No livro de Ester, encontramos uma das narrativas mais singulares da Bíblia: é o único livro em que o Nome de Deus não aparece. À primeira vista, isso pode causar estranheza. Como um texto sagrado pode omitir o nome do próprio Autor da vida? No entanto, é justamente nesse silêncio que percebemos a força da ação divina. Deus está em cada detalhe, mesmo quando não é mencionado.
A história se passa na Pérsia, durante o reinado de Assuero (Xerxes I). Uma jovem judia chamada Ester, criada por seu primo Mardoqueu, é escolhida para ser rainha após a deposição de Vasti. O rei, sem saber de sua origem, a acolhe em seu palácio. Tudo parece acaso — mas para quem tem fé, o acaso é apenas o disfarce da providência.
Surge então Hamã, um alto oficial do rei, que alimenta ódio por Mardoqueu e decide exterminar todos os judeus do império. Diante dessa ameaça, Mardoqueu pede que Ester interceda junto ao rei, mesmo sabendo que isso poderia lhe custar a vida. A lei proibia entrar na presença real sem ser chamada. Ainda assim, após jejuar e pedir orações, Ester se apresenta diante do rei. Sua coragem e fé mudam o destino de todo um povo. Ela denuncia o plano de Hamã, que acaba punido, e o povo judeu é salvo — fato celebrado até hoje na festa de Purim.
Na perspectiva da fé ortodoxa, o livro de Ester revela verdades profundas:
• A providência divina está sempre presente: Mesmo quando Deus parece ausente, Ele age. Seu Nome não aparece no texto, mas Sua mão conduz cada acontecimento: desde a escolha de Ester até o desfecho da salvação.
• Coragem e fé: Ester é um exemplo de coragem espiritual. Sua obediência e amor ao povo mostram que a fé verdadeira não se refugia no medo, mas enfrenta o perigo confiando em Deus.
• Jejum, oração e discernimento: Antes de agir, Ester jejuou. Ela entendeu que o poder humano é limitado e que toda decisão importante deve nascer da comunhão com Deus.
• Humildade e confiança: Mardoqueu e Ester esperaram o tempo certo, sem desespero nem revolta. A paciência deles revela uma fé madura, que confia no agir de Deus mesmo em meio à injustiça.
• Vocação e propósito: “Quem sabe se não foi para um momento como este que chegaste à realeza?” (Est 4:14). Essa pergunta de Mardoqueu ecoa até hoje. Nenhum lugar, situação ou cargo é acidental. Deus nos coloca onde estamos com um propósito que talvez só se revele quando o silêncio d’Ele for finalmente compreendido.
A história de Ester é um lembrete de que Deus não precisa aparecer para estar presente. Ele trabalha no oculto, nos bastidores da vida, transformando o perigo em salvação e o medo em coragem. Quando o nome de Deus parece ausente, é aí que sua presença se manifesta de forma mais sutil e mais poderosa.
Ser cristão é confiar nesse mistério: mesmo no silêncio, Deus está agindo.
21.10.2025
+ Bispo Theodore El Ghandour








