SERMÃO PARA AQUELES QUE JEJUAM DURANTE A GRANDE QUARESMA

O sermão foi proferido em japonês por São Nicolau, Igual aos Apóstolos, Arcebispo do Japão. A tradução do japonês foi baseada no jornal da Igreja Ortodoxa Autônoma do Japão, Seikyo Jiho (Arauto Ortodoxo) 1978, nº 3.

Nos tempos antigos, as pessoas planejaram construir a Torre de Babel, mas Deus desceu e confundiu suas línguas, de modo que não conseguiam se entender. “E o Senhor os dispersou dali por toda a face da terra” (Gênesis 11:8). Mas toda a Terra foi criada para a raça humana. Através dessa dispersão, o Senhor não buscou separar as pessoas umas das outras. Deus as uniu com um único laço interior e, portanto, desde o princípio, as pessoas nunca perderam seu senso de unidade no amor. Sempre que se encontravam, demonstravam esse amor em qualquer momento e sob quaisquer circunstâncias. Inúmeros exemplos de asiáticos expressando simpatia e compaixão pelos europeus servem como prova disso. Nesses momentos, vemos que o desejo de unidade da raça humana nunca diminui. Mas isso não é alcançado pelos próprios esforços da humanidade, pois é impossível para o homem atingir esse objetivo apenas por seus próprios esforços. Toda a criação de Deus só se completou com a vinda do próprio Senhor, nosso Salvador.

Encontramos abundantes evidências disso no Santo Evangelho. Recordemos como o próprio Senhor ensinou a unidade dos povos, por exemplo, na parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37), ou como, antes de Sua ascensão ao Céu, ordenou aos Seus discípulos: “Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações” (Mateus 28:19). O Senhor não apenas pregou o amor em palavras, mas ao longo de toda a Sua vida revelou esse amor divino pela humanidade e a chamou à unidade.

Ouvimos o mesmo chamado na doxologia angélica de Deus que ressoou quando o nosso Senhor desceu à terra (Lucas 2:14). Assim, torna-se claro que a própria encarnação do Filho de Deus ordenou a todos os povos que se unissem.

Isso se torna especialmente claro ao refletirmos sobre o Sacramento da Eucaristia. Ao instituir este Sacramento, o Senhor nos ensina a todos a nos unirmos em amor em uma só família antes de participarmos desta Festa mística. Por meio dela, tornamo-nos parte da raça dos filhos de Deus, deixando de ser meros filhos de Adão. Nenhum esforço ou mérito humano pode alcançar isso; verdadeiramente, somente pela participação nesta Festa mística nos tornamos filhos de Deus. Assim como os seios de uma mãe nutrem os bebês, assim como as águas da terra nutrem as pessoas, assim também a Carne e o Sangue do Senhor Jesus Cristo nutrem nosso espírito, e por meio disso crescemos para nos tornarmos o único Corpo de Cristo.

Alguns veem neste Sacramento apenas uma representação simbólica de Cristo, mas cremos que nele reside o próprio Corpo de Jesus.

Nosso próprio corpo é um objeto da realidade objetiva. Nosso espírito é uma substância real. Para nutrir esse organismo real, consumimos alimento real. Pois, por mais que escrevamos e leiamos os nomes de várias iguarias, por mais que evoquemos suas imagens em nossa imaginação, não podemos satisfazer um corpo faminto e sedento. Nenhum simbolismo é suficiente para saciar a fome e a sede. Da mesma forma, para uma entidade tão real quanto o nosso espírito, o alimento real — o Corpo de Cristo — é absolutamente necessário. E, ao participarmos daquilo que é verdadeiro alimento e verdadeira bebida, tornamo-nos não apenas a semente de Adão, mas verdadeiros filhos do Pai Celestial.

Hoje, vocês participam desta Festa misteriosa não apenas por si mesmos, mas também para que todo o Japão, através da Carne e do Sangue de Cristo, se torne uma raça de filhos de Deus. Embora sejam poucos em número, entre os japoneses de hoje, vocês representam esta grande irmandade.

Se participarmos do alimento mais saudável sem o devido discernimento, ele ferirá nossos estômagos e não apenas não obteremos nenhum benefício, mas, ao contrário, causaremos grande dano a nós mesmos. É bastante claro que o mesmo deve ser dito desta Festa misteriosa e solene.

De acordo com as palavras do santo Apóstolo Paulo: “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice. Porque quem come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor” (1 Coríntios 11:28-29). Ao participarmos indignamente da Carne e do Sangue de Cristo, atraímos sobre nós mesmos grande destruição.

Mas, como felizmente vocês se prepararam para este Sacramento durante uma semana inteira de fervorosa oração e arrependimento, certamente receberão em suas almas “graça sobre graça” (João 1:16) — refiro-me aos tesouros espirituais concedidos por este grande Sacramento, que nos torna filhos de Deus.

Unidos em Cristo, sejamos também filhos dignos do Pai Celestial. Amém.


São Nicolau do Japão
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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