Há momentos na vida — e também na história — em que tudo parece tremer. Guerras, crises, divisões, insegurança moral, sofrimento humano. Olhamos ao redor e sentimos que o mundo entrou em uma zona de turbulência. Curiosamente, quem já viajou de avião conhece bem essa sensação.
Durante o voo, quando o avião entra em uma área de turbulência, ouvimos a voz do comandante: “Senhoras e senhores, estamos atravessando uma área de turbulência. Pedimos que todos retornem aos seus assentos e apertem os cintos de segurança.”
Ninguém é convidado a correr pelo corredor. Ninguém é incentivado a entrar em pânico. Ninguém assume o controle da cabine. A instrução é simples: permaneça no seu lugar e mantenha-se seguro.
A espiritualidade da Igreja Ortodoxa, ao longo dos séculos, ensina exatamente essa atitude quando o mundo atravessa tempos difíceis. A turbulência não significa que Deus perdeu o controle Nos Evangelhos, o próprio Cristo advertiu que haveria tempos de perturbação: “Ouvireis falar de guerras e rumores de guerras… vede, não vos assusteis.” (Mateus 24:6)
Cristo não disse que tais coisas não aconteceriam. Ele disse: “não vos assusteis.” Os santos Padres sempre lembraram que Deus continua governando o mundo mesmo quando a história parece confusa. São João Crisóstomo ensinava: “Nada acontece sem que Deus o permita para a nossa salvação.”
Isso não significa que Deus deseje o mal. Significa que, mesmo no meio da confusão humana, a Providência divina continua trabalhando. Nos tempos de turbulência, aperte o “cinto espiritual” Se no avião apertamos o cinto de segurança, na vida espiritual precisamos apertar outros “cintos”:
Santo Isaque, o Sírio, dizia: “A oração é refúgio contra a tempestade.” Quando o mundo se agita, a oração nos ancora em Deus. Já São Antônio, o Grande, advertia: “Virá um tempo em que os homens estarão confusos; e quando virem alguém que não está louco, se levantarão contra ele.” Tempos turbulentos exigem lucidez espiritual, não reações impulsivas.
O apóstolo Paulo escreveu: “Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente.” (Hebreus 13:8) O mundo muda. As ideologias mudam. Os impérios caem. Mas Cristo permanece. Não corra pelo “corredor do pânico” Quando a turbulência começa, a pior coisa que alguém pode fazer no avião é levantar-se, correr e espalhar medo. Algo semelhante acontece na sociedade.
Em tempos de crise, muitos espalham desespero, teorias, ódio e divisão. Mas a tradição ortodoxa sempre ensinou outra atitude: a paz interior. São Serafim de Sarov dizia: “Adquire a paz interior, e milhares ao teu redor serão salvos.” A calma de um cristão pode se tornar um farol em meio ao caos.
No avião, há algo que os passageiros muitas vezes esquecem: há um piloto na cabine. Ele vê instrumentos que nós não vemos. Ele conhece a rota. Ele sabe atravessar a tempestade. Na vida espiritual, esse Piloto é o próprio Cristo. No Evangelho, quando os discípulos estavam apavorados com a tempestade no mar, Jesus se levantou e disse: “Silêncio! Cala-te!” (Marcos 4:39) E o vento cessou. A mesma voz continua governando a história.
Nenhuma turbulência dura para sempre. O avião atravessa a área instável e volta ao voo tranquilo. Assim também acontece na história humana. O Reino de Deus continua. Por isso, quando o mundo tremer, lembremo-nos da sabedoria daquele aviso no avião: permaneça no seu lugar, aperte o cinto, confie no piloto. E acima de tudo, mantenha o coração firme em Cristo.
Porque, mesmo quando tudo parece sacudir ao nosso redor, Deus continua conduzindo a história para o seu destino final: a vitória da vida sobre a morte e da luz sobre as trevas.
+ Bispo Theodore El Ghandour







