5. Tornando-nos Semelhantes a Cristo e Partilhando a Sua Paixão
Mas para onde nos conduz esta longa jornada pelo deserto, este êxodo do Egito das paixões? Se observarmos atentamente a direção da nossa jornada quaresmal, descobriremos uma verdade surpreendente: o caminho da Quaresma não nos conduz simplesmente ao autoaperfeiçoamento, não ao orgulho pelas nossas conquistas, mas a Cristo. O jejum torna-se para nós um caminho para nos tornarmos semelhantes Àquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Consideremos o Evangelho: antes da obra mais importante do Seu ministério terreno — a pregação, o encontro com o tentador e o início da jornada salvadora para o Gólgota — o Senhor retirou-se para o deserto e passou quarenta dias ali em jejum e oração. Isso não é por acaso, nem é simplesmente um exemplo a seguir. Com seu jejum de quarenta dias, Cristo santificou o nosso jejum, fazendo do deserto um lugar de encontro com Deus e da abstinência uma arma contra o inimigo. Ele trilhou esse caminho primeiro, para que nós também pudéssemos segui-lo, não vagando nas trevas, mas vendo a sua luz à frente.
O Evangelho de Mateus preservou para nós preciosos versículos sobre esse evento:
“Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, Jesus teve fome. Então, aproximou-se d´Ele o tentador e disse: ‘Se és Filho de Deus, mande que estas pedras se transformem em pães.'” Ele respondeu: “Está escrito: ‘Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus’” (Mateus 4:2-4).
Aqui nos é revelado um profundo mistério: Cristo vem como o Novo Adão para corrigir o que o antigo Adão havia feito. O primeiro homem estava no paraíso, em condições de perfeita abundância, onde não havia fome, sede ou necessidade — e, no entanto, sucumbiu à tentação do maligno, foi seduzido pelo fruto, quebrou o jejum que Deus lhe dera e, assim, caiu. O segundo Adão — o próprio Senhor — vem a um mundo mergulhado no mal, a um deserto onde nada existe, onde está exausto de fome após um jejum de quarenta dias, onde Satanás o tenta com a mesma coisa que fez o primeiro Adão cair — o ventre, o desejo de saciedade, a desconfiança do Pai. E Cristo triunfa onde Adão caiu. Ele responde ao tentador não com Seu poder divino (embora pudesse ter transformado pedras em pão com uma só palavra), mas com a palavra das Escrituras, humildade e obediência à vontade do Pai. Ele nos mostra o caminho: o mal não é vencido por magia ou milagres, mas pela fidelidade a Deus, mesmo na mais extrema necessidade.
E aqui nos aproximamos do significado mais sagrado do jejum. O jejum não é simplesmente uma lembrança de um evento ocorrido há dois mil anos. É uma virtude que, verdadeiramente e misteriosamente, nos conecta com a Paixão de Cristo. Quando nos privamos voluntariamente do conforto, quando nosso corpo sente fome e fadiga, quando dizemos “não” ao impulso biológico mais natural — nesse momento, não estamos simplesmente imitando Cristo exteriormente, mas somos de fato crucificados com Ele. O apóstolo Paulo profere com ousadia estas palavras surpreendentes: “Fui crucificado com Cristo” (Gálatas 2:19). Essas palavras também podem se tornar realidade para nós.
O jejum é a nossa pequena cruz, que voluntariamente carregamos sobre os ombros para segui-Lo. É claro que nossa fome e cansaço são apenas um pálido reflexo do que Ele suportou. Mas o Senhor aceita até mesmo essa pequena coisa como um sacrifício de amor. Ele suportou sede e fome na Cruz por nós — e agora, quando suportamos sede e fome por amor a Ele, uma conexão misteriosa, uma comunhão viva de amor, é forjada entre nós e Cristo. Tornamo-nos capazes de, ao menos, vislumbrar o mistério do Seu sacrifício, de compreender, ainda que parcialmente, o preço que Ele pagou para nos salvar. E quanto mais profundamente mergulhamos nessa experiência, quanto mais sinceramente carregamos nossa pequena cruz, mais claramente percebemos que não caminhamos sozinhos — que Ele está perto, tendo percorrido este caminho até o fim e nos chamando para a Sua Páscoa, para aquela alegria que não é mais deste mundo e que ninguém pode nos tirar.
6. O Fundamento do Ascetismo e a Primavera Espiritual
O jejum é sinônimo de ascetismo, seu fundamento. Sem a pequena façanha da abstinência, não podemos aprender a nos controlar. Mas o ascetismo não é um fim em si mesmo, mas apenas uma ferramenta, um meio para alcançar o objetivo supremo: a união com Deus.
A Igreja nos ensina a considerar a Quaresma como um período crucial em que a pessoa examina com especial atenção o estado de sua alma. É um tempo de vigilância espiritual, em que somos como um guarda que vela pelo próprio coração. Na vida cotidiana, muitas vezes nos limitamos a manter a ordem externa em nossas almas, tentando evitar pecados óbvios e transgressões graves. Mas chega um momento em que esse cuidado superficial já não basta – algo mais, algo profundo e transformador, se faz necessário.
A Quaresma se propõe a ser um tempo de transformação radical de toda a nossa estrutura interior. Tudo o que se desgastou em nós precisa ser renovado; tudo o que se tornou frouxo precisa ser fortalecido; tudo o que nos afastou de Deus deve ser abandonado de vez. É precisamente esse trabalho abrangente sobre nós mesmos que a Quaresma nos convida a realizar. Não se trata de uma melhoria superficial, mas de uma transformação genuína da mente, uma renovação da alma, uma restauração daquela harmonia perdida que foi concedida à humanidade no início da criação.
Não é por acaso que os Santos Padres chamam a Quaresma de “primavera espiritual”. Assim como a natureza se liberta das amarras do inverno e todos os seres vivos desabrocham em busca da luz, também a alma humana, liberta do peso dos prazeres e apegos habituais, recebe a oportunidade de se endireitar, se purificar e florescer para a oração e as boas obras. A primavera é sempre o início de uma nova vida, e a Quaresma nos concede essa oportunidade, abrindo o caminho para a alegria da Páscoa — uma alegria que não depende mais de circunstâncias externas, mas nasce das profundezas de um coração purificado e renovado.
7. Purificação do Coração e um Pouco de Morte em Busca de um Encontro com Deus
E aqui chegamos ao significado mais importante, que muitas vezes nos escapa na correria do dia a dia. O jejum é uma abstinência consciente de tudo o que nos distancia de Deus. Os Santos Padres nos ensinam a distinguir entre duas coisas às quais somos chamados a renunciar: o antinatural e o natural. O antinatural é o pecado em todas as suas manifestações: malícia, condenação, luxúria, mentiras — tudo o que é contrário à nossa natureza primordial, criada à imagem de Deus. O natural é aquilo que nos é dado para sustentar a vida: comida, bebida, sono, repouso físico. E enquanto devemos renunciar ao pecado sempre e irrevogavelmente, no jejum nos limitamos voluntariamente nas coisas naturais — comida, prazer, conforto.
Mas por quê? Não simplesmente para atormentar o corpo, mas para um propósito maior: libertar o espaço interior da alma para um encontro com o Deus Vivo.
Nosso coração pode ser comparado a um quarto. Imagine uma casa abarrotada de móveis velhos, baús e coisas desnecessárias. É impossível viver em um quarto assim; não há espaço para se virar, é abafado e escuro. Da mesma forma, ao longo dos anos, nossos corações se enchem com a tralha dos prazeres, os móveis das preocupações vazias, os destroços das mágoas e a poeira da vaidade. Nos acostumamos a viver em meio a esse lixo e não percebemos mais que não há lugar na casa para o próprio Mestre.
A Quaresma é um tempo de limpeza, de primavera. Começamos a remover de nossos corações tudo o que é supérfluo, tudo o que nos atrapalha, tudo o que ocupa o espaço que pertence somente a Deus. E quando o ambiente gradualmente se esvazia, quando o ruído da agitação diminui, de repente ouvimos uma batida suave na porta. É Aquele que há muito tempo está à porta, esperando que o convidemos a entrar: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a Minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e ceiarei com ele, e ele co´Migo” (Apocalipse 3:20).
O jejum abre a porta – e Cristo entra no coração purificado.
Na tradição patrística, encontramos uma comparação surpreendente e até um tanto assustadora: o jejum é comparado à morte voluntária.
Mas para que essa purificação seja verdadeiramente profunda, é necessário mais do que simplesmente abster-se de alimentos que não são permitidos no jejum. É preciso uma mudança decisiva na própria direção da nossa alma. Na tradição patrística, encontramos uma comparação surpreendente e até um tanto assustadora: o jejum é comparado à morte voluntária. Claro que não se trata de morte física, mas de uma espécie de êxodo interior — um abandono decisivo do ciclo de preocupações e aflições que geralmente preenche toda a nossa consciência. A pessoa que inicia o caminho do jejum se conduz pela própria mão e, com grande esforço, retira a mente da rotina diária. Ela interrompe o fluxo incessante de pensamentos sobre o mundano, o cotidiano, o passageiro — e direciona seu olhar interior para onde o tempo encontra a eternidade.
E então, uma perspectiva completamente diferente se abre diante do olhar espiritual. A pessoa começa a refletir sobre o que raramente é considerado na correria do dia a dia: a hora final que um dia chegará para todos; o Juízo Final, no qual todos os segredos serão revelados; a retribuição que aguarda tanto os justos quanto os pecadores; e a própria presença com Cristo que nos espera além dos limites da existência terrena. Esses pensamentos não são sombrios — são salvíficos. Eles acalmam a alma, embalada pelo conforto, e a lembram do que é mais importante. O jejum parece levantar o véu entre o temporal e o eterno, permitindo-nos, mesmo aqui na Terra, vislumbrar, ao menos de relance, a realidade para a qual todos caminhamos.
E esse abandono voluntário do mundo, esse desapego temporário de suas alegrias e apegos, pode verdadeiramente ser chamado de uma pequena morte. Morremos para a vaidade – para renascermos para Cristo. Morremos para a verbosidade – para nascermos para a oração. Morremos para a gula – para ressuscitarmos para a gratidão. Essa pequena morte não assusta, mas antes alegra, pois é seguida pela ressurreição – a exultação pascal da alma, liberta dos fardos terrenos e encontrando o Celestial. O jejum se torna essa morte bendita, sem a qual o verdadeiro renascimento da alma para a vida eterna é impossível.
Este é precisamente o objetivo supremo da Quaresma: não simplesmente purificação, não simplesmente abstinência, mas uma comunhão viva e experiencial com Deus, o conhecimento de Cristo e da Santíssima Trindade. Quando a mente se liberta do torpor da saciedade, quando o coração deixa de se apegar às coisas terrenas, então a pessoa se torna capaz de acolher a graça. A pureza de coração não é um conceito abstrato; é uma condição para ver a Deus, como diz o Evangelho: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mateus 5:8). O jejum nos conduz a essa pureza, e a pureza abre a porta para a contemplação d´Aquele que é a fonte de toda a vida, de toda a alegria e de toda a existência. O jejum é uma jornada cujo fim não é o vazio, mas a plenitude; não a morte, mas a Páscoa eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.
A Plenitude da Vida Cristã
Quão multifacetado e profundo é o santo jejum! Ele se estende por toda a história da salvação: desde os primeiros dias do Paraíso, onde foi dado como um mandamento de obediência, passando pelos séculos do ministério profético, onde se tornou um sinal de proximidade com Deus, até a própria plenitude dos tempos, quando o Senhor o santificou com sua peregrinação de quarenta dias no deserto. Nele, encontramos uma arma contra o antigo tentador, que o atingiu até mesmo no deserto, e uma oportunidade de participar da obra de Cristo, tomando sobre nós a pequena cruz da abstinência, e uma esperança viva daquela Páscoa eterna, onde não haverá mais jejum nem tristeza, mas somente alegria sem fim no Salvador Ressuscitado.
Mas, refletindo sobre todos esses significados, devemos lembrar o mais importante: o jejum físico é apenas um meio, não um fim. Podemos passar os quarenta dias inteiros apenas com pão e água e ainda assim permanecer vazios se o nosso coração permanecer inalterado. A abstinência de alimentos só agrada a Deus quando combinada com a abstinência do pecado. Restrições alimentares não são uma opção para todos: alguns estão doentes, outros enfermos, e outros ainda têm circunstâncias de vida especiais. Mas ninguém está privado da oportunidade de orar, arrepender-se, perdoar os outros e praticar atos de misericórdia. Isso não exige saúde especial ou condições externas — todos podem fazê-lo, em qualquer situação, em qualquer idade. E se uma disposição de alma verdadeiramente cristã se desenvolver gradualmente em nós — ódio ao pecado e amor ao próximo — então todas as nossas ações, incluindo a abstinência física, tornam-se corretas, apropriadas e salutares. Sem esse núcleo interior, até mesmo o jejum mais rigoroso se torna uma dieta vazia.
Portanto, devemos jejuar não apenas no corpo, mas também no espírito. Ao nos restringirmos na alimentação, não devemos nos esquecer de nutrir nossas almas com a oração e a Palavra de Deus. Ao nos abstermos de alimentos processados, não devemos nos abster da caridade e das boas obras. Ao purificarmos nossos estômagos, devemos também purificar nossos corações do ressentimento, da condenação e dos maus pensamentos. Então, o jejum deixará de ser um fardo e se tornará um caminho de alegria rumo a Cristo. Pois Ele mesmo é o verdadeiro Alimento que, sozinho, pode satisfazer a fome mais profunda — a fome da alma humana por seu Criador (cf. João 6:27, 55). Ele é o Pão da Vida, que desceu do Céu (João 6:35, 51). Quem vem a Ele jamais terá fome, e quem crê n´Ele jamais terá sede (João 6:35). Esforcemo-nos, então, por nos aproximarmos d´Ele com firmeza, trilhando o caminho da Santa Quaresma, para alcançarmos o glorioso dia da Ressurreição e participarmos da eterna alegria pascal em Seu Reino Celestial.
Sacerdote Tarasiy Borozenets
tradução de monja Rebeca (Pereira)







