SOBRE O SIGNIFICADO, A PREPARAÇÃO E OS ERROS DA SEMANA SANTA

A Semana Santa é o tempo mais precioso do ano litúrgico. Para os fiéis, a Semana Santa se destaca acima de todos os outros dias da Quaresma, porque durante esses dias deixamos de ser meros espectadores de eventos distantes do Evangelho. Seguimos Cristo — desde Sua entrada triunfal em Jerusalém até Seu último suspiro no Gólgota e Seu sepultamento. Este é o tempo em que o Senhor passa tão perto que somente aqueles que fecharam os olhos poderiam deixar de notá-Lo.

Mas como podemos aproveitar ao máximo esses dias, sem trocar o essencial pelo supérfluo? E quais armadilhas nos aguardam pelo caminho? Vamos tentar descobrir.

O QUÊ A SEMANA SANTA NOS ENSINA

Cada dia desta semana tem seu próprio nome: Segunda-feira Santa, Terça-feira Santa, Quarta-feira Santa, Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa e Sábado Santo. A Igreja nos conduz pela mão, mostrando-nos as últimas horas da vida terrena do Salvador. Ouvimos parábolas, as repreensões dos fariseus, a conversa de despedida de Cristo com os discípulos, vemos Sua oração no Jardim do Getsêmani, ouvimos os tapas do Sumo Sacerdote, os gritos da multidão de “Crucifica-O!” e o martelar dos pregos em Seu Corpo Puríssimo.

Nada disso é uma reconstituição histórica. É uma lembrança do preço da nossa salvação. O Senhor aceita voluntariamente o tormento da Cruz para vencer a morte com a própria morte. E, ao nos aproximarmos da Cruz nestes dias, devemos nos perguntar: Como posso responder a esse amor? Como posso viver de acordo com aquilo que foi comprado a um preço tão alto?

A Semana Santa nos ensina duas coisas. A primeira diz respeito à terrível realidade do pecado, que não é apenas uma “fraqueza”, mas um poder capaz de matar a Deus. A segunda diz respeito ao amor imensurável do Criador, que enfrenta essa morte por amor à Sua criação.

COMO SE PREPARAR PARA A SEMANA SANTA

A preparação começa muito antes. Toda a Grande Quaresma é uma jornada que culmina nesses dias. Mas se você já percebeu a necessidade de vivenciar plenamente a Semana Santa, aqui vão algumas dicas simples, porém importantes.

Primeiro, tente ir à igreja. Os serviços da Semana Santa são únicos. As Matinas da Sexta-feira Santa com a leitura dos Doze Evangelhos, a remoção do Epitáfios/Sudário, o rito fúnebre — tudo isso representa verdadeiramente nossa participação nesses eventos. Mesmo que você trabalhe, encontre uma maneira de participar pelo menos dos serviços principais. Uma hora passada diante do Epitáfios/Sudário pode ser mais enriquecedora para a alma do que semanas recitando orações em vão em casa.

Em segundo lugar, intensifique o seu jejum. Durante a Semana Santa, o jejum torna-se especialmente rigoroso. Tradicionalmente, pratica-se a alimentação seca nos três primeiros dias e, na Sexta-feira Santa, observa-se a abstinência completa até a remoção do Epitáfios/Sudário ou mesmo até a noite de Páscoa. Mas é importante lembrar: o jejum não é uma dieta, mas um meio de se libertar daquilo que interfere na sua concentração no que é mais importante. Se, por motivos de saúde, não puder observar um jejum rigoroso, consulte o seu Pai Espiritual. É muito mais importante abster-se de conversas banais, irritações e julgamentos.

Em terceiro lugar, organize a sua vida de forma que não interfira com a oração. A Semana Santa é um período em que até mesmo as tarefas domésticas essenciais devem ser reduzidas ao mínimo. Um erro comum é tentar conciliar a participação ativa em serviços religiosos com a faxina de primavera, uma maratona culinária e compras de supermercado. O ideal é que tudo o que for possível seja feito antes da Semana Santa, dedicando-se então à oração durante esses dias. Se isso não for possível, divida o trabalho e não assuma responsabilidades em excesso.

ERROS COMUNS

A experiência me ensina que é justamente nesses dias importantes que o inimigo da humanidade tenta confundir as pessoas. Vou listar alguns erros que poderiam ter sido evitados.

Erro número um: formalismo cotidiano. É comum ouvir: “Ah, Semana Santa – só se pode pintar ovos na Quinta-feira Santa” ou “não se pode lavar roupa, limpar ou trabalhar no jardim”. Essas “regras” são pura superstição. O Senhor espera de nós não atos mágicos, mas uma conversão do coração. Sim, existe o costume piedoso de terminar a limpeza até quinta-feira, para que nada o distraia da oração na sexta-feira e no sábado. Mas se você for obrigado a trabalhar nesses dias, não é pecado. O pecado é atribuir leis espirituais a presságios cotidianos.

Erro dois: mudança de foco. Para muitos, a Semana Santa se transforma em uma preparação para a Páscoa, uma “festa da barriga”. O foco principal passa a ser o kulich (pão doce), os ovos e o cardápio da quebra do jejum. As pessoas se esgotam na cozinha, chegam à Liturgia de Páscoa cansadas e, o mais importante, sem terem visitado o Epitáfios/Sudário ou ouvido o Evangelho da Paixão. Acabamos encontrando o Senhor Ressuscitado sem termos visitado a Sua Cruz. Uma Páscoa assim perde a sua profundidade.

Erro três: a atitude errada em relação ao jejum. Alguns vão aos extremos: “Não como nada desde segunda-feira, só bebo água”, e na sexta-feira desmaiam de fraqueza e perdem as celebrações mais importantes. Outros, ao contrário, raciocinam: “O jejum já está quase acabando, então posso relaxar”. Mas a Semana Santa é um tempo não de menos, mas de mais abstinência, uma abstinência sensata. O jejum deve nos ajudar a rezar, não nos esgotar a ponto de exaustão.

Erro número quatro: desânimo e ascetismo sombrio. Às vezes, as pessoas encaram a Semana Santa como um tempo de melancolia e tristeza, esquecendo-se de que ela já é uma tristeza luminosa. Somos crucificados com Cristo, mas sabemos: a Páscoa está próxima. Os temas pascais já ressoam nas celebrações destes dias. O Sábado Santo é um dia de silêncio, mas também de expectativa. Se alguém passou toda a Quaresma irritado e depois cai em um desespero sombrio durante a Semana Santa, significa que não compreendeu o ponto principal: choramos junto ao túmulo, mas sabemos que Ele ressuscitará.

Erro número cinco: desatenção aos outros. Acontece que as pessoas, frequentando zelosamente todas as celebrações e observando o jejum mais rigoroso, tornam-se insuportáveis ​​em casa: descontam nos seus entes queridos, ignorando as suas necessidades. Mas a Semana Santa é o tempo em que o Senhor nos ordenou que nos amássemos uns aos outros como Ele nos amou. Não se pode refugiar na “piedade pessoal”, deixando o marido, a esposa e os filhos sem atenção, ajuda e afeto. Ajudar o próximo, especialmente os necessitados, é tão agradável a Deus nestes tempos quanto estar na igreja.

EM GUISA DE CONCLUSÃO

A Semana Santa é uma dádiva. O Senhor nos dá a oportunidade de passar esses dias não na correria do dia a dia, mas perto d´Ele. Para alguns, este tempo será um ponto de virada em suas vidas; para outros, um fortalecimento da fé; para outros ainda, uma experiência amarga de tempo perdido.

Não tenham medo de errar, mas procurem evitar os erros. Não busquem técnicas espirituais complexas – vão à igreja, orem, jejuem o máximo que puderem, perdoem seus próximos e peçam perdão. E, o mais importante, lembrem-se: tudo o que fazemos durante esses dias não é por “mérito”, mas em resposta ao amor de Cristo, que foi à cruz por cada um de nós.

Quando o Senhor passar, não podemos permanecer indiferentes. Esforcemo-nos para saudá-Lo dignamente – para que, mais tarde, na noite de Páscoa, não ouçamos simplesmente “Cristo ressuscitou!”, mas sintamos que essas palavras são dirigidas pessoalmente a nós, que vivemos esses dias com Ele.


Sacerdote Leonid Bartkov
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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