QUANDO SANTOS E RELÍQUIAS ENTRARAM NO CRISTIANISMO?

A veneração de santos e relíquias não surgiu de uma decisão doutrinária tomada de uma vez. Ela nasceu de forma lenta, misturando memórias bíblicas, a experiência concreta dos primeiros cristãos com seus mártires e o ambiente cultural do mundo greco-romano. Entender esse processo ajuda a perceber como a devoção, que mais tarde se tornou parte da vida da Igreja, começou como um movimento espontâneo da fé.

A Escritura não descreve uma coleta organizada de relíquias. Mesmo assim, há episódios que mostram objetos ou restos materiais servindo como instrumentos da graça divina.

• No Antigo Testamento, a cena dos ossos do profeta Eliseu (2 Reis 13:20-21), que devolvem a vida a um morto, revela a ideia de que Deus pode agir por meio do corpo de um santo, mesmo depois da morte.

• No Novo Testamento, os lenços e aventais de Paulo (Atos 19:11-12) levam cura a distância. Não há culto ao objeto, mas o reconhecimento de que Deus age através de instrumentos ligados ao apóstolo.

Esses relatos não formam uma doutrina sobre relíquias, mas abriram espaço para que os cristãos vissem a matéria como portadora da ação divina.

A transformação ocorre com o martírio. Os cristãos dos séculos I e II viviam em meio a perseguições e encontravam nos mártires um modelo de fidelidade. O Martírio de Policarpo (c. 150 d.C.) é o testemunho mais claro: seus fiéis recolheram os ossos do bispo como “mais preciosos que ouro” e se reuniam anualmente para celebrar sua entrada no Reino, ou seja, seu nascimento para o Paraíso.

Isso foi novo. Para judeus e greco-romanos, cadáveres traziam impureza. Para os cristãos, o corpo do mártir era sinal de vitória, não de contaminação. A relíquia era, antes de tudo, memória, testemunho e meio de comunicação da graça de Deus.

O mundo em que a Igreja nasceu já tinha práticas de honra aos mortos ilustres. Túmulos de heróis como Aquiles e Hércules recebiam oferendas. Os mortos eram chamados de “bem-aventurados” e considerados protetores de suas comunidades. Muitos viam neles intercessores, quase como pequenos guardiões espirituais.

Quando os cristãos começaram a honrar seus mártires, o paralelo era inevitável. Isso gerou tanto aproximações quanto críticas. Autores pagãos como Juliano e Eunápio zombavam das procissões cristãs que carregavam ossos pela cidade, vendo aquilo como superstição e poluição. Ao mesmo tempo, dentro da própria comunidade cristã, havia quem temesse exageros parecidos com os ritos pagãos. A Igreja caminhou com cautela, procurando distinguir veneração cristã de culto idólatra.

A veneração dos santos e suas relíquias se consolidou ao longo dos séculos III e IV, quando a perseguição diminuiu e as igrejas foram construídas sobre túmulos os de mártires, sobre os quais as Liturgias já eram celebradas. A prática cresceu de modo orgânico, moldada pela memória dos sofrimentos, pelo desejo de proximidade espiritual e pela fé na ressurreição dos corpos.

O centro sempre foi Cristo. Os santos eram celebrados não como deuses menores, mas como testemunhas da vitória de Cristo na carne humana. Suas relíquias, quando veneradas, eram sinais dessa mesma esperança.

Assim, a veneração de santos e relíquias surgiu da vida concreta da Igreja e das circunstâncias culturais do seu tempo. Não nasceu pronta, mas se formou aos poucos, iluminada por episódios bíblicos, pelo amor aos mártires e por elementos do ambiente em que o cristianismo cresceu. Na tradição cristã, o olhar para os santos nunca substitui o olhar para Deus, mas aponta para Ele.

05.12.2025
+ Bispo Theodore El Ghandour

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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