Na véspera do Domingo do Carnaval (ou Julgamento Final), comemoramos todos os nossos falecidos desde o princípio dos tempos. A Igreja Ortodoxa reza por seus membros que faleceram inesperadamente em decorrência de guerras, pestes, fome ou qualquer outra causa de morte enquanto estavam em um país estrangeiro ou durante viagens por mar, terra ou ar. A Igreja também reza pelos pobres, por aqueles que não receberam um sepultamento digno ou que não tiveram ninguém a quem solicitar serviços memoriais. Oramos, enfim, pelos falecidos, e há um motivo para isso. A morte não existe, Jesus Cristo a venceu. Nossa morte é apenas uma transição de uma forma de ser para outra. Mas, após a separação do corpo, nossa alma não tem poder sobre sua condição, e a oração dos vivos torna-se seu único consolo. A conexão espiritual entre os membros vivos e falecidos de nossa Igreja está fundamentada na oração.
Fazemos isto neste Sábado pelo fato da Igreja Ortodoxa ter estabelecido o sábado como o dia apropriado da semana para a lembrança dos falecidos. Neste dia, antes de ouvirmos o Evangelho sobre o Juízo Final, devemos refletir sobre nossa própria morte inevitável, quando compareceremos perante Cristo para prestar contas de nossas vidas. Que tenhamos “uma defesa aceitável perante o Seu temível Tribunal”.
O Sábado do Carnaval também é chamado de Sábado dos Parentes (tradição eslava) ou Sábado das Almas (tradição grega e bizantina), porque sempre iniciamos nossa comemoração com orações por nossos parentes falecidos. Há seis Sábados dos Parentes no ano litúrgico, sendo o Sábado do Carnaval um deles. Os outros cinco são os Sábados da Santíssima Trindade e de São Demétrio, e o segundo, terceiro e quarto sábados da Grande Quaresma.
Nesses dias, os cristãos ortodoxos deixam pedidos de oração com os nomes de seus falecidos. Também é costume trazer refeições que são consagradas na igreja e distribuídas aos que desejarem. Quem aceitar a comida acrescentará sua oração pessoal à comemoração dos falecidos na igreja.
Além disso, no sábado dedicado aos parentes, preparamos kutiya, ou kollyva, feita com grãos de trigo cozidos e misturados com mel, especiarias ou açucar e frutas secas. Para que uma nova safra cresça, o grão precisa ficar na terra para se decompor. Da mesma forma, os corpos dos mortos são sepultados para que ressuscitem para a vida eterna em seu tempo.
Ao orarmos pelos nossos falecidos, lembramos que todos os que vivem agora entrarão na vida eterna quando chegar a sua hora. Também percebemos quão vãs e frágeis são as nossas vidas terrenas, quão finitas são as nossas comodidades e riquezas materiais, quão insignificantes são muitas das nossas preocupações diárias. Não podemos levar nada disso conosco para a eternidade. Nossas alegrias e tristezas se entrelaçam, nossa saúde é vulnerável a doenças e nossa vida pode parar abruptamente a qualquer momento. Nosso tempo na Terra é curto e passa voando. Dias e anos se passam antes que percebamos.
Como lemos nas Escrituras: «Todos são mentirosos», «não há ninguém na terra que faça justiça e nunca peque». Somos pecadores e prestaremos contas dos nossos pecados. Mas todos temos a oportunidade de nos arrepender e nos reformar enquanto ainda estamos na Terra. Ao homenagearmos os nossos falecidos, não nos esqueçamos também de viver nossas vidas terrenas com dignidade e fazer bom uso do nosso tempo.
Ao nos prepararmos para as lutas espirituais da Grande Quaresma, devemos lembrar que nos foi dada esta vida presente para o arrependimento e para suplicar a misericórdia de Deus. Quando Cristo vier em glória para julgar o mundo, será tarde demais para dizer que nos arrependemos ou para pedir misericórdia. Portanto, devemos aproveitar ao máximo o tempo que nos foi dado para lutar contra todo impulso pecaminoso que nos separa de Deus, confessar nossos pecados, corrigir-nos e buscar uma vida de virtude e santidade.
monja Rebeca (Pereira)








