O Senhor conta, no Evangelho segundo São Lucas (14,16–24), a parábola do grande banquete. Um homem prepara uma ceia generosa e envia seus servos para chamar os convidados. Tudo está pronto. A mesa está posta. A alegria espera. Mas, um após o outro, os convidados começam a se desculpar. Um comprou um campo. Outro adquiriu bois. Um terceiro acabou de se casar. Nenhuma dessas coisas é má em si. O problema não está no campo, nos bois ou no casamento. O problema está no coração que prefere outra coisa quando Deus chama.
A parábola não fala de rejeição aberta, mas de adiamento. Não é um “não quero”, é um “não agora”. E aí está o ponto mais delicado. As desculpas parecem razoáveis, até responsáveis. Porém, revelam uma inversão de prioridades. Deus convida, mas fica para depois.
Na espiritualidade da Igreja Ortodoxa, a vida cristã é uma resposta. Deus sempre toma a iniciativa. Ele chama, oferece, convida à comunhão. A vida espiritual não começa com nossos esforços, mas com a escuta desse chamado. Quando respondemos com desculpas constantes, não estamos apenas organizando mal o tempo. Estamos enfraquecendo a relação.
Os Santos Padres falam com clareza sobre isso. São João Crisóstomo lembra que o inimigo raramente nos afasta do bem por meio do pecado escandaloso. Com mais frequência, ele nos ocupa com coisas lícitas, até boas, mas que tomam o lugar do essencial. Assim, a oração é adiada, a Liturgia se torna opcional, a confissão fica para depois, o jejum é sempre para a próxima vez. Não por rebeldia, mas por hábito.
Em nossos dias, as desculpas se multiplicaram. Falta de tempo. Cansaço. Excesso de compromissos. Desânimo com a Igreja. Escândalos. Decepções com pessoas. Tudo isso existe e precisa ser reconhecido. Mas, pouco a pouco, essas justificativas constroem uma vida cristã mínima, superficial, sem profundidade. Uma fé que se adapta ao conforto, sem um coração que se deixa transformar.
Muitos dizem: “Eu creio em Deus, mas não preciso da Igreja”. Outros afirmam: “Rezo em casa, não preciso da Liturgia”. Há ainda os que dizem: “Quando minha vida se organizar, eu volto”. São formas modernas da mesma resposta da parábola. O convite permanece, mas a presença é sempre adiada.
Na visão ortodoxa, a vida espiritual não é um acessório. Ela é vida ou morte. É comunhão ou isolamento. A Igreja não é apenas um espaço social ou clube, mas o lugar onde o Reino dos Céus começa a se manifestar já agora. A Liturgia não é um costume antigo, mas a participação real no banquete do Reino. Quando recusamos esse convite, recusamos algo que nos cura, nos ilumina e nos devolve a nós mesmos.
A parábola termina de modo forte. O senhor da casa manda chamar os pobres, os coxos, os cegos, os que estão à margem. Não porque sejam melhores, mas porque estão vazios. Quem reconhece sua pobreza espiritual corre mais facilmente para o banquete. Quem se julga ocupado demais, completo demais, adia até perder o gosto pelo convite.
“Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração” (Sl 94). A Igreja repete isso sem cessar. A espiritualidade ortodoxa insiste no hoje. Hoje é o dia da salvação. Hoje é o tempo da resposta. Não quando tudo estiver resolvido, mas agora, no meio das lutas, do cansaço e das imperfeições.
Talvez o maior exame espiritual do nosso tempo seja este: quais desculpas tenho usado para não viver uma vida eclesial verdadeira? O que sempre coloco antes de Deus? O campo, os bois, os compromissos, ou simplesmente o medo de mudar?
O banquete continua preparado. A mesa não foi retirada. O convite ainda ecoa. A questão não é se Deus chama. Ele chama sempre. A questão é se continuaremos a responder com desculpas ou se, finalmente, levantaremos e iremos.
15.12.2025
+ Bispo Theodore El Ghandour







