SERMÃO PARA O QUINTO DOMINGO DA GRANDE QUARESMA

A vida de Santa Maria do Egito, agora comemorada pela Santa Igreja, provavelmente é familiar para a maioria de vocês. Vocês sabem que ela foi uma grande pecadora, uma meretriz que atraiu muitos para a rede da iniquidade. Também sabem como, mais tarde, não sendo permitido venerar a árvore da Cruz Vivificante de Cristo junto com os outros, ela se arrependeu e se retirou para o deserto, onde lutou por 47 anos em jejum, oração e luta contra suas paixões. Como, através de suas lutas, venceu as paixões da carne a ponto de se tornar como anjos incorpóreos, elevando-se da terra durante suas orações e atravessando facilmente o Rio Jordão com os pés. Por que então, talvez alguns de vocês possam pensar, somos nós, tão jovens e desconhecendo a profundidade das paixões, lembrados daquela que foi uma grande pecadora, “mergulhada no abismo dos males”?

Primeiramente, para que ninguém tratasse os pecados cometidos na juventude com leviandade. Contudo, a maioria das pessoas encara os pecados da juventude com muita leviandade, como passatempos inocentes, até mesmo doces, que não deixarão vestígios na alma mais tarde. Quão profundamente enganadas estão essas pessoas! Lembremo-nos de que Maria, aos doze anos, deixou a casa de seus pais e foi para Alexandria entregar-se a uma vida de pecado. E quantas desgraças esses pecados, iniciados em sua juventude, lhe causaram! Como as lembranças dos prazeres de sua antiga vida pecaminosa a atormentaram no deserto, como, exausta da luta contra suas paixões, ela caiu ao chão e permaneceu inconsciente por dias a fio, como ela experimentou, ainda na Terra, como se fossem os tormentos do inferno, queimada pelo fogo das paixões que ardiam em seu coração, e externamente suportando o frio e o calor do deserto! É completamente inútil pensar que a velhice, e não a juventude, seja o momento mais propício para lutar contra as paixões. A juventude é a fase da vida em que o resto da jornada é, muitas vezes, determinado, seja para o bem ou para o mal. É o que diz São João, o Teólogo, sobre essa idade: “Escrevo a vocês, jovens, porque vocês são fortes e já venceram o Maligno” (1 João 2:13-14). Ou seja, vocês são fortes para lutar contra as paixões e sua causa — o diabo — e podem vencê-las com mais facilidade.

Aqueles que consideram os pecados da juventude insignificantes esquecem que pequenos pecados facilmente se tornam grandes. O pecado começa com um pensamento, às vezes surgindo involuntariamente na alma. Então, se o pensamento não for imediatamente afastado, a atenção da mente se volta para ele, depois o prazer do coração, depois a decisão da vontade e, por fim, o ato em si. Das ações pecaminosas surgem paixões que, fortalecidas pela repetição, tornam-se irresistíveis. Daí se conclui que, assim como uma faísca deve ser extinta antes de inflamar alguma substância inflamável e provocar um incêndio, também a luta contra o pecado deve começar desde o primeiro passo, com a expulsão dos pensamentos pecaminosos da alma. Isso é especialmente verdadeiro no caso da paixão à qual Maria se entregou, uma paixão poderosa e irresistível. A que profundezas de destruição mergulha essa paixão se não começarmos a combatê-la a tempo! Daí as quedas, daí os tormentos e a angústia mental, daí o ódio e a inimizade mútuos, chegando ao ponto do assassinato, daí as traições, a desestruturação das famílias, a morte de crianças!

É verdade que vocês estão crescendo aqui sob a sombra da Santa Igreja e estão, em certa medida, protegidos do perigo de sucumbir às paixões às quais Maria foi entregue, mas a santificação de nossas almas pela Igreja não pode ser realizada contra a nossa vontade — o amor pela Igreja deve estar tão profundamente enraizado em nossas almas quanto as paixões estavam na de Maria. Não é aquele que simplesmente vai à igreja, às vezes apenas por hábito e aparentemente contra a sua vontade, que é imbuído do espírito da Igreja, mas sim aquele que, mesmo sem frequentá-la, como a Venerável Maria, tem Cristo tão profundamente implantado em seu coração quanto ela, que, com tantas lágrimas e suspiros quanto ela, arrancou de sua alma as paixões que guerreavam contra ela.

Tendo se libertado do abismo da destruição por meio de grandes lutas e conduzido sua própria alma ao caminho da salvação, Santa Maria tornou-se um modelo de arrependimento para todas as gerações. Isso indica a maneira como as pessoas devem se preparar para ensinar os outros. Sempre houve muitos que desejam se tornar mestres, e muitos deles são mulheres. Algumas dessas mulheres desejam se tornar portadoras e disseminadoras da luz de Cristo, enquanto outras querem disseminar as ideias e os conceitos desta época entre as pessoas e a sociedade. As primeiras são como aquelas mulheres que, nos primórdios do Cristianismo, prestaram serviço apostólico, auxiliando os apóstolos.

Mas que aqueles que desejam ensinar os outros e servir como apóstolos não se esqueçam de como a Venerável Maria se tornou um modelo de arrependimento para as nações, assim como os Apóstolos, não sem lutas, se tornaram disseminadores da luz de Cristo na terra: “Por amor de Ti (de Cristo)”, diziam eles de si mesmos, “nos mortificamos o dia todo” (Rm 8,36). “Escrudicizo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado” (1 Cor 9,27). Sem essa luta, as mulheres que desejam ensinar os outros podem facilmente ser contadas entre aquelas a quem o Apóstolo chamou de “motivadas por vários desejos, sempre aprendendo, mas nunca capazes de chegar ao conhecimento da verdade” (2 Tm 3,6-7).

Que a imagem da Venerável seja lembrada por nós, e que a lembrança dela se torne uma fonte de constante edificação para nós! Que essa lembrança torne nossos corações mais sensíveis aos pequenos pecados, que por negligência se tornam grandes; Que esta sensibilidade de consciência jamais se perca, especialmente em vosso coração feminino, que é naturalmente mais sensível! Que a memória dos feitos da santa, que labutava no deserto por 47 anos, nos inspire a uma luta persistente e paciente contra as nossas paixões. E se alguém cair em pecado e se tornar escravo da paixão, que a memória da grande misericórdia de Deus, que resgatou o maior pecador das profundezas da destruição, preserve aqueles que caíram em desespero! Amém.

Hieromártir Tadeu (Uspensky)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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