a caminho dos enfermos; Cristo é ameaçado de apedrejamento; os fariseus o odeiam; Ele é repreendido pelos escribas; Ele é considerado servo de Satanás; Ele é traído por Seus discípulos; Ele é abandonado pelos apóstolos; Ele é açoitado e cuspido; Ele é levado ao Gólgota; Ele é crucificado na cruz no meio de dois ladrões. Assim, onde quer que nosso Salvador esteja, lá estaremos nós, Seus seguidores!

Mas o sofrimento tem outro significado: é nosso melhor mestre e instrutor. Privação, tristeza, dor, todo tipo de sofrimento — tudo nos fala de Cristo, nos lembra da Igreja, da morte e do Juízo vindouro. Acima de tudo, o sofrimento humilha o cristão, ensina-o a rezar, perdoa o seu irmão, leva-o à igreja com mais frequência, evoca lágrimas de arrependimento, dá-lhe forças para jejuar e encoraja-o à confissão.

O sofrimento é o apóstolo mais ousado de todos os tempos. Ele prega Cristo silenciosamente, pois onde a palavra do Evangelho não entra, ouve-se o clamor do sofrimento. Onde a voz apostólica não é ouvida, ouve-se o gemido do sofrimento. Onde um sacerdote não pode entrar, há tristeza, e o que um sacerdote não pode fazer, o sofrimento faz.

Aquele que antes era estranho à Igreja agora pergunta sobre ela. Aquele que ria de um sacerdote agora se humilha e o procura. Aquele que não tinha tempo para rezar agora invoca a Deus dia e noite. Aquele que não abria a porta para Cristo agora a abre para os pobres. Aquele que não ouvia os sinos da igreja agora, perseguido pelas tristezas da vida que Deus lhe permitiu com moderação, agora corre sempre para a igreja, abre-lhe a porta e cruza o seu limiar com fé sincera…

Quão grande é o benefício do sofrimento no Cristianismo! Além disso, o sofrimento é frequentemente enviado ao homem como penitência expiatória pelos seus pecados. Aquele que não se arrepende através do sofrimento, permanecendo na felicidade e na satisfação, jamais poderá ser salvo.

Ademais, o sofrimento purifica a pessoa, torna-a mais firme na fé, mais corajosa nas tentações, mais paciente nas tribulações. Assim como o vento fortalece o carvalho, as ondas do mar tornam o capitão experiente, a tempestade torna a águia ágil e o fogo purifica a prata, a tristeza torna o cristão hábil. Permitam-me dar um pequeno exemplo.

Já viram o incenso? Ninguém o sente enquanto está guardado na gaveta. Mas se o colocarmos sobre uma brasa, ele perfuma a casa com sua doce fragrância. E enquanto o manjericão está simplesmente na prateleira, quase não tem cheiro, mas se o esmagarmos, seu aroma se espalha por toda parte.[1] O mesmo acontece com o cristão. Inexperiente, ele não tem grande valor, mas provado no fogo das tentações, torna-se uma imagem de paciência para todos e é considerado digno de grandes coroas no Céu; porque das dores vem a paciência, da paciência a experiência, da experiência a esperança, e a esperança não decepciona (cf. Rm 5,3-5). Santo Isaac, o Sírio, diz que a graça do Espírito Santo desce sobre nós segundo a medida das dores que suportamos.

Mas o sofrimento, como a coroação de um homem que carrega a sua cruz, dá à luz em seu coração uma grande alegria divina. Como uma mãe se entristece durante as dores do parto, mas depois se alegra porque um homem nasceu no mundo (cf. Jo 16,21), assim também o cristão. Durante as suas provações, nas chamas da doença, na tempestade da tentação, ele não experimenta nenhuma alegria particular; mas quando a dor passa, ele se alegra em espírito, porque foi capaz de carregar a Cruz de Cristo.

Grande foi a alegria dos santos apóstolos e mártires que sofreram por Cristo, e grande deve ser a nossa alegria quando Deus nos visita com aflições. Pois aquele que não sofre aqui por um curto período de tempo, sofrerá lá eternamente.

O prazer e a saciedade trazem todo pecado para dentro de casa, mas o sofrimento traz Cristo. O prazer afasta Cristo do coração, mas a tristeza o torna nosso amigo. O prazer fertiliza as ervas daninhas do pecado, mas o sofrimento faz brotar o lírio da salvação.

Amados fiéis, amemos o sofrimento, pois ele nos torna amigos de Cristo. Odeiemos o prazer, visto que ele nos priva do Seu amor. Vamos aonde o nosso Pastor está. E se Ele nos castigar e nos convencer do pecado, suportemos tudo por amor à nossa salvação. Ele jamais nos tentará além das nossas forças, mas nos dará o dom da paciência e a coroa da salvação, de acordo com a medida da nossa tristeza.

Se alguém enfrenta dificuldades além das suas forças, significa que possui os pecados mais graves e está privado da Sua misericórdia. Mas sejamos ousados, pois o Senhor não permitirá que a vara dos pecadores recaia sobre a sorte dos justos (Salmo 124:4). Acima de tudo, nós, cristãos, recebemos não apenas a missão de crer em Cristo, mas também de sofrer por Ele (cf. Filipenses 1:29).

Assim, nós, cristãos, sofremos porque queremos seguir a Cristo. Sofremos porque, através do sofrimento, a multidão de nossos pecados é perdoada. Sofremos porque o sofrimento nos ensina a orar, a nos unirmos uns aos outros e a depositar nossa esperança somente em Deus. Sofremos porque queremos ser um exemplo de salvação para os outros. Sofremos porque a tristeza traz alegria às nossas almas. Sofremos porque é o único caminho que leva ao Céu. Todos os outros caminhos levam à destruição.

Que cada um carregue a sua cruz, aquela que escolheu ou aquela que o Senhor lhe designou. Mas quem busca outra cruz, mais leve, é como Judas, o traidor, o abandonado pelo Senhor. Permaneçamos onde Cristo está: no berço de nossos filhos, ao lado do leito dos enfermos, no fogo da tentação, no esforço das boas obras. Ali veremos o rosto flagelado do Senhor, Suas mãos e costelas perfuradas, Sua fronte ensanguentada por nossa causa. Pois a fornalha da tentação purificou os santos, mas as chagas da Cruz geraram para nós o Espírito da salvação.

Os santos Evangelhos foram escritos com sangue. Muitas das santas Epístolas foram escritas em grilhões. A Igreja foi fundada em meio a perseguições, atravessando abismos e ataques terrenos até os nossos dias. Que nós, Seus filhos, trilhemos o mesmo caminho.

Nós, cristãos, não nascemos da fornicação, mas somos filhos da Luz, redimidos ao preço de sangue inocente. Tampouco somos órfãos abandonados por nossos pais. Nosso Pai é Deus e nossa Mãe é a Igreja; ouçamos nosso Pai e nossa Mãe.

Também não somos ovelhas perdidas, sem sentido nesta vida — somos as ovelhas do rebanho de Cristo, e Ele é o nosso Bom Pastor que entregou Sua alma por nós. Somos de Deus e não precisamos de mercenários. Temos o Sumo-Sacerdote que, por amor, quis sofrer por nós (Hebreus 4:15). Suportemos qualquer sofrimento por amor a Ele, para que Suas ovelhas possam estar com seu Pastor!


Arquimandrita Ioanichie (Balan)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

9 visualizações

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes