Reze pelos falecidos com fé e esperança na misericórdia de Deus. São Filareto, Metropolita de Moscou
Nossa dor pela morte de entes queridos seria infinita e inútil se o Senhor não nos tivesse dado a vida eterna. Nossa vida seria sem sentido se terminasse na morte. Que utilidade teriam então a virtude e as boas obras? Então, aqueles que dizem: “Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos”, estariam certos. Mas o homem foi criado para a imortalidade, e Cristo, por meio de Sua ressurreição, abriu as portas do Reino dos Céus, a bem-aventurança eterna, para aqueles que n´Ele creem e vivem retamente. Nossa vida terrena é uma preparação para a vida futura, e essa preparação culmina na morte. Está determinado que os homens morram uma só vez, vindo depois disso o juízo (Hebreus 9:27). Então o homem deixa para trás todas as preocupações terrenas; seu corpo se desintegra para ressuscitar na Ressurreição Geral.
Mas sua alma continua a viver, jamais deixando de existir por um único instante. Através de muitas aparições de mortos, recebemos uma visão parcial do que acontece com a alma quando ela deixa o corpo. Quando a visão física cessa, a visão espiritual começa. Frequentemente, essa visão espiritual começa nos moribundos mesmo antes da morte, e enquanto ainda veem aqueles ao seu redor e até conversam com eles, enxergam o que os outros não conseguem. Mas ao deixar o corpo, a alma se encontra entre outros espíritos, tanto bons quanto maus. Geralmente, ela é atraída por aqueles que lhe são mais próximos em espírito e, se enquanto estava no corpo, esteve sob a influência de algum deles, permanecerá dependente deles mesmo após deixar o corpo, por mais repulsivos que possam se mostrar ao primeiro encontro.
Algumas almas, após quarenta dias, encontram-se em estado de expectativa da alegria e bem-aventurança eternas, enquanto outras temem o tormento eterno, que terá início plenamente após o Juízo Final. Antes disso, porém, ainda são possíveis mudanças no estado das almas, especialmente por meio da oferta do Sacrifício Incruento (comemoração na Liturgia) e outras orações por elas.
A importância da comemoração na Liturgia pode ser vista nos seguintes exemplos. Mesmo antes da glorificação de São Teodósio de Chernigov (1896), um hieromonge (o famoso Ancião Alexy do Monastério de Goloseevsky da Lavra das Grutas de Kiev, falecido em 1916), que estava revestindo as relíquias, sentiu-se cansado enquanto estava sentado junto a elas. Ele cochilou e viu o santo à sua frente, que lhe disse: “Obrigado pelo seu trabalho por mim.” “Peço-vos também que, quando celebrardes a Liturgia, mencioneis meus pais”, e ele disse seus nomes (Padre Nikita e Maria). Antes da visão, esses nomes eram desconhecidos. Vários anos após sua canonização, um livro memorial de São Teodósio foi encontrado no monastério onde ele era abade, confirmando esses nomes e a veracidade da visão. “Como podes, Santo, pedir minhas orações quando tu mesmo estás diante do Trono Celestial e concedes a graça de Deus às pessoas?”, perguntou o hieromonge. “Sim, é verdade”, respondeu São Teodósio, “mas a oferenda na Liturgia é mais poderosa do que minhas orações.”
Portanto, uma oração de luto (panikhida) e uma oração em casa pelos falecidos são benéficas, assim como boas ações realizadas em sua memória, como esmolas ou doações à Igreja. Mas sua comemoração na Divina Liturgia é especialmente benéfica. Houve muitas aparições de mortos e outros eventos que confirmam o benefício de comemorar os falecidos. Muitos que morreram em arrependimento, mas não o demonstraram em vida, foram libertados do tormento e receberam o repouso eterno. Orações pelo repouso eterno dos falecidos são constantemente oferecidas na Igreja, e a oração de joelhos nas Vésperas do dia da Descida do Espírito Santo inclui uma súplica especial “pelos que estão no inferno”.
Quem desejar demonstrar seu amor pelos falecidos e oferecer-lhes auxílio concreto pode fazê-lo da melhor maneira possível rezando por eles, especialmente participando da Liturgia, quando partículas colhidas pelos vivos e pelos mortos são imersas no Sangue do Senhor com as palavras: “Lavai, Senhor, os pecados daqueles aqui lembrados com o Teu precioso Sangue, pelas orações dos Teus santos”.
Não podemos fazer nada melhor ou maior pelos falecidos do que rezar por eles, participando da Liturgia. Isso é sempre necessário, principalmente durante os quarenta dias em que a alma do falecido caminha para a morada eterna. O corpo então não sente nada: não vê os entes queridos reunidos, não sente o perfume das flores, não ouve as orações fúnebres. Mas a alma sente as orações que lhe são feitas, é grata àqueles que as oferecem e está espiritualmente próxima deles.
Ó, familiares e amigos dos falecidos! Façam por eles o que for necessário e estiver ao seu alcance. Usem seus recursos não para a decoração externa do caixão e da sepultura, mas para ajudar os necessitados, em memória de seus entes queridos, nas igrejas onde se fazem orações por eles. Sejam misericordiosos com os falecidos, cuidem de suas almas. O mesmo caminho se estende à sua frente, e como ansiamos por ser lembrados em oração! Sejamos também misericordiosos com os falecidos…
Cuidemos daqueles que partiram para o outro mundo antes de nós, façamos tudo o que pudermos por eles, lembrando que “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mateus 5:7).
São João (Maximovich) de Xangai e São Francisco
tradução de monja Rebeca (Pereira)







