Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
O Senhor disse certa vez, ou talvez tenha sido um de Seus apóstolos: “Se vocês se julgarem a si mesmos, não serão julgados”. Se fizéssemos um julgamento honesto sobre quem somos, nos voltássemos para Deus em arrependimento e começássemos a viver uma vida digna do julgamento que fizemos de nós mesmos e do arrependimento que levamos a Deus, certamente encontraríamos o caminho da vida eterna.
Nestas semanas em que nos preparamos para o encontro face a face com a paixão de Cristo, Sua morte na cruz por nós e pela nossa salvação, e Sua ressurreição, é justo que reflitamos repetidamente sobre a nossa própria condição. E a Igreja nos apresenta, semana após semana, imagens que são como espelhos diante dos nossos olhos. Hoje, é a vez da história do Publicano e do Fariseu. E nossa reação imediata é tomar o partido do publicano. Sentir que somos tão diferentes do fariseu e condená-lo. Contudo, o Senhor, em Sua parábola, nos diz que o publicano, de fato, voltou para casa mais perdoado do que o fariseu, mas também que a bênção de Deus acompanhou o fariseu. Mas, de fato, somos tão diferentes um do outro, e essa diferença não nos beneficia. O fariseu compareceu perante Deus, arrogantemente, como diz o texto grego, porque sabia que, de muitas maneiras, estava na luz. Ele vivia de acordo com os mandamentos, era fiel à lei, podia dizer de si mesmo que não apenas não infringia a lei, mas a cumpria à risca. E, no entanto, algo lhe faltava. Ele estava sob a lei, obedecia-a como um escravo obedece às ordens de um senhor ou capataz, mas não se comunicava de coração e mente, com toda a sua vontade, com Aquele Cuja lei é a vida e Cuja plenitude é o amor. Como escravo, ele fazia o que lhe mandavam e fazia da melhor maneira possível.
Ora, quando pensamos nele, podemos dizer algo semelhante sobre nós mesmos? Temos a lei do Antigo Testamento diante de nossos olhos, temos os mandamentos de Cristo, aliás, temos mais do que Seus mandamentos. Temos Seu exemplo e recebemos uma inspiração que podemos derivar da indizível e inspiradora beleza de Sua personalidade, de Suas palavras, de Suas ações. E, no entanto, contamos com Sua misericórdia, contamos com Seu perdão, contamos com o amor de Deus para encobrir o fato de não seguirmos Seus passos. Contudo, não há outra maneira de ser cristão senão sendo um seguidor de Cristo. São Paulo nos fala exatamente nesses termos quando diz: “Sede meus imitadores, como eu sou de Cristo”. E o primeiro pensamento que nos vem à mente é: como ele ousa dizer isso? Como ele pode se colocar como exemplo? Se lermos sua Epístola, veremos que essas palavras são proferidas praticamente logo após sua confissão de que era um inimigo de Cristo, um acusador d´Ele, e que foi somente quando Cristo Se revelou a ele que se tornou um seguidor.
Ele se afastou do passado e dedicou todos os seus dias e toda a sua imensa energia a um discípulo. E é aqui que tudo começa. Somos seguidores de Cristo? Alguma vez nos afastamos de algo definitivamente porque não era a vontade de Cristo, porque desfigurava em nós a imagem de Deus, porque envergonhava a Deus, que deu Seu Filho unigênito para a nossa salvação, e nós rejeitávamos Sua oferta de amor, passando pela Cruz e dizendo, não em palavras, mas em ações, que aquilo era irrelevante para nós? Nunca pedimos que Ele morresse, por que Ele o fez?
Se fôssemos honestos, verdadeiramente sinceros, o que aconteceu na Semana Santa e no Calvário teria mudado nossas vidas. E assim, não podemos sequer reivindicar o que o fariseu podia reivindicar quando, arrogantemente, se colocou diante de Deus e disse: “Sou melhor do que os outros. Vejam como vivo”. Mas, se nos voltarmos para o publicano, também estaremos condenados. Ele estava no limiar do templo. Ele olhou para dentro do templo e viu ali o lugar onde Deus habita, o lugar da presença, um lugar tão sagrado que ele não ousou pôr os pés ali. Ele estava parado no limiar, batendo no peito e dizendo: “Deus, tem misericórdia de mim, pecador! Estou separado de Ti, não ouso entrar na Tua presença, só posso ficar no limiar desta visão de um espaço sagrado”.
Tratamos a Casa de Deus dessa maneira? Sentimos o que o publicano sentiu? Quando olhamos para nós mesmos e uns para os outros, vemos algo dessa veneração, dessa atitude de adoração, desse temor reverente que encontramos no publicano? Entramos na igreja como se não fosse um espaço sagrado, um espaço dedicado a Deus, um espaço que é o Seu lugar: conversamos, nos cumprimentamos, nos reunimos após o culto – quanto barulho, quanto pouco recolhimento, quanto pouco temor reverente há em nós?
Assim, a presença divina Se manifestava somente no momento em que as primeiras palavras de um culto eram proclamadas, enquanto este é o lugar onde Deus habita, um lugar que, em um mundo que se tornou secular e ímpio, no qual Deus não é o governante, o rei e o Senhor, um mundo do qual Ele é excluído, do qual Ele é rejeitado, a Igreja é o lugar de asilo para Ele, é um lugar onde Ele Se sente em casa porque homens e mulheres, há mais de cem anos, crendo n´Ele, abriram caminho em um pequeno espaço em um mundo ímpio e disseram a Ele: “Senhor, isto é Teu, Tu podes habitar aqui, Tu estás seguro e nós viremos a Ti porque esta é a Tua Casa e Te adoraremos e veneraremos, trata este lugar como um lugar sagrado e a Tua presença como a plenitude de nossas vidas”.
Esta foi, de certa forma, a maneira como o publicano se colocou no limiar; nós ousadamente entramos, ousadamente ocupamos o espaço, deixando a Deus, invisivelmente, estar presente em Seu santuário. Que assustador. Quão diferentes somos do pecador que conhecia a grandeza de Deus e reconhecia a sua própria pecaminosidade. Aprendamos com o fariseu a viver de acordo com o nosso chamado, a nossa vocação; aprendamos a ser cristãos em atos, pensamentos e sentimentos, em todo o nosso ser. E aprendamos com o publicano este temor reverencial, esta veneração, esta consciência da nossa pecaminosidade e da grandeza de Deus quando chegamos ao Santo dos Santos, onde o Santo habita, onde reina supremo, onde Ele pode nos dar a vida, mas onde somos julgados pelo que somos e pelo que fazemos.
Reflitamos sobre estas coisas antes de passarmos, na próxima semana, à história, à parábola do Filho Pródigo, e refletirmos novamente sobre o que significa tirar todas as coisas de Deus e dispersá-las, espalhá-las em vão, como fazemos. Mas lembremo-nos também de que a misericórdia de Deus está presente, que não só é terrível cair nas mãos do Deus vivo, mas que essas mãos foram crucificadas, essas mãos estão abertas para nós e nos oferecem a salvação, se tão somente abrirmos nossos corações e nossas vidas e permitirmos que Deus reine supremo em nós, assim como reina supremo em Sua morada.
Amém.
Metropolita Anthony (Bloom) de Sourozh
tradução de monja Rebeca (Pereira)








