Chega um momento na vida em que as palavras perdem o peso. Promessas bem-intencionadas, conselhos piedosos, frases prontas. Tudo isso pode soar vazio quando a alma está cansada demais para explicar o que sente. Há dores que não pedem explicação, e sim presença.
As Escrituras conhecem bem esse silêncio. Job, sentado sobre as cinzas, não precisava de discursos. Seus amigos começaram bem quando ficaram em silêncio com ele. Erraram quando passaram a falar demais. As Escrituras nos ensinam que há momentos em que o sofrimento pede companhia mais que respostas.
Quando você aprende a sobreviver e a suportar o que parecia impossível, algo muda dentro de você. Surge, em vez de heroísmo, uma espécie de resistência, que permite atravessar os dias sem entender o por quê, mas ainda assim permanecer de pé. O salmista diz: “Ainda que eu atravesse o vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo” (Salmo 22/23). Repare que não há promessa de explicação. Há a presença.
Os Santos Padres da Igreja Ortodoxa falam muito pouco quando tratam da dor profunda. Santo Isaac, o Sírio, ensina que Deus não consola a alma com palavras, mas com a Sua proximidade. Quando o coração está esmagado, Deus não argumenta. Ele Se aproxima. Ele permanece.
Cristo mesmo nos revelou isso. Diante do túmulo de Lázaro, Ele sabia que o ressuscitaria. Mesmo assim, chorou. Não explicou nem discursou, mas chorou com os que choravam. Ali, o Verbo eterno mostrou que a palavra mais forte de Deus nem sempre é dita. Às vezes, ela é vivida.
Na cruz, quando tudo parecia perdido aos olhos humanos, Jesus não ofereceu promessas confortáveis. Ele permaneceu. E no momento mais escuro, a salvação do mundo aconteceu sem explicações ou respostas imediatas. Apenas fidelidade até o fim.
Há fases da vida espiritual em que rezar muito se torna difícil, pensar se torna pesado, falar se torna inútil. É aí que a fé amadurece. Não como entusiasmo, mas como permanência. O cristão aprende a dizer pouco e a ficar mais. Aprende a estar diante de Deus sem exigir nada, sem entender tudo, sem fugir.
A única palavra que realmente sustenta nesses é esta: “Estou aqui”. É a palavra de Deus ao ser humano. “Estou aqui no teu silêncio. Estou aqui na tua exaustão. Estou aqui quando você não aguenta mais.” E também é a palavra que aprendemos a oferecer uns aos outros. Não soluções, não promessas vazias, mas presença amiga.
Na vida da Igreja, isso se traduz em comunhão real. Estar, acompanhar e permanecer, assim como Cristo permanece conosco na Eucaristia, não como ideia, mas com Sua presença real.
Quando tudo falha, quando as palavras acabam, quando sobreviver já é um ato de fé, essa presença basta. Porque onde Deus está, mesmo no silêncio, a vida continua sendo gerada. Isso é, por vezes, tudo o que a alma precisa ouvir.
03.01.2026
+ Bispo Theodore El Ghandour








