Passamos da metade da Grande Quaresma, esta arena competitiva, e agora caminhamos rumo ao objetivo, quando experimentaremos o verdadeiro significado de venerar as festas sagradas, que têm tanta importância para nós.

Gostaria de lembrar-vos daquele belo versículo do último Ikos das saudações à Mãe de Deus: “Rejubila, difícil altura de ser alcançada pelo pensamento humano; Rejubila, profundezas difíceis de sondar até mesmo para os olhos dos anjos”. Se bem se lembram, o tema da leitura no refeitório ao meio-dia era a humildade. Precisamente o que nos interessa aqui. Porque, embora a humildade seja uma obrigação geral para todos os cristãos, é especialmente um objetivo e uma meta para os monges. É por isso que o hábito, as vestes, as condições de vida, a alimentação, o comportamento e toda a sua posição são direcionados para este objetivo: uma perspectiva humilde. Como já dissemos em outra ocasião, em detalhe, uma perspectiva humilde não é uma questão momentânea, como quando alguém pratica uma virtude para refrear e vencer o mal correspondente. Não podemos descrever o tema da humildade, porque nem mesmo os Padres mais notáveis ​​foram capazes de fazê-lo. O que podemos fazer é mencionar alguns trechos que podem ser úteis para este fim. Se algum monge perder o senso de humildade, duvido muito que consiga atingir seu objetivo.

Comecemos estes poucos pontos examinando a personalidade de nosso Senhor Jesus Cristo, que “inclinou os céus, desceu, esvaziou-Se a Si mesmo e Se revestiu da nossa natureza”, sendo “verdadeiramente o Verbo de Deus”, a Quem “toda a autoridade no céu e na terra foi dada”. Apesar disso, Ele Se contentou em ser chamado de “humilde de coração”. E essa “humildade de coração”, em Sua majestade divina, não é um mero adjetivo, mas uma realidade ontológica, algo que ilustra o que Deus e a pessoa humana são juntos. A humildade, então, é, de certa forma, o fundamento da realidade. Porque a verdadeira personalidade só existe na humildade, assim como a estabilidade, a certeza, a quietude e a verdade. Onde não há humildade, há medo e incerteza. A principal característica do diabo é a sua falta de humildade e, por causa disso, ele vive em constante turbulência, instabilidade e incerteza, desconfiando de tudo o tempo todo. Ele não possui nada que lhe pertença, não consegue ignorar nada e está sempre com medo.

É impossível para nós descrevermos a humildade, pois ela se tornou a vestimenta da divindade. Jesus, o centro do nosso amor, a vestiu e, por meio dela, expressou o Seu caráter. Quando Ele diz: “Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração”, é como se Ele estivesse esboçando a Sua forma externa para nós, para que possamos imitá-Lo, dentro das nossas limitações criadas e humildes.

Então, o que mais temos a fazer? Já que o centro do nosso amor e dos nossos esforços, o foco de todo o nosso interesse, é Aquele que é “humilde de coração”, não seria a humildade uma questão de dever para nós? Não nos voltaremos para a humildade às pressas, como fazemos com as outras virtudes, dependendo da pressão do mal correspondente, mas sim a abordaremos em passo lento, estabelecendo-a como o principal objetivo e propósito de nossas vidas. Porque, por meio dela, nós também adquiriremos uma personalidade que será exatamente igual ao nosso arquétipo, o foco do nosso ser e do nosso amor.

Ora, se Jesus possui essa característica de Seu caráter e nós não a temos, então seremos julgados por aquela terrível e ameaçadora afirmação de São Paulo: “portanto, vocês não são filhos legítimos nem ilegítimos”. Se as pessoas desejam adquirir o caráter de seu Pai, devem entrar livremente e se tornarem herdeiras com Aquele que chama Deus de Pai e devem ter essa imagem gravada em si mesmas. E quando os anjos as virem na hora da morte, no tempo do julgamento e do renascimento, então, agarrando-se firmemente a essa imagem, terão a certeza de que entrarão livremente, porque terão sido marcadas e aceitas como verdadeiros filhos de seu Pai. Então, vocês entendem que a humildade é um dever e não uma questão de livre escolha? E os Padres não nos transmitiram isso em detalhes? E, em todo caso, em que questão um monge não deveria ser humilde? Todas as suas características específicas testemunham isso. Seu exílio no deserto, seu afastamento do mundo, suas vestes negras, sua dieta frugal e seu comportamento em geral contribuem para que ele pense com humildade. Mas, acima de tudo, há o exemplo de nossos Padres, que seguimos com toda a força que possuímos. É exatamente a isso que o hinógrafo que escreveu as saudações a Nossa Senhora se refere quando diz que Ela é uma “altura difícil de alcançar para o pensamento humano”. É impossível para os pensamentos humanos se aproximarem da altura de Sua santidade, que, fundamentalmente, é a Sua humildade. Quando o Arcanjo Lhe disse que Ela seria a única Mãe de Deus, Ela respondeu, indiferente ao louvor implícito em Suas palavras, chamando a Si mesma de “serva de Cristo”. Onde mais Deus, o Verbo, poderia ter habitado, se não tivesse encontrado um vaso que se assemelhasse tanto a Ele? E eis a humilde donzela. Mesmo antes de tomar plena consciência de Deus, o Verbo — pois Ele ainda não havia vindo habitar n´Ela, embora Ela já tivesse recebido raios de graça e santificação — eEa disse: “Eis a serva do Senhor”, demonstrando Sua humildade para com Ele.

Nós, athonitas, em particular, sentimos Seu afeto maternal especial e Sua confiança de forma concreta, porque Ela está aqui conosco. Não há um único athonita que não tenha sentido Seu afeto e benevolência singulares. Como nossa Mãe Espiritual, Ela nos dá Sua vida santíssima como exemplo. O que é isso? Uma mente humilde e obediência: essas são as características que o monasticismo leva à plenitude. É a isso que nos apegamos firmemente como a mais importante estrela-guia espiritual. Se vocês permanecerem humildes e obedientes à vontade de Deus, já terão alcançado seu destino e seu objetivo, pela graça de Cristo. Amém.


Geronda Iosif de Vatopaidi
tradução de monja Rebeca (Pereira)


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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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