QUANDO CADA UM SERVE, A IGREJA FLORESCE

A missão da Igreja Ortodoxa no mundo não se mede pelo barulho que ela pode fazer, mas pelos seus frutos. Onde a Igreja está viva, pessoas são curadas, consciências são despertadas e vidas são transformadas pouco a pouco. Isso acontece quando cada um realiza o seu serviço com fidelidade, humildade e amor, sem competição, sem inveja, sem a necessidade de se afirmar às custas do outro.

São Paulo usa a seguinte imagem: a Igreja é um corpo. “O corpo não é um só membro, mas muitos” (1Cor 12,14). Cada membro tem sua função. O olho não pode substituir a mão. O coração não compete com os pulmões. Quando cada parte faz o que lhe cabe, o corpo vive. Quando uma parte tenta ocupar o lugar da outra, o corpo adoece. Na Igreja, o mesmo princípio se aplica. O bispo, o presbítero, o diácono, o monge, a monja, o catequista, o cantor, a mãe de família, o jovem que serve no altar e o fiel que reza participam da mesma obra de Deus. Nenhum é dono da missão. Todos são servidores.

A inveja e a competição são estranhas ao Espírito de Cristo. Elas nascem quando o ministério deixa de ser serviço e passa a ser um palco. Quando buscamos reconhecimento, influência ou poder espiritual, deixamos de anunciar o Reino e começamos a construir pequenos reinos pessoais. São João Crisóstomo advertia que nada fere tanto a Igreja quanto a busca de glória humana dentro dela. O inimigo não precisa persegui-la quando consegue dividi-la pela vaidade.

Na espiritualidade ortodoxa, o verdadeiro pastor não se mede pela visibilidade, mas pela capacidade de gerar vida nos outros. Um pai espiritual não quer dependência, mas maturidade em Cristo. Um bispo não existe para ser o centro, mas para guardar a comunhão. Um monge não se retira do mundo para se tornar superior, mas para carregar o mundo inteiro no coração diante de Deus.

São Basílio o Grande lembrava que o Espírito Santo distribui dons diferentes para um mesmo fim: a edificação de todos. Quando essa verdade é reconhecida, nasce a liberdade no Espírito. Já não precisamos competir, porque não ocupamos o mesmo lugar. Já não precisamos invejar, porque a graça dada ao outro não diminui a que Deus nos concedeu. Já não precisamos nos comparar, porque o único critério é a fidelidade.

Essa lógica do corpo se torna ainda mais visível na comunhão entre os hierarcas canônicos da Igreja. O bispo não é um líder isolado nem um gestor independente. Ele existe dentro de um colégio, dentro de uma sinfonia. Desde os primeiros séculos, a Igreja Ortodoxa foi guiada por bispos que caminham juntos, guardando a mesma fé e servindo o mesmo povo. Essa comunhão se estende também ao vínculo entre os próprios bispos.

São Cipriano de Cartago expressou isso com clareza ao dizer que o episcopado é um só, e cada bispo participa dele em sua plenitude. Ninguém possui a Igreja. Cada bispo a recebe como dom e a guarda em nome de todos. Quando os hierarcas vivem em respeito mútuo, escuta, cooperação e humildade, a Igreja se torna uma presença estável e confiável no mundo. Quando rivalidades, agendas pessoais ou disputas de poder entram em cena, o corpo inteiro sofre, mesmo que exteriormente tudo pareça normal.

Quando os bispos colaboram e reconhecem os dons uns dos outros, algo de especial acontece. As paróquias se sentem seguras. Os presbíteros trabalham com mais serenidade. Os fiéis percebem que não estão presos a projetos humanos, mas inseridos em um corpo unido. A missão se fortalece porque a Igreja fala com uma só voz, mesmo na diversidade de culturas, línguas e histórias.

O mundo de hoje está cansado de disputas, vaidades e lideranças que se promovem. Quando encontra uma Igreja onde as pessoas servem sem competir, amam sem calcular e trabalham sem buscar aplauso, algo diferente acontece. A missão deixa de ser propaganda e se torna testemunho. As palavras ganham peso porque são sustentadas por uma vida em comunhão.

São Siluan do Monte Athos dizia que o sinal mais claro da presença do Espírito Santo é o amor que não inveja. Onde esse amor existe, até o trabalho mais simples se torna fecundo. Uma vela acesa no silêncio pode iluminar mais do que muitos refletores.

A missão da Igreja Ortodoxa no mundo não depende de estratégias grandiosas, mas de corações purificados. Quando cada um faz o seu trabalho da melhor maneira possível, em humildade e gratidão, e quando os hierarcas caminham juntos em verdadeira comunhão, o próprio Cristo age através desse corpo. E onde Cristo age, até a terra mais árida começa a dar fruto.

+ Bispo Theodore El Ghandour

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

19 visualizações

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes