A Cruz se apresenta diante de nós hoje como julgamento e esperança. Ela nos expõe, revelando toda a verdade sobre quem somos. É precisamente ao estarmos diante da Cruz que compreendemos: nenhum pecado é insignificante. Cada pecado é um prego cravado no corpo de Cristo. E nada é mais terrível do que essa verdade. Mas a mesma Cruz é também a única porta pela qual podemos entrar na vida, vencendo a nós mesmos e um mundo onde tudo está subvertido e distorcido pelo pecado.
É difícil para nós aceitarmos esta verdade. É muito mais fácil viver num mundo de ilusões, onde podemos justificar as nossas fraquezas, onde os nossos pecados não parecem tão terríveis e o arrependimento parece formal e superficial. Mas hoje, em plena Quaresma, o Senhor parece tomar-nos pela mão e conduzir-nos diretamente à Cruz, dizendo: “Olhai atentamente. Este é o preço da vossa vida. E esta é a profundidade do Meu amor.”
Hoje, o Evangelho confronta-nos com a questão mais fundamental: o que temos feito com as nossas almas? E qual o valor da nossa Cristandade se temos medo de trilhar o caminho da Cruz, se a nossa fé é apenas um hábito conveniente, um conjunto confortável de regras e costumes? A cruz de Cristo destrói nossas noções sobre o que significa ser um fiel. O Senhor diz aos fariseus e a todos nós: o Sábado foi feito para o homem, e não o homem para o Sábado. Assim também hoje Ele nos lembra: a fé não nos é dada para conveniência e conforto, mas para transformar vidas, curar a alma, ressuscitar o homem das cinzas da mesquinhez e da complacência.
Hoje, Cristo cura novamente o homem com a mão ressequida, mas também a nós, cujos corações ressequiram, esfriaram e esqueceram o que significa amar verdadeiramente, sofrer verdadeiramente, viver verdadeiramente. E Ele pergunta: “Deve-se fazer o bem ou o mal? Salvar uma alma ou destruí-la?” E em nosso silêncio, a resposta ressoa: claro, fazer o bem, claro, salvar… Mas estamos dispostos a sacrificar nosso próprio conforto, nossa própria paz, nossa própria segurança e até mesmo nossos próprios sentimentos religiosos por isso?
Que a Cruz de hoje seja um desafio para nós. Que seja não apenas um sinal de salvação, mas também um choque que nos force a finalmente compreender: só podemos viver quando estivermos prontos para morrer para nós mesmos. Só então, tendo suportado a dor e a morte do velho homem dentro de nós, experimentaremos o sabor da nova vida, a liberdade e o poder da ressurreição.
Metropolita Ambrósio (Ermakov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)








