No domingo à noite, véspera da Quaresma, todas as igrejas realizam o rito do perdão. Provavelmente não é tão difícil: pedir perdão a alguém que você só vê na igreja e por quem não guarda rancor. Às vezes é apenas uma formalidade. Mas perdoar alguém que o ofendeu, magoou ou o magoou profundamente… Isso exige esforço. Conversamos com o Padre David Proskuryakov, clérigo da Diocese de Astrakhan, sobre como perdoar algo que é muito difícil e, às vezes, até impossível.
– Padre David, o que é o ressentimento e por que ele fere tanto a alma? Como o ressentimento, enquanto paixão, difere, por exemplo, da raiva?
– O ressentimento é derivado do nosso pecado fundamental e, por assim dizer, predileto: o orgulho. São João de Xangai disse certa vez: “O egoísta ativo ofende, e o egoísta passivo é ofendido”. Esta é uma definição muito precisa da origem e do surgimento do ressentimento. Uma pessoa que perde a sensibilidade e o amor pelos outros é capaz de ofender, e uma pessoa que espera o melhor para si mesma é capaz de ser ofendida. O senhor tem toda a razão ao afirmar que esse pecado fere a alma; além disso, como um espinho venenoso, ele também a envenena — uma condição grave e, eu diria, até mesmo aterradora.
Recentemente, uma paroquiana me contou que estava ressentida com o marido havia alguns dias. O motivo era completamente trivial: um comentário infeliz feito de forma desajeitada durante um jantar. Como resultado, ela presumiu que ele a estava tratando de forma inadequada e, por vários dias, seu rosto ficou inexpressivo como uma estátua de pedra do mundo antigo. Quando perguntei por que ela havia tentado tal façanha, recebi a resposta esperada: “Eu queria mostrar a ele que não deveria me tratar assim”. No fim, aqueles dias de “ressentimento” a levaram praticamente à beira de um colapso. Felizmente, tudo se resolveu: o marido e a esposa finalmente conversaram e esclareceram todas as questões. Era um problema simples, mas, na realidade, poderia ter se transformado em uma discussão séria, e a culpa foi de uma simples mágoa.
Quanto à diferença em relação a outras paixões, vale a pena lembrar as palavras de nosso Senhor Jesus Cristo: “Se vocês perdoarem aos homens as suas ofensas, o Pai celestial também lhes perdoará. Mas, se vocês não perdoarem aos homens as suas ofensas, o Pai celestial também não lhes perdoará as ofensas” (Mateus 6:14-15). Em outras palavras, um coração orgulhoso e ressentido levará à completa falta de perdão, inclusive da própria alma.
– As pessoas costumam dizer: “Eu perdoei, mas não consigo esquecer”. Isso é verdadeiro perdão?
– Para responder a essa pergunta, gostaria de usar um exemplo muito simples e completamente esquemático; não deve ser interpretado literalmente. Vamos traçar uma analogia entre o corpo e a alma. Imagine: como resultado de algum ato impensado, você feriu o braço – um ferimento profundo que requer atenção médica e, se você não tomar providências, esse ferimento infeccionará e levará a sérias consequências. De maneira semelhante, o pecado prejudica nossa alma. Se uma pessoa, ao nutrir ressentimento, tenta se calar e esquecer seu pecado, isso também levará a graves consequências, mas desta vez em um nível espiritual. O ressentimento, como qualquer outro pecado, deve ser tratado imediatamente e, antes de tudo, é preciso recorrer ao Médico — a Deus — para a Confissão.
No entanto, mesmo isso não significa que você será aliviado imediatamente. Quando você vai ao médico com a mão ferida, ele trata o ferimento, talvez aplique pontos e, após todos esses procedimentos, você não perguntará perplexo: “Doutor, por que minha mão ainda dói?”. Porque você entende que tais feridas não cicatrizam tão rapidamente e que terá que procurar ajuda médica repetidas vezes, seguindo as instruções necessárias. O mesmo acontece com o pecado grave: você deve seguir as instruções de Deus.
Em relação ao ressentimento: vale a pena começar a rezar por essa pessoa, pedindo ao Senhor todo o bem para ela. Além disso, se possível, não se esqueça das boas ações e da participação ativa na vida dessa pessoa. É importante entender que, a partir do momento em que essa pesada pedra do ressentimento apareceu em seu coração, essa pessoa se tornou uma sentença de morte para você: a salvação é impossível para mim até que eu a perdoe.
– Existem ofensas que, da perspectiva da Igreja, são fundamentalmente imperdoáveis? Por exemplo, traição, violência, crueldade contra crianças.
– “Ações duras têm consequências. Acho que os conceitos de justiça e perdão estão interligados aqui. É importante lembrar que o cumprimento de decisões judiciais relativas a violações da lei é, por vezes, uma manifestação da Divina Providência e, frequentemente, leva ao arrependimento. No entanto, esse é um tema completamente diferente e muito amplo. Quanto ao perdão, não há dúvida: por mais hediondas que sejam as ações de alguém contra você, é preciso superar o ressentimento.”
O apóstolo Paulo diz em sua Epístola aos Romanos: “Quem és tu para julgar o servo alheio? Para o seu próprio Senhor ele está em pé ou cai; e ele se manterá em pé, porque Deus é poderoso para o manter em pé” (Romanos 14:4). Nosso ressentimento, causado pela condenação constante e implacável, é perfeitamente capaz de perdurar além da misericórdia de Deus, e, nesse caso, nos tornamos os principais portadores do pecado, visto que o Senhor já ressuscitou e transformou essa pessoa, enquanto nós, por nossa fraqueza pecaminosa, apenas pioramos e nos afastamos ainda mais de Deus.
– Que orações ou regras de oração você recomendaria para alguém que sofre de ressentimento? Por exemplo, a oração de Efrém, o Sírio, uma oração pelos inimigos.
– Uma das minhas orações favoritas é justamente a de Santo Efrém, o Sírio. Certa vez, graças à ajuda de Deus, enquanto recitava essa oração, descarreguei sem querer um caminhão inteiro de tijolos — a história está no meu livro.
No entanto, vale a pena esclarecer que tudo depende da pessoa. Para alguns, a oração de Abba Doroteu pode ser suficiente: “Deus, ajude meu irmão e a mim pelas suas orações”, mas para alguns, nem mesmo o Cânone Penitencial será suficiente. A oração por si só é comunicação com Deus; um texto isolado, recitado em voz baixa sem a participação do coração e da mente, não ajudará em nada. Por essa razão, a abordagem a essa questão é individual.
Sacerdote David Proskuryakov
tradução de monja Rebeca (Pereira)








