A mulher, tendo ungido o corpo de Cristo com mirra,
antecipa a mirra e o aloés de Nicodemos.
Na Santa Quarta-feira Grande, os Santos Padres ordenaram que se celebrasse a memória da prostituta que ungiu o Senhor com mirra, porque isso ocorreu pouco antes de Sua Paixão salvadora. Portanto, foi estabelecido celebrar sua memória agora, para que, nas palavras do Salvador, seu ato zeloso seja proclamado em toda parte e a todos.
Quando Jesus entrou em Jerusalém e estava na casa de Simão, o leproso, uma mulher aproximando-se d´Ele derramou um perfume precioso sobre a sua cabeça. O que a motivou a vir? Tendo observado a compaixão e a generosidade de Cristo para com todos, especialmente agora, ao vê-Lo entrar na casa de um leproso — a quem a lei ordenava considerar impuro e com quem era proibido ter contato —, ela pensou que Cristo curaria sua impureza espiritual, assim como curara a lepra de Simão. E assim, enquanto o Senhor estava à mesa, a mulher derramou sobre a Sua cabeça um perfume no valor aproximado de trezentos denários, isto é, sessenta assárions, dez denários ou três moedas de prata. Os discípulos, e especialmente Judas Iscariotes, repreenderam-na, mas Cristo a protegeu, para que não impedissem suas boas intenções. Então, Ele mencionou o Seu sepultamento para dissuadir Judas da traição e concedeu à mulher uma recompensa: que essa boa ação fosse pregada em todo o mundo.
Alguns pensam que todos os Evangelistas mencionam a mesma mulher. É importante entender que não é assim. Apenas três (Evangelistas), como diz São João Crisóstomo[1], falam da mesma mulher, que é chamada de prostituta. João, porém, não fala dela, mas de outra mulher admirável de vida santa — Maria, irmã de Lázaro, que, embora não fosse prostituta, era amada por Cristo.
Dentre essas, esta (última) Maria, seis dias antes da Páscoa, em sua casa em Betânia, enquanto o Senhor jantava, realizou a unção, derramando mirra sobre os Seus pés puríssimos e enxugando-os com os cabelos da sua cabeça. Ela ofereceu a Ele, como a Deus, mirra, comprada a um preço elevado, pois sabia bem que o azeite é oferecido a Deus em sacrifícios, e que os sacerdotes são ungidos com mirra (Êxodo 30:25, 30), e que Jacob, na antiguidade, derramou azeite sobre um monumento de pedra, (dedicando-o) a Deus (cf. Gênesis 28:18; 35:14). Ela ofereceu isso abertamente como um presente ao Mestre, como a Deus, e também pela ressurreição de seu irmão. Portanto, não lhe foi prometida nenhuma recompensa, e somente Judas reclamou então, pois era ganancioso.
Outra mulher, verdadeiramente uma prostituta, dois dias antes da Páscoa, enquanto Cristo ainda estava em Betânia, jantando na casa de Simão, o leproso, derramou um unguento precioso sobre a Sua cabeça, como relatam os santos Mateus e Marcos (Mt 26,6-13; Mc 14,3-9). Os discípulos ficaram indignados com essa prostituta, pois haviam ouvido constantemente os ensinamentos de Cristo sobre o zelo pela caridade[2]; mas ela foi recompensada — com a glorificação de suas boas obras por todo o mundo.
Assim, alguns dizem que se trata da mesma mulher, enquanto Crisóstomo afirma que são as duas mencionadas. Alguns chegam a contar três: as duas já citadas (que ungiram Cristo) no limiar da Sua Paixão, e a terceira — uma mulher diferente, que fez isso antes deles, provavelmente a primeira — em algum momento durante o sermão do Evangelho (do Senhor). Foi uma meretriz e pecadora que derramou mirra nos pés de Cristo na casa de Simão, não um leproso, mas um fariseu, sozinho, sem testemunhas, quando apenas um fariseu foi tentado por isso, e o Salvador lhe deu uma recompensa – o perdão dos pecados. São Lucas a menciona sozinha em seu Evangelho (Lucas 7:36-50), como já foi dito, por volta da metade (do Evangelho de Cristo). E após a história dessa prostituta, ele acrescenta imediatamente o seguinte: Depois disso, Jesus percorria as cidades e aldeias, pregando e proclamando o Reino de Deus (Lucas 8:1), o que demonstra que isso não ocorreu durante o Seu sofrimento. Assim, alguns pensam, a julgar pelo tempo, por aqueles que O receberam, pelo lugar, pelas pessoas, pelas casas e também pela maneira como O ungiram, que havia três mulheres: duas prostitutas e a terceira, Maria, irmã de Lázaro, conhecida por sua pureza de vida. Uma era a casa de Simão, o fariseu, outra a de Simão, o leproso, em Betânia, e outra ainda a casa de Maria e Marta, irmãs de Lázaro, também em Betânia. Isso pode ser deduzido do fato de que duas ceias foram preparadas para Cristo, ambas em Betânia: uma, seis dias antes da Páscoa, na casa de Lázaro, quando Lázaro estava reclinado com Ele, como relata João: “Seis dias antes da Páscoa, Jesus chegou a Betânia, onde estava Lázaro, que havia morrido, a quem Ele ressuscitou dos mortos. Ali prepararam-lhe uma ceia; Marta servia, e Lázaro era um dos que estavam reclinados com Ele. Então Maria, tomando um frasco de nardo puro, um perfume caro, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos” (João 12:1-3). Outra ceia foi feita para Ele dois dias antes da Páscoa, quando Cristo ainda estava em Betânia, na casa de Simão, o leproso, e uma prostituta veio a Ele, derramando um perfume precioso, como relata São Mateus: Jesus disse aos seus discípulos: “Vocês sabem que daqui a dois dias é a Páscoa” (Mateus 26:1-2); E logo acrescenta: “Estando Jesus em Betânia, na casa de Simão, o leproso, aproximou-se d´Ele uma mulher com um vaso de alabastro contendo perfume precioso, e o derramou sobre a cabeça dele, enquanto ele estava à mesa” (Mateus 26:6-7). Marcos também concorda com ele: “Dois dias depois, era necessário celebrar a Páscoa e os Pães Ázimos. E, estando ele em Betânia, na casa de Simão, o leproso, e estando à mesa, aproximou-se uma mulher, e assim por diante” (Marcos 14:1, 3).
Mas aqueles que discordam (disso) e acreditam que a mesma mulher que ungiu o Senhor com mirra é mencionada pelos quatro evangelistas, e que também pensam que o mesmo Simão, o fariseu e leproso, era o mesmo que alguns dizem ser o pai de Lázaro e suas irmãs, Maria e Marta; e que foi a mesma ceia, e a mesma casa em Betânia, onde o cenáculo mobiliado foi preparado e a Última Ceia foi realizada – pensam incorretamente. Pois essas duas ceias para Cristo ocorreram fora de Jerusalém, em Betânia, seis e dois dias [como já foi dito] antes da Páscoa do Antigo Testamento, quando as mulheres também trouxeram mirra a Cristo de maneiras diferentes. A Última Ceia e o cenáculo mobiliado foram preparados na própria Jerusalém, um dia antes da Páscoa judaica e do dia da Paixão de Cristo; Segundo alguns, na casa de um estranho, e segundo outros, na casa de um amigo e discípulo (de Cristo) João, em Sião, onde os apóstolos se reuniram por medo dos judeus, ocorreram o toque de Tomé após a Ressurreição, a descida do Espírito Santo no Pentecostes e alguns outros milagres e sacramentos.
Parece-me mais correto que Crisóstomo distinga aqui duas mulheres: uma, como é dito (mencionada) por três evangelistas — uma meretriz e pecadora que derramou mirra sobre a cabeça de Cristo; e a outra, segundo João, Maria, irmã de Lázaro, que o levou aos mesmos pés divinos de Cristo e os ungiu. E (creio eu) houve diferentes ceias: uma em Betânia e outra — a Mística. Isso também decorre do fato de que, após a história com a meretriz, o Salvador enviou os discípulos à cidade para preparar a Páscoa, ordenando: “Ide à cidade, à casa de fulano de tal, e dizei-lhe: O Mestre diz: Celebrarei a Páscoa com os Meus discípulos em tua casa” (Mateus 26:18). E ainda: “Encontrareis um homem carregando um cântaro de água. Ele vos mostrará um grande cenáculo mobiliado; preparai-o ali para nós”. Eles foram e encontraram, como Ele lhes havia dito, e prepararam a Páscoa (cf. Marcos 14:13, 15, 16; Lucas 22:10, 12, 13), obviamente a Páscoa legal que se aproximava, a qual (o Senhor), tendo vindo, celebrou com os discípulos, como diz São João Crisóstomo, e então houve a ceia, isto é, a Páscoa Mística. Tendo realizado a lavagem divina (dos pés) no meio dela, Ele, tendo Se reclinado novamente (cf. João 13:2-12), também administrou a nossa Páscoa — na mesma mesa (da Páscoa do Antigo Testamento), como diz João Crisóstomo, e isso é verdadeiramente assim.
Os santos João e Marcos, os divinos evangelistas, também especificam o tipo de mirra, chamando-a de pura (pistikon) e preciosa (João 12:3; Marcos 14:3). Por algum motivo, eles a chamam de “pistikon”, que significa “genuíno, não adulterado, sem liga e de pureza comprovada”, ou talvez seja o nome de algum tipo especial e superior de nardo[3]. A mirra também era composta de muitas outras substâncias, principalmente mirra, canela aromática ou junco aromático e azeite (ver Êxodo 30:23-25). Marcos acrescenta ainda que a mulher, em seu zelo, quebrou o vaso, porque tinha um gargalo estreito, e o chama de alabastro. Este, como diz Santo Epifânio, é um vaso de vidro sem alça, também chamado de “vicia”.
Ó Cristo nosso Deus, ungido com mirra espiritual, livra-nos das paixões que nos afligem e tem misericórdia de nós, pois só Tu és Santo e Amas a humanidade. Amém.
traduzido do russo por monja Rebeca (Pereira)








