Os períodos do Triódio — tanto da Quaresma quanto do Pentecostes — permitem que todos os cristãos ortodoxos observem juntos as principais comemorações do ano litúrgico.
O Domingo do Fariseu & do Publicano (Κυριακὴ τοῦ Τελώνου καὶ τοῦ Φαρισαίου), celebrado hoje, ocupa um lugar especial no ano litúrgico ortodoxo. Na prática bizantina pós-iconoclasta, é o primeiro dos quatro domingos que preparam a Igreja para a Grande Quaresma e marca o início formal do ciclo do Triódio. Dependendo da data da Páscoa, pode ocorrer entre 11 de janeiro e 15 de fevereiro (calendário juliano).
Seu nome deriva diretamente da leitura do Evangelho designada para a Divina Liturgia deste dia, Lucas 18:10-14, a parábola em que Cristo contrasta a justiça presunçosa do Fariseu com o arrependimento e a humildade do Publicano. Desde o início, este Evangelho estabelece o tema espiritual fundamental do período pré-quaresmal: o arrependimento fundamentado na humildade, e não em conquistas religiosas externas.
Jerusalém: a Camada Mais Antiga
Na antiga tradição litúrgica de Jerusalém, a Parábola do Fariseu & do Publicano não estava originalmente ligada ao ciclo pré-quaresmal. De acordo com o Lecionário de Jerusalém dos séculos V a VIII, preservado em tradução georgiana, Lucas 18:10-14 era lido no Quarto Domingo da Grande Quaresma (Terceiro Domingo na contagem constantinopolitana). Nesse dia, era acompanhado por um conjunto completo de leituras e cânticos, incluindo trechos de Provérbios, Ezequiel, Romanos e vários salmos, juntamente com um rico conjunto de hinos preservado no Iadgari georgiano.
Isso explica um fenômeno que mais tarde intrigou os historiadores da Liturgia: hinos sobre o Fariseu & o Publicano aparecem não apenas antes da Quaresma, mas também durante os dias de semana e domingos do próprio Triódio Quaresmal. Sua presença reflete essa antiga prática de Jerusalém, na qual a parábola pertencia firmemente ao cerne do tempo quaresmal.
Constantinopla: um desenvolvimento tardio, mas decisivo
A associação do Publicano e do Fariseu com o início do período pré-quaresmal surge relativamente tarde. No Typikon da Grande Igreja de Constantinopla (séculos IX-XI), o ano litúrgico móvel começa não com este domingo, mas com o que mais tarde seria chamado de Domingo do Filho Pródigo, ainda designado simplesmente como o domingo anterior à Festa das Carnes. A Semana do Fariseu & do Publicano não é mencionada.
Somente no século XI os Evangelhos bizantinos começam a mostrar a estabilização gradual de Lucas 18:10-14 como a leitura anterior à parábola do Filho Pródigo. Manuscritos anteriores, por vezes, inseriam outras leituras evangélicas entre esses domingos, especialmente quando a Páscoa caía mais tarde. Contudo, no século XII, a posição da Semana do Fariseu & do Publicano como o primeiro domingo antes da Quaresma já estava consolidada.
Uma razão prática para esse desenvolvimento parece ter sido polêmica e disciplinar. A Semana do Fariseu & do Publicano era designada como uma semana contínua, sem jejum às quartas e sextas-feiras. Isso contrastava com a prática armênia, que observava um jejum rigoroso durante o mesmo período. A própria parábola, com o fariseu vangloriando-se de jejuar duas vezes por semana, fornecia uma justificativa teológica apropriada para a suspensão do jejum: jejuar sem humildade não tem valor algum.
Typika Monástica e a Formação do Triódio
Nas typika monásticas da tradição Studita, a Semana do Fariseu & do Publicano abre claramente o ciclo do Triódio. O Typikon Studita-Alexiano (século XI) já prescreve uma combinação de hinos ressurrecionais do Octoecos com hinografia específica do Triódio para este domingo.
Redações Studitas posteriores preservam a mesma estrutura básica, embora difiram em detalhes. Nessa fase, a Semana do Publicano e do Fariseu deixa de ser marginal ou experimental. Ela se torna um ponto de entrada integral e teologicamente carregado no ciclo da Quaresma.
Hinografia e Ênfase Teológica
A hinografia da Semana do Fariseu & do Publicano não se limita a recontar a parábola; ela a internaliza. O orgulho é identificado como a verdadeira barreira ao arrependimento, o jejum como espiritualmente perigoso quando acompanhado de autoexaltação, e a humildade como a porta pela qual a justificação entra no coração humano. Hinos penitenciais como “Abre-me as portas da conversão” começam a ser cantados nas Matinas a partir deste domingo, continuando até o Quinto Domingo da Grande Quaresma.
Metropolita Antony (Khrapovitsky): Humildade como Movimento para Frente
A lógica teológica deste domingo foi expressa com particular clareza pelo Metropolita Antony (Khrapovitsky), cujo 90º aniversário de falecimento celebramos este ano. Em seu sermão para o Domingo do Fariseu & do Publicano, o Metropolita Antony adverte contra uma leitura superficial e moralmente simplista da parábola.
Ele começa rejeitando a caricatura comum do fariseu como um hipócrita consciente e um monstro moral. Cristo, insiste ele, não descreveu tal figura. O fariseu na parábola agradece a Deus por suas virtudes; ele não reivindica a justiça como uma conquista própria, nem mente diante do Deus onisciente. Seu erro reside em outro lugar — não na falsidade, mas em sua relação com a própria consciência.
O Metropolita Antony explica isso por meio de uma imagem marcante: a vida cristã como uma jornada. O viajante fiel não olha para trás, para a distância já percorrida, mas olha para frente, para o que ainda resta, e pede a ajuda de Deus. Deter-se nas conquistas passadas, mesmo as genuínas, é espiritualmente perigoso. Aqui, ele recorda as palavras de Cristo: “Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus” (Lucas 9:62).
A gratidão a Deus pela libertação de certos pecados não é excluída. O que é excluído é a satisfação consigo mesmo. O verdadeiro arrependimento, ensina o Metropolita Antony, é inseparável do auto-reprovação, da autoconvicção e de um esforço sempre renovado para seguir em frente. A tragédia do fariseu reside precisamente em sua satisfação com as virtudes externas, enquanto o publicano, lamentando amargamente seus pecados, continua a caminhar em direção a Deus. Por essa razão, Cristo diz que o publicano voltou para casa mais justificado — não apenas justificado, mas mais justificado.
Este detalhe final é crucial. Ele mostra que o fariseu não foi rejeitado por buscar agradar a Deus ou manter sua consciência pura, mas sim por ter deixado de progredir. A humildade do publicano, por outro lado, o manteve em movimento.
Andrey Psarev
tradução de monja Rebeca (Pereira)








