Em sua oposição ao nominalismo barlaamita, o pensamento palamita é uma afirmação solene da imanência divina na história e no homem. Deus não Se revela ao mundo apenas “através de criaturas”, mas diretamente, em Jesus Cristo.
Todos nós, absolutamente todos, conhecemos o Filho pela voz do Pai que nos fala do alto (Mt 3,16-17) e o próprio Espírito Santo, que é luz inefável, nos mostrou que este é de fato o amado do Pai; o próprio Filho nos manifestou o Nome de Seu Pai e, ao ascender novamente ao céu, prometeu enviar-nos o Espírito Santo para habitar conosco para sempre (Jo 14,16); o próprio Espírito Santo desceu até nós e habita conosco, ensinando-nos toda a verdade (Jo 14,13). Como, então, pode ser verdade que conhecemos a Deus apenas através de criaturas? Será impossível para alguém que não conhece o matrimônio por experiência própria compreender a íntima união de Deus com a Igreja, visto que não tem nenhuma analogia da sua própria experiência à qual recorrer? Aconselharás então a todos que renunciem à virgindade para alcançar o conhecimento de Deus de que falas? Mas Paulo refuta-te; ele, embora solteiro, foi o primeiro a proclamar: “Este é um grande mistério; refiro-me, porém, a Cristo e à Igreja” (Tríades II, 3§ 67).
Deus Se revela “face a face, e não em enigmas” (Números 12,8); une-Se àqueles que são dignos como a Seus próprios membros, assim como a alma se une ao corpo; une-se vindo habitar em sua plenitude na totalidade do ser deles, para que, por sua vez, possam habitar nele; por meio do Filho, o Espírito é derramado abundantemente sobre nós (Tito 3,6), e, no entanto, não é, por isso, um espírito criado (Tríades I, 11§ 29).
Palamas afirma a absoluta realidade da visão de Deus pelos santos, repetindo constantemente que a graça que revela Deus, como a luz que iluminou os discípulos no Monte Tabor, é incriada. Na terminologia palamita, assim como na dos Padres gregos, Deus é essencialmente distinto dos outros seres por Sua natureza incriada. A condição própria desses seres é o estado criado, e quando transcendem seu próprio domínio pela comunicação com Deus, participam da vida incriada. A teologia oriental, de fato, nunca recorreu à ideia de uma “supernatureza criada”; o que o cristão busca, o que Deus lhe concede na graça sacramental, é a vida divina incriada, a deificação.
O conhecimento de Deus, então, segundo Palamas, não é um conhecimento que necessariamente exige que o sujeito cognoscente seja exterior ao objeto conhecido, mas uma união na luz criada. O homem, na verdade, não possui faculdade capaz de ver a Deus, e se tal visão existe, deve ser porque, em Sua onipotência, o próprio Deus se uniu ao homem, comunicando-lhe o conhecimento que tem de Si mesmo. Falando do poder sobrenatural de ver a Deus que nos é dado pela presença do Espírito, Palamas escreve:
Visto que esse poder não possui outro meio de agir, tendo transcendido todos os outros seres, torna-se inteiramente luz em si mesmo e semelhante àquilo que vê; está unido sem mistura, sendo luz (em si mesmo) e vendo a luz através da luz. Se olha para si mesmo, vê a luz; se olha para o objeto de sua visão, vê novamente a luz; e se olha para os meios pelos quais vê, vê novamente a luz. Isso é o que significa união; tudo é tão uno que aquele que vê não pode distinguir nem os meios, nem o fim, nem o objeto; ele tem consciência apenas de ser luz e de ver a luz distinta de tudo o que foi criado (Tríades 11, 3§ 36, pp. 459-461).
Tais passagens no doutor hesicasta expressam essencialmente o conceito bíblico de que, em Cristo, o homem recebe o poder de “tornar-Se Espírito” (João 3:6).
Pela participação no próprio Deus, em Sua graça incriada, o próprio homem se torna Deus. Como diz São Paulo, “ele já não vive, mas Cristo vive nele”.
Protopresbítero John Meyendorff
tradução de monja Rebeca (Pereira)








