RETORNO AO PARAÍSO – DOMINGO DA DELÍCIA DO QUEIJO

Na pessoa do velho Adão, a raça humana caiu, quando pecou contra o amor; e o terrível julgamento de Deus será uma crise (ou seja, um julgamento) para o amor humano.

A humanidade foi chamada à plena união de toda a sua vida com Deus, através do amor, mas caiu porque quis aprender o segredo do ser através da lógica fria e da percepção cega da carne. E tornou-se carne, o espírito extinguiu-se e o físico triunfou. Tornou-se aquilo que sabemos ser: possuidores de um entendimento incerto e artificial, através do cérebro, e de uma percepção inebriante através do corpo.

Mas o conhecimento que a humanidade fora chamada a adquirir através da união com Deus, contemplando os mistérios da vida e da existência nas profundezas de Deus, perdeu-se — como o perdemos hoje — quando pecou contra o amor.

O Evangelho da semana passada falava do juízo vindouro. Esse juízo baseava-se exclusivamente na questão de saber se fomos capazes de amar enquanto vivíamos na Terra: “Dei de comer aos famintos, sofrestes com os que sentiam frio, vestistes os nus, tivestes coragem de visitar os presos, mostrastes misericórdia e amor?”. Esse é o único juízo de que o Senhor fala. Ele pergunta apenas que tipo de coração tínhamos, se, na Terra, fomos capazes de amar com toda a amplitude do amor terreno e com um coração humano vibrante, cheio de compaixão, afeto e empatia. O terrível julgamento é aterrador porque nada nos será exigido. Simplesmente estaremos diante da face de Deus e ali, diante do amor divino, em um lugar onde só haverá amor, onde o amor expressa todo o sentido do ser, então o que há de bom em nós lamentará, porque nunca o libertamos, nunca o deixamos se expressar plenamente, já que matamos o amor em nome da lógica fria e das tentações da carne.

Hoje, ao recordarmos a queda de Adão, não é difícil imaginar como ele derramou lágrimas amargas do lado de fora dos portões do Paraíso. Esses portões são os que se fecham para aqueles que falharam no amor. Muitas vezes, sentimos o mesmo: uma família se desfaz e alguém chora do lado de fora dos portões fechados do Paraíso porque o amor não conseguiu perdurar e triunfar, porque nada resta além de distanciamento e frieza. Talvez uma amizade termine e a pessoa fique presa no mundo congelado do amor perdido e do coração fechado.

Não conhecemos o desejo de Adão, pelo qual a Igreja canta com tanta dor? Nossa alma não se volta para Deus, para as pessoas que amamos, e não nos fecha a porta na cara porque nosso amor não é suficiente, porque a frieza e a petrificação de nossos corações e mentes são tão fortes?

Mas o que devemos fazer? Como escapar desse horror? A resposta está no Evangelho de hoje. Aprender a amar espontaneamente, sem reservas, a abrir nossos corações, nossas vidas e almas, a Deus e também aos outros, está além das nossas capacidades, mas podemos começar com pequenas coisas – como nos diz São Paulo (Rm 14,1), podemos começar aceitando uns aos outros como “doentes”, porque é isso que realmente somos. Esse é o começo do perdão.

Não conseguimos perdoar a ponto de não restar dor ou horror, mas podemos começar a perdoar, podemos dizer: eu te aceito como você é; apesar de toda a sua falta de afeto e ressentimento, da sua antipatia e do seu comportamento desagradável, eu não vou te rejeitar: você é meu irmão, minha irmã, minha mãe, meu pai, meu amigo. Vou suportar sua frieza, tudo, vou tolerar. Por enquanto, é tudo o que posso fazer – não consigo te amar, mas posso te aceitar. Posso te aceitar como Cristo aceitou a cruz, a cruz compassiva e horrível, e posso te carregar, em meu ombro, na dor e na tristeza.

É claro que não precisamos carregar todos com tanta dor e tristeza. Há muitos que podemos carregar com alegria. E não nos esqueçamos de todos aqueles que nos carregaram com afeto, empatia e amor.

Mesmo que não possamos perdoar perfeitamente, ao menos sintamos compaixão pelas pessoas que são pecadoras, assim como nós, tão frágeis e vulneráveis ​​quanto nós, tão incapazes de amar e viver. Acolhamos o próximo com o amor da cruz e entremos na Grande Quaresma nos alegrando por termos recebido a oportunidade de caminhar juntos rumo à salvação, rumo ao dia em que, pela graça e poder de Deus, por Seu afeto, amor e consolo, nós também seremos capazes de nos curar e conhecer o que é o perdão completo, o amor perfeito, e então teremos alcançado as portas estreitas do Reino de Deus.


Metropolita Anthony (Bloom) de Sourozh
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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