SANTA QUARESMA: UNIDADE NA DIVERSIDADE – PARTE 1

O que se esconde por trás da palavra familiar “Quaresma”? Muitas vezes, a percebemos simplesmente como um período de restrições alimentares, uma espécie de “época difícil” no calendário litúrgico. Mas as Sagradas Escrituras e os Santos Padres nos ensinam a olhar mais profundamente. A Quaresma não é apenas uma norma disciplinar da Igreja; é um modo de vida especial que permeia a história da humanidade e nos conduz à eternidade.

Vamos refletir e tentar responder à pergunta: o que é a Quaresma, de fato?

1. O Estado Natural do Homem Primordial

A primeira coisa que devemos entender é que o jejum não é uma invenção medieval nem um castigo. É o estado natural da humanidade primordial. Todos os alimentos no Paraíso eram quaresmais e deviam ser consumidos com moderação, para lembrar: “Nem só de pão viverá o homem” (Deuteronômio 8:3). A bem-aventurança do Paraíso já incluía o jejum, pois não havia lugar para a gula, que embota a alma.

No Paraíso, o homem recebeu o mandamento do jejum. Mesmo antes da Queda, quando o corpo de Adão era incorruptível e sua mente lúcida, o Senhor lhe deu o jejum como um meio de cultivar a liberdade. A proibição de comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal foi, em essência, o primeiro mandamento de abstinência dado ao homem. É importante entender aqui: o jejum nunca foi concebido pelo Cristianismo como algo autossuficiente, completo em si mesmo. Sempre foi meramente uma preparação, um caminho que leva à meta.

Para o primeiro Adão, essa abstinência tornou-se um meio especial de educação — um teste através do qual o livre-arbítrio humano podia ser revelado e fortalecido. Pode-se dizer que o jejum foi proposto como uma espécie de lei, um exercício da liberdade. Se a virtude fosse simplesmente uma qualidade inata, uma propriedade automática da existência paradisíaca, não seria uma posse verdadeiramente pessoal. O Senhor, porém, quis que a retidão fosse o resultado de uma escolha consciente e soberana — o fruto que cresce da livre obediência de um coração amoroso.

2. O Fundamento da Justiça e do Ministério Profético

Nas Sagradas Escrituras, o jejum muitas vezes nos aparece não simplesmente como um costume ou ritual, mas como um sinal visível da especial proximidade de uma pessoa com Deus. Torna-se sinônimo de justiça e santidade. Lembremos os profetas do Antigo Testamento: Elias, o grande campeão da fé; Moisés, que permaneceu quarenta dias no Sinai sem pão nem água — todos eles exemplificam pessoas para quem a abstinência era uma companheira natural da comunhão com Deus. Mas essa imagem é especialmente vívida na pessoa de João Batista, o Precursor do Senhor. Sua própria vida, vivida desde a juventude no deserto, tornou-se um sermão vivo sobre como o homem pode existir não tanto pelo pão, mas pela palavra de Deus.

O Evangelho preservou para nós detalhes esparsos, porém expressivos, da vida do maior dos nascidos de mulher: João “vestia-se de pelos de camelo e usava um cinto de couro na cintura; alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre” (Mateus 3:4). Essa vida austera não era autoflagelação nem desprezo pelos dons de Deus. Era a expressão natural do estado interior de um homem que, com todo o seu ser, se esforçava para encontrar o Messias que viria. O jejum de João não era uma dieta para a saúde ou uma façanha para autoafirmação, mas sim uma completa libertação do poder terreno. Seu coração estava tão cheio de Deus e da sede de Sua manifestação que todos os apegos humanos comuns — ao conforto, à variedade de alimentos, à paz — simplesmente perderam seu poder.

E aqui tocamos em algo essencial: uma pessoa justa não é santa porque se abstém de carne ou usa roupas grosseiras. A abstinência exterior apenas reflete a disposição interior de uma alma que amou a Deus acima de todas as coisas criadas. Quando o coração realmente encontra o Deus Vivo, naturalmente se torna mais receptivo ao mundo — não no sentido de hostilidade à criação, mas no sentido de se libertar da dolorosa dependência dela. O jejum, então, deixa de ser um dever pesado e se torna um caminho de libertação e alegria. Assim como um pássaro que alça voo não se arrepende da casca de ovo que joga no chão, também a alma que amou a Cristo abandona facilmente o que antes lhe parecia necessário. E quanto mais perfeita for essa libertação, mais plenamente a pessoa poderá abraçar a graça de Deus.

3. A Chave para Compreender a História

O jejum também é a chave para compreender toda a história da humanidade. A história começou com o jejum (um mandamento no Paraíso) e continuou com a sua violação. A Queda é precisamente essa quebra do jejum, essa intemperança. Adão quebrou o jejum, comeu o proibido, e o mundo caiu no abismo da corrupção.

A existência no Paraíso foi um tempo de proximidade sem precedentes entre o homem e o Criador, quando toda a criação existia em harmonia e obediência ao seu rei — o homem. Adão foi designado por Deus como governante do mundo: os elementos não tinham poder sobre ele, os animais não o ameaçavam, as doenças não tinham acesso ao seu corpo, e a própria morte não ousava aproximar-se daquele que foi criado para a eternidade, porque ainda não existia. Pois “Deus não criou a morte” (Sabedoria da Sabedoria 1:13). Este era um estado de verdadeira dignidade real, quando o homem possuía a plenitude dos dons de Deus, mas era chamado a crescer em amor e liberdade.

E assim, em meio a essa abundância indizível, o Senhor deu ao homem um único mandamento de abstinência: não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Este mandamento não era uma proibição onerosa, mas sim um pequeno ato de obediência através do qual o homem podia expressar sua gratidão ao Criador por todas as Suas incontáveis ​​bênçãos. Era o pouco que Adão podia livremente oferecer a Deus como sinal de seu amor e fidelidade. Assim como um filho que recebeu tudo de seu pai pode, em retribuição, atender ao pequeno pedido paterno por amor filial, o homem foi chamado ao pequeno feito da abstinência em prol de um grande objetivo: a preservação e o fortalecimento de sua união com Deus.

Infelizmente, a história da humanidade, que começou com esse jejum divino, prosseguiu com sua trágica violação. A Queda ocorreu precisamente por meio da intemperança — pelo desrespeito àquela única proibição que Deus impôs ao homem como prova de sua liberdade. Adão quebrou o jejum, provou o proibido, e o mundo instantaneamente mergulhou num abismo de sofrimento, doença e morte. O dom divino da imortalidade foi perdido, a harmonia com a natureza foi destruída e o domínio foi substituído por uma luta pela sobrevivência. Assim, o jejum, dado como meio de união com Deus, quando violado, tornou-se a causa da separação.

E agora, cada um de nós é chamado a compreender: o jejum não é apenas uma tradição, nem uma instituição qualquer, mas uma maneira poderosa e prática de retornar ao plano Divino do qual nos afastamos no princípio dos tempos. Ao retornarmos ao jejum, iniciamos a jornada de volta da Queda, e esta é a chave para toda a história sagrada da salvação.

4. O Caminho de Retorno ao Paraíso

Se observarmos com mais atenção o que nos acontece durante os dias da Santa Quaresma, descobriremos uma verdade surpreendente: o jejum se torna para nós não apenas um período de austeridade, mas uma verdadeira jornada — um retorno ao lar, ao paraíso perdido. É claro que não podemos, mecanicamente, por pura força de vontade, retornar ao estado de felicidade desfrutado pelo primeiro Adão. A queda é profunda demais, nossa natureza está distorcida demais pelo pecado. Mas nos foi dado outro caminho — um caminho que reverte o caminho da Queda. Assim como nossos primeiros pais se afastaram de Deus por causa da alimentação desregrada, por desconfiar do único mandamento, também nós somos chamados a ascender a Deus por meio da abstinência voluntária, por meio da obediência aos estatutos da Igreja. Cada “não” dito ao nosso ventre, cada “eu não quero” em resposta ao pecado habitual, torna-se um pequeno passo nessa jornada de retorno — do exílio ao retorno, da escravidão à filiação.

Aqui, a Igreja nos oferece um protótipo maravilhoso, impresso na história sagrada do Antigo Testamento. A cada Quaresma, nós, como o novo Israel, emergimos do Egito das paixões. O Egito é uma imagem da escravidão carnal, a terra onde nós, como os antigos hebreus, sentávamos junto a caldeirões de carne e comíamos pão até nos fartarmos (Êxodo 16:3), mas pagávamos por essa saciedade com um preço amargo: a perda da liberdade, o esquecimento de Deus, a labuta do pecado. Recordemos as murmurações dos israelitas no deserto: eles ansiavam pelos caldeirões do Egito, embora esses caldeirões fossem caldeirões de escravidão. Da mesma forma, nossa natureza decaída às vezes anseia por uma vida anterior sem jejum, sem oração, sem restrições — por uma vida onde éramos bem alimentados, mas não livres. A Quaresma nos chama a deixar essas lembranças e confiar no Pastor e Guia — Cristo, que nos conduz pelo deserto da Grande Quaresma.

O deserto não é um lugar de destruição, embora à primeira vista possa parecer aterrador em sua pobreza. O deserto é um lugar de encontro com Deus, um lugar de purificação e de conquista da verdadeira liberdade. Israel vagou por quarenta anos antes de entrar na Terra Prometida; a Igreja jejua por quarenta dias antes de acolher a Ressurreição Radiante de Cristo. E assim como o antigo Jordão se dividiu diante do povo de Deus, o túmulo de Cristo se abre para nós na noite de Páscoa. O caminho do jejum é o caminho do êxodo de toda escravidão — do Egito do pecado, do cativeiro das paixões, do cativeiro perpétuo da vaidade. Caminhamos, limitando-nos em “caldeirões egípcios de carne”, para participar de um tipo diferente de alimento — aquele do qual o Senhor disse: “A Minha comida é fazer a vontade d´Aquele que Me enviou e concluir a Sua obra” (João 4:34). E quanto mais diligentemente trilhamos este caminho, menos olhamos para trás, para o Egito abandonado, e mais claramente a luz da Terra Prometida começa a despontar à nossa frente – aquela alegria da Páscoa, onde não há mais jejum, mas júbilo eterno, onde não há mais abstinência, mas a plenitude da união com o Cristo Ressuscitado.


Sacerdote Tarasiy Borozenets
tradução de monja Rebeca (Pereira)

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

6 visualizações

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes