QUANDO O BURRO PENSA QUE OS APLAUSOS SÃO PARA ELE

Há um perigo espiritual muito antigo que continua presente em todos os tempos: confundir aquilo que carregamos com aquilo que realmente somos. Na vida profissional, na vida social e até na vida religiosa, é fácil cair nessa armadilha. As pessoas nos respeitam, nos escutam, nos aplaudem. E, pouco a pouco, começamos a acreditar que tudo isso é por causa de nós mesmos.

Mas muitas vezes não é. Os Padres da Igreja sempre advertiram sobre essa ilusão. O orgulho nasce justamente quando o homem se apropria de algo que, na verdade, lhe foi confiado apenas para servir. Uma antiga história ajuda a entender isso.

Certa manhã, um burro foi escolhido para carregar uma estátua dourada e brilhante pelas ruas de uma cidade. Por onde passava, as pessoas se curvavam. Algumas ajoelhavam. Outras levantavam as mãos em sinal de respeito. O burro, que nunca havia recebido tanta atenção, começou a se encher de orgulho.

Pensou consigo mesmo: “Então é isso que eu realmente sou. Todo esse tempo eu me subestimei. Até as pessoas mais importantes se curvam quando eu passo.” Embriagado por aquela honra emprestada, começou a caminhar lentamente, erguendo a cabeça com arrogância. Em certo momento, parou no meio da rua apenas para apreciar toda aquela admiração.

Foi então que recebeu um forte golpe nas costas. O tratador gritou: “Saia da frente, seu animal! Eles não estão se curvando para você. Estão se curvando para aquilo que você está carregando.” Essa pequena parábola revela algo muito profundo sobre o coração humano. Quantas vezes fazemos exatamente o mesmo?

Na vida moderna, a “estátua dourada” pode assumir muitas formas: um cargo importante, o nome de uma grande instituição, um título acadêmico, uma posição de liderança, ou até uma missão espiritual dentro da Igreja.

E então começa a confusão. As pessoas respeitam a função… e nós começamos a acreditar que o respeito é pela nossa pessoa. Os Santos Padres falam muito claramente sobre isso. São João Crisóstomo dizia que a honra que recebemos neste mundo frequentemente pertence à função que exercemos, e não à nossa própria virtude.

Quando esquecemos isso, o orgulho começa a crescer silenciosamente. A Igreja, porém, nos oferece uma imagem ainda mais bela e verdadeira: o burro que carregou Cristo na entrada em Jerusalém. Quando o Senhor entrou na cidade, as multidões estendiam mantos pelo caminho, agitavam ramos e proclamavam: “Hosana!”

Mas ninguém pensava em honrar o animal. Toda a glória era para Aquele que estava sobre ele. E o burro, simples criatura, apenas cumpria sua missão: levar Cristo até o povo. Essa imagem é profundamente espiritual.

Cada cristão, de alguma forma, é chamado a ser como aquele animal humilde: carregar Cristo ao mundo. Alguns carregam Cristo através de um cargo. Outros através de uma missão pastoral. Outros através do trabalho, da família, do serviço ou do testemunho silencioso.

Mas a honra nunca pertence ao portador. Pertence sempre Àquele que é carregado. Santo Isaque, o Sírio, dizia que a verdadeira grandeza do homem está em tornar-se um instrumento invisível da graça de Deus. Quanto menos o homem busca ser visto, mais a luz de Deus se manifesta através dele.

Por isso, a pergunta mais importante não é: “Quanto respeito eu recebo?” Mas sim: “O que aconteceria com esse respeito se o título desaparecesse?” Se o cargo acabar,  se o escritório desaparecer,  se o poder for retirado… o que permanecerá?

Ali aparece o verdadeiro valor: caráter, sabedoria, humildade, e capacidade de servir. Essas coisas não dependem de posição alguma. O mundo respeita muitos por causa do cargo. Mas só continua respeitando aqueles cujo valor permanece mesmo depois que o cargo termina.

Na vida espiritual acontece o mesmo. Aquele que carrega Cristo não precisa se preocupar com a própria importância. Basta permanecer humilde no caminho, lembrando sempre: A multidão não se curva para o burro. Ela se curva para o Rei que ele carrega.

E talvez a maior sabedoria da vida seja justamente esta: aprender a caminhar humildemente, levando Cristo ao mundo, sem jamais confundir a glória de Deus com a nossa própria importância.


+ Bispo Theodore El Ghandour

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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