RESPONDENDO A CURIOSIDADES SOBRE O NATAL

O hieromonge Job (Gumerov) do Monastério de Sretensky, em Moscou, responde a perguntas relacionadas à época natalina.

Já li o Evangelho segundo Mateus muitas vezes e, de repente, me dei conta dos dois primeiros versículos do segundo capítulo. Como os Magos poderiam ter vindo do Oriente para uma estrela que viram no Oriente? Os Magos deveriam ter vindo do Ocidente para a estrela que estava no Oriente, ou a estrela deveria estar no Ocidente; ou talvez o significado seja outro. Por favor, explique. —Yuri

Pois vimos a Sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo (Mt 2:2). A questão surgiu devido a uma particularidade sintática da citação. A palavra “Oriente” não se refere à estrela, mas aos Magos: Pois vimos a Sua estrela [localizada] no Oriente e viemos adorá-Lo. A estrela não era um fenômeno astronômico, mas um “poder invisível que assumiu a forma de uma estrela” (São João Crisóstomo), “um poder divino e angelical que apareceu na imagem de uma estrela” (Bem-Aventurado Teofilácto). São João cita os seguintes conceitos em apoio a isso: 1. Seu caminho não era comum: movia-se do norte para o meio-dia (o sul). Guiou os magos de Jerusalém a Belém, que fica mais ao sul. 2. Não aparece à noite, mas durante o dia. À noite, a estrela não era vista. 3. A estrela aparece, depois se esconde e depois aparece novamente. 4. A estrela mostra o lugar não das alturas, mas desce até ele; uma estrela comum não pode mostrar um lugar como uma manjedoura.

Há ainda outra explicação para este verso. A palavra grega anatole e a eslava vostok (oriente) têm dois significados: 1. O lado luminoso e 2. O nascer do sol, a fonte. Com essa explicação, o verso poderia ser lido como: “vimos o nascer (fonte) da Sua estrela”.

Por favor, perdoe minha ignorância, mas tenho uma pergunta. Na promessa, o Senhor disse que o Salvador aparecerá ao mundo da linhagem de David. Nos Evangelhos, encontramos uma genealogia detalhada de José, o noivo da Virgem Santíssima, que na verdade era descendente de David. Mas José era apenas o padrasto de Cristo. Ouvi uma versão que diz que a própria Virgem Santíssima também era da linhagem de Judá, pois, segundo a lei, todos os casamentos deviam ser dentro da mesma tribo. Mas… Isabel, a justa mãe de São João Batista, é mencionada na Bíblia como parente de Maria e também como filha de Aarão. Isso significa que Jesus não era da tribo de Judá? Esclareçam minhas dúvidas. Que o Senhor os proteja! —Daria

Segundo a tradição da Igreja, relatada por São Dmitry de Rostov, o pai da Virgem Maria, o Justo Joaquim, traçava sua linhagem até David, não por meio de Salomão, mas sim por meio de seu irmão Natã, também nascido de Berseba (2 Reis 5:14; 1 Crônicas 5:14; 14:4). Natã é mencionado como ancestral de Jesus Cristo no Evangelho de São Lucas: “Que foi filho de Matatá, que foi filho de Natã, que foi filho de David” (Lucas 3:31). Visto que o evangelista Mateus não menciona Natã, mas Salomão, os estudiosos consideram que, no Evangelho de São Lucas, a linhagem do Salvador é apresentada segundo a de sua mãe. Ao final da genealogia, José é citado porque a genealogia é apresentada segundo a linha masculina, enquanto a mãe não poderia ser mencionada como um elo na cadeia de herança.

A Santíssima Mãe de Deus e Santa Isabel eram primas por parte de mãe. A mãe da Mãe de Deus, a Justa Ana, descendia da tribo de Levi, da linhagem de Aarão. Ela era filha do sacerdote Matã. Sua esposa era Maria, da linhagem de Judá. Eles tiveram três filhas: Maria, Sobe e Ana. “A primeira a casar-se foi Maria, em Belém, e ela deu à luz Salomeia; depois Sobe casou-se, também em Belém, e deu à luz Isabel, mãe de João Batista; a terceira, como já dissemos, a mãe da Santíssima Mãe de Deus, foi dada em casamento a Joaquim na terra da Galileia, na cidade de Nazaré” (São Dmitry de Rostov. Vidas dos Santos e Justos Joaquim e Ana, 9 de setembro).

A lei não proibia casamentos entre membros de tribos diferentes. Assim, o rei Saul, da tribo de Benjamim, deu sua filha Mical em casamento a David (1 Reis 18:27), que pertencia à tribo do patriarca Judá. Havia uma limitação para uma noiva herdeira devido à ausência de irmãos. Não era permitido que terras fossem transferidas de uma tribo para outra: “Esta é a ordem que o Senhor estabeleceu para as filhas de Salpaade, dizendo: ‘Que se casem com quem quiserem, contanto que se casem com homens da tribo de seu pai.’ Assim, a herança dos filhos de Israel não passará de tribo para tribo, pois os filhos de Israel permanecerão firmemente, cada um na herança da tribo de sua família” (Números 36:6-7).

Os magos Gaspar, Melquior e Baltazar são santos canonizados? Agradeço antecipadamente. —Denis

Na Igreja Ortodoxa, nunca houve uma canonização específica dos magos que trouxeram presentes ao Menino Jesus, embora sua piedade e amor pelo Deus-Menino inspirem o mais alto respeito. No Menalogian de Basílio II (976–1025), no dia da festa da Natividade de Cristo, esse evento é comemorado: a veneração dos Magos. Para os cristãos ocidentais, o evento central da festa da Teofania [ou Epifania] (6 de janeiro, segundo o calendário gregoriano) é a lembrança da aparição da estrela aos magos orientais, ou reis (segundo a crença europeia, eram reis), no momento do nascimento de Jesus Cristo. Portanto, a festa da Teofania também é chamada de Festum magorum (festa dos magos) ou Festum regum (festa dos reis). O dia do Batismo do Senhor (Baptisma Christi) é celebrado no primeiro domingo após a festa da Epifania e encerra o ciclo natalino. Os nomes dos Reis Magos (Gaspar, Melquior e Baltazar) são encontrados pela primeira vez na obra do Venerável Beda (672 ou 673 – 27 de maio de 735).

Só temos conhecimento confiável dos magos que vieram adorar o Menino Deus através dos Santos Evangelhos: “E, entrando na casa, viram o Menino com Maria, Sua mãe, e, prostrando-se, O adoraram; e, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe dádivas: ouro, incenso e mirra” (Mt 2:11). Eles vieram do Oriente (2:1). O termo grego “magoi” refere-se aos sacerdotes, sábios e astrólogos persas ou babilônicos. É impossível afirmar com exatidão de qual país vieram os magos; muito provavelmente, da Pérsia ou da Babilônia. As expectativas messiânicas eram conhecidas nesses países graças ao profeta Daniel, cujo livro era bem conhecido tanto pelos persas quanto pelos caldeus.

Gradualmente, formou-se uma vasta tradição literária em torno do tema dos Reis Magos. Uma dificuldade insuperável se apresenta aos estudiosos: separar os elementos históricos dessa tradição dos lendários. Segundo a tradição, eles se converteram ao Cristianismo. Foram batizados pelo apóstolo Tomé, que pregou na Pártia e na Índia. Tornaram-se pregadores dos Evangelhos. Na tradição ocidental, há até mesmo menção de que foram consagrados bispos pelo apóstolo Tomé. Diz-se também que suas relíquias foram descobertas pela santa imperatriz Helena e depositadas em Constantinopla. Mais tarde, sob o bispo de Milão, Eustórgio, no século V, foram trasladadas para Milão. Atualmente, um relicário de ouro contendo suas relíquias encontra-se na Catedral de Köln.

Os presentes que os Reis Magos trouxeram ao Menino Jesus foram cuidadosamente preservados pela Mãe de Deus. Antes de Sua Dormição, Ela os entregou à Igreja de Jerusalém, onde permaneceram até o ano 400. Mais tarde, o imperador bizantino Arcádio os transladou para Constantinopla e os depositou na Basílica de Santa Sofia. Em 1453, Constantinopla caiu. Em 1470, Maria (Maro), filha do governante sérvio Jorge Brankovich e viúva do sultão turco Murat (Murada) II (1404-1451), doou os presentes dos Reis Magos ao Monastério de São Paulo, que permaneceu sob domínio sérvio até 1744. Apesar de ser esposa de um sultão, ela não se converteu ao Islã e permaneceu cristã até o fim da vida. No local onde Maria se ajoelhou, foi colocada uma cruz, chamada Cruz da Rainha. Na capela ao lado, encontra-se uma representação da reunião dos monges em torno dessa grande relíquia. Conta-se que a piedosa Maria quis levar os Presentes dos Reis Magos para o monastério, mas foi impedida por uma voz celestial junto aos seus muros, tal como acontecera com a Imperatriz Placídia em Vatopaidi, que a lembrou de que a regra athonita proibia a entrada de mulheres no monastério.

Os presentes dos Reis Magos são reverentemente preservados no monastério em pequenos relicários: vinte e oito pequenas caixinhas retangulares de ouro, um tetrágono e um polígono, decorados com elegantes ornamentos em filigrana. Este é o ouro que os Reis Magos trouxeram ao Menino Jesus, como se fosse para o Rei. Além disso, há cerca de setenta pequenas bolas de incenso e mirra, do tamanho de azeitonas. Essas relíquias são muito perfumadas. Pessoas possessas por demônios foram curadas por elas.

Quando, na história, surgiu o uso de “a.C.” (antes de Cristo) e “d.C.” (Anno Domini)? — Irina Solovieva.

A contagem dos anos a partir do Nascimento de Cristo foi introduzida em 525 pelo abade de um monastério em Roma, Dionísio, o Exíguo. Antes disso, no Império Romano e nos primeiros séculos cristãos, a contagem dos anos começava em 29 de agosto de 284 d.C. — no início do reinado do Imperador Diocleciano (por volta de 243–313 d.C.). Os romanos chamavam esse período de “era de Diocleciano”. Com a vitória do Cristianismo, essa época passou a ser chamada de era dos mártires, visto que Diocleciano era um cruel perseguidor dos cristãos.

Em 531, chegou ao fim a pascalia de 95 anos compilada pelo Arcebispo Cirilo de Alexandria (376-444). Ela abrangia o período de 153 a 247 da era de Diocleciano (437-531 d.C.). A pedido do Papa João I, Dionísio, o Exíguo, deveria compilar a próxima pascalia de 95 anos. Em 525 (241 da era de Diocleciano), ele apresentou seus cálculos. Dionísio tomou o ano de 532 (248 da era de Diocleciano) como o início da nova pascalia de 95 anos. Diante disso, ele propôs que abandonassem a era de Diocleciano e começassem a contar os anos “a partir da encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo” (ab incaratione Domini nostri Jesu Christi). Segundo seus cálculos, o Nascimento do Salvador do mundo corresponderia ao ano de 754, a partir da fundação de Roma. A Igreja adotou a nova contagem de anos durante o reinado do Imperador Carlos Magno (742–814).

Dionísio Exíguo era de nacionalidade cita. Monge erudito, conhecia bem as Sagradas Escrituras e era versado em latim e grego. Compilou uma coleção de direito canônico, que a Igreja Ocidental utilizou por muito tempo.

Podemos rezar pelos falecidos durante o período do Natal e da Epifania? —Valery Ustimov

Durante esse período, as orações pelos falecidos não são proferidas nos Serviços Divinos. Mesmo assim, as orações pelos falecidos são feitas durante a Divina Liturgia na Proskomedia e em casa. Santo Atanásio (Sakharov) comenta sobre o Typikon: “A Ante-festa e a Pós-festa da Natividade de Cristo e da Epifania diferem das ante-festas e pós-festas das outras doze grandes festas, pois o Octoechos não é cantado… A natureza particular dessas ante-festas e pós-festas não poderia deixar de influenciar a regra das comemorações durante esses dias. O cânone 169 do Nomocanon no Grande Livro das Necessidades observa que durante os “doze dias… não há comemorações, assim como nos domingos e nos dias de grandes festas.” Como a estrutura e o caráter dos serviços religiosos de 20 a 24 de dezembro (aqui e adiante nos referimos ao calendário juliano) correspondem totalmente à estrutura e ao caráter dos serviços religiosos de 2 a 5 de janeiro, que fazem parte dos doze dias, e a estrutura e o caráter dos serviços religiosos de 7 a 14 de janeiro correspondem totalmente aos de 26 a 31 de dezembro, então fica claro que de 20 de dezembro a 15 de janeiro todas as orações pelos falecidos são omitidas, incluindo as litias comuns, embora as Vésperas e Matinas terminem como serviços simples” (Comemoração dos falecidos de acordo com o Typikon da Igreja Ortodoxa, Capítulo 2).


fonte: https://orthochristian.com/50888.html
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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