SÁBADO DO ACATISTE À SANTÍSSIMA THEOTOKOS

A questão da origem e do tema da festa do Acatiste, celebrada no Sábado da Quinta Semana da Grande Quaresma, tem dado origem a muitas opiniões divergentes.

É certo que o “Conto do Inquieto” (isto é, o Acatiste à Santíssima Mãe de Deus), situado no final do Triódio da Quaresma, bem como o sinaxário para este dia, afirma claramente: esta celebração comemora a libertação de Constantinopla do cerco dos persas e ávaros em 626, sob o imperador Heráclio. Além disso, foram posteriormente acrescentadas as comemorações de outras duas libertações milagrosas da capital bizantina: dos árabes em 672-678 (segundo outras fontes, em 669-675) e em 716. Contudo, nem todos estes cercos coincidem com a festa do Acatistes, e a sua comemoração encontra-se nos calendários de Constantinopla em meses diferentes. Tentou-se também provar que este feriado foi instituído em memória da libertação de Constantinopla dos russos sob o Patriarca Fócio em 860, mas os argumentos apresentados não são suficientemente convincentes.

É preciso reconhecer que o próprio Acatiste à Santíssima Theotokos fornece informações muito escassas e extremamente contraditórias sobre a cronologia e o significado da festa em questão. Por exemplo, seu texto não contém sequer uma menção à libertação de Bizâncio dos invasores.

Contudo, se alguém reler o Acatiste com atenção, não poderá deixar de notar que seu conteúdo temático, sua solução narrativa e sua referência subjetiva se distinguem por uma clara dualidade. O Arcipreste Maxim Kozlov escreve: “O conteúdo histórico e dogmático do hino divide-se em duas partes: uma parte narrativa, que relata eventos associados à vida terrena da Mãe de Deus e à infância de Cristo, de acordo com o Evangelho e a Tradição (Ikos 1-12), e uma parte dogmática, referente à Encarnação e à salvação da humanidade (Ikos 13-24)”[1].

A julgar pelas invocações que começam com a palavra “Rejubila ou Alegra-te”, a obra é inegavelmente dirigida à Theotokos. Mas muitas de suas estrofes são dirigidas a Cristo, por exemplo, a 11ª (“Pregadores portadores de Deus”), a 12ª (“Aquele que resplandeceu no Egito”) e a 13ª (“A Simeão”). Além disso, a 20ª estrofe enfatiza insistentemente a ideia de que o Acatiste foi composto para glorificar o próprio Cristo: “Toda canção é vencida, esforçando-se para alcançar a multidão de Tuas misericórdias: pois, embora Te ofereçamos, ó Rei Santo, canções em número igual à areia, nada fazemos digno do que Tu nos deste, nós que clamamos a Ti: Aleluia.”

Em sua forma, o Acatiste pertence a um tipo especial de hino antigo — o chamado Kontakia. Nos livros litúrgicos modernos, geralmente são preservadas apenas duas estrofes desses hinos, conhecidas como Kontakion e Ikos. As estrofes do Kontakion, ou Ikos, são ligadas por algum tipo de acróstico. Assim, no Acatiste, o alfabeto serve como um acróstico, com a letra “alfa” aparecendo na estrofe “Anjo Intercessor”. Portanto, a primeira estrofe introdutória (proêmio) — “Ao Líder Campeão” — está fora da estrutura alfabética, o que significa que poderia ter sido composta por alguém diferente do autor do Acatiste. Alguns estudiosos acreditam que este proêmio deva ser associado ao já mencionado “cerco de Constantinopla no verão de 626 pelos ávaros e eslavos, quando o Patriarca Sérgio de Constantinopla, carregando um ícone da Santíssima Theotokos, circulou as muralhas da cidade e o perigo foi afastado”.[2]

O texto em questão contém dois refrões: “Rejubila ou Alegra-Te” e “Aleluia”. Essa ambivalência é bastante incomum e leva à seguinte hipótese: um único refrão que começa com “Rejubila” só pode aparecer após as estrofes que contêm louvores à Theotokos, enquanto “Aleluia” pode ser recitado após todas as 24 estrofes do Acatiste, mesmo que os louvores sejam removidos. Portanto, é possível que “Aleluia” tenha sido originalmente o único refrão de todo o Acatiste, e “Rejubila” seja um elemento posterior, introduzido durante a redação original. Por essa razão, nem sempre está organicamente conectado ao conteúdo geral do Acatiste e obscurece significativamente sua ideia principal e tema. Estes se concentram, na verdade, não na pessoa da Theotokos, mas na glorificação da Encarnação. Isso se expressa mais claramente nas estrofes 12 a 18, enquanto as primeiras partes são uma introdução histórica a elas, e as últimas, em sua maior parte, as repetem e concluem.

Mas, é claro, o Acatiste também glorifica o “templo vivo” que serviu ao mistério da Encarnação — a Theotokos. É precisamente por isso que, com o tempo, considerou-se necessário reforçar a sua glorificação da Mãe de Deus, introduzindo elogios a Ela. Um argumento adicional aqui é a seguinte circunstância bem conhecida: o Acatiste há muito serve como um Kondakion para a Anunciação, e deve-se presumir que foi concebido para esta festa.

Assim, uma análise do Acatiste nos leva a buscar a origem da comemoração do Sábado da Quinta Semana da Grande Quaresma na Festa da Anunciação. Certas regulamentações estatutárias antigas referentes a esta comemoração também apontam nessa direção. Anteriormente, ela não estava necessariamente ligada ao Sábado da Quinta Semana. A comemoração do sábado era, por assim dizer, uma pré-festa da Anunciação. Sua conexão com a Anunciação também é evidente pelo fato de muitos de seus hinos serem extraídos do serviço desta festa. Ou seja, na memória em questão, temos que lidar com a festa adiada da Anunciação.

Retomando a discussão sobre o contexto histórico e repleto de acontecimentos da celebração do Acatiste, é preciso afirmar: segundo os diversos argumentos de I.A. Karabinov, a celebração não está ligada ao cerco de Constantinopla, mas sim à Guerra Persa do Imperador Heráclio, ou mais precisamente, ao seu desfecho, que foi favorável aos bizantinos.[3] Não é coincidência que este evento coincida quase exatamente com o Acatiste e a Anunciação. Isso é comprovado pelas paremias (do profeta Isaías) lidas precisamente durante a quarta e quinta semanas da Quaresma, que, por sua vez, estão substancialmente relacionadas às leituras de quarta e sexta-feira da Semana do Queijo.

Portanto, historicamente, a memória do fim da Guerra Persa era celebrada juntamente com a Anunciação: por um lado, porque a guerra terminou quase nesse dia e, por outro, porque a Mãe de Deus era considerada a padroeira de Constantinopla, onde esta festa foi originalmente instituída. Quando o Concílio de Trullo autorizou o estabelecimento da Anunciação em uma data própria, o Sábado do Acatiste passou a ser associado à memória da guerra. Com o tempo, porém, as camadas cronológicas dos eventos se alteraram e se estreitaram, fazendo com que o cerco de Constantinopla em 626 se tornasse mais relevante, por ser o episódio mais memorável da grande guerra, que foi travada em grande parte longe da capital. A atribuição definitiva do Acatiste ao Sábado da Quinta Semana da Quaresma ocorreu bem mais tarde — somente após o século XI.


__________________

[1] Kozlov Maxim, Arcipreste. “Acatiste na História da Hinografia Ortodoxa” // Jornal do Patriarcado de Moscou. 2000. Nº 6. P. 84.

[2] Ibid.

[3] Karabinov I.A. “O Triódio da Quaresma: Uma Revisão Histórica de seu Plano, Composição, Edições e Traduções Eslavas.” Moscou, 2004. Pp. 63–64.


Georgy Bitbunov
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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