HOMILIA PARA O DOMINGO DO FILHO PRÓDIGO
Pai, pequei contra o Céu e diante de Ti (Lc 15:18).
Amados irmãos, quem dentre nós não pecou e não peca diariamente, voluntária ou involuntariamente, consciente ou inconscientemente, sabendo ou não? Quem não irritou o Senhor, que é a Verdade e o Amor infinitos? Quem não foi ferido pela lâmina do pecado e não experimentou a dor e a aspereza do pecado, a profunda confusão da consciência, a tristeza e a constrangimento — esses companheiros habituais do pecado? Todos nós, jovens e idosos, somos pecadores diante de Deus e, portanto, sujeitos à punição e à separação de Deus; e se o Senhor, em Seu infinito amor e misericórdia pelo homem caído, não lhe tivesse dado o arrependimento e a remissão dos pecados por causa do sacrifício de Seu Filho Unigênito na Cruz, então todos os homens desceriam ao inferno, ao lugar de tormento eterno.
Mas, glória ao Deus todo-bondoso e todo-sábio que concedeu o arrependimento aos pecadores — para a vida eterna. Incontáveis pecadores foram lavados com lágrimas de arrependimento, justificados e santificados pelo puríssimo Sangue do Cordeiro de Deus Jesus Cristo, que tomou sobre Si os nossos pecados e sofreu todos os castigos que nos foram reservados por causa deles, e agora se regozijam com os anjos nas moradas dos santos. Todos vocês que estão aqui, pecadores como eu — valorizam este dom inestimável do Senhor, o dom do arrependimento? Suspiram como o publicano, choram como a meretriz, regam o leito com lágrimas como o patriarca David, retornam ao Pai Celestial com sincero e profundo arrependimento como o filho pródigo, de quem vocês ouviram falar na leitura do Evangelho de hoje?
Não há outro caminho para os pecadores viverem e recuperarem a graça e a misericórdia do Pai Celestial senão o do arrependimento sincero e verdadeiro, com os frutos do arrependimento. E a santa Igreja, portadora e intérprete do Espírito Santo e de Seu infinito amor e misericórdia, nos desperta a todos ao arrependimento todos os dias. E nestes dias, à medida que se aproximam os grandes dias de jejum e arrependimento, ela nos desperta especialmente neste domingo com a leitura da comovente parábola do Salvador sobre o filho pródigo e o canto de hinos penitenciais inspiradores.
Como bons filhos, respondamos todos à voz amorosa de nossa santa mãe — a Igreja; despertemos do sono do pecado, caminhemos honestamente, como em pleno dia (Rm 13,13); abandonemos os prazeres da carne; cuidemos da alma imortal; comecemos a fazer as obras de Deus, e então desfrutaremos da paz de espírito e do conforto de uma consciência limpa. Oh, quão misericordioso e pronto a ouvir é o nosso Pai, Senhor e Juiz — Deus! Ele prontamente Se apressa, com rica misericórdia, em socorrer todo pecador sinceramente arrependido, livrando-o das tribulações, tristezas e infortúnios que lhe sobrevêm por causa de seus pecados, concedendo paz e plenitude ao seu coração e transformando sua tristeza em alegria. Todo pecador verdadeiramente arrependido já experimentou isso por si mesmo.
Isso também é demonstrado pelo Evangelho que lemos hoje sobre o Filho Pródigo arrependido.
Assim que ele resolveu firmemente voltar e foi para a casa de seu pai com arrependimento, seu pai o viu e, movido de compaixão, correu ao seu encontro, lançou-se ao seu pescoço e o beijou. Seu filho disse: “Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho”. Mas o pai disse aos seus servos: “Tragam depressa a melhor roupa e vistam-no; ponham um anel em seu dedo e sandálias em seus pés. Tragam também o novilho cevado e matem-no; vamos comer e festejar, porque este meu filho estava morto e reviveu; estava perdido e foi achado”. E começaram a festejar (Lc 15,21-24). Uma imagem comovente de amor paterno, por um lado, e de sincero arrependimento, por outro. Esta é uma parábola que apresenta um pai, um homem bom e misericordioso, e um filho libertino, porém arrependido.
Mas vamos mergulhar no profundo significado desta parábola. Em vez de um pai comum, imagine Deus, o Pai da humanidade, e Seu amor infinito por um mundo perdido no pecado. Que tipo de mesa Ele preparou para os pecadores que adotou pela fé e pelo Batismo? Ele não sacrificou um bezerro, mas deu Seu Filho Unigênito como sacrifício voluntário; Ele não preparou a carne de um bezerro para um banquete, mas deu a Carne e o Sangue de Seu Filho, e nos dá como alimento e bebida, para a remissão dos pecados para a vida eterna. Que banquete espiritual, vivificante, salvífico e maravilhoso de fé e salvação! Que amor paterno e imensurável por nós, pecadores! Você sente esse amor, ó pecador? Você responde a esse amor com amor? Você se arrepende sinceramente de suas iniquidades para que possa se tornar digno de tal banquete espiritual para a sua salvação e desfrutar do amor do Pai Celestial, de Seu Filho Unigênito e do Consolador, o Espírito Santo? Sem arrependimento, não haverá sacramento para a salvação.
E quais são a melhor túnica, o anel e os sapatos? A túnica com que o pai vestiu seu filho pródigo refere-se à túnica da justiça com a qual Jesus Cristo nos veste, ou é o próprio Cristo, como está escrito: “Pois todos vós que foram batizados em Cristo vos revestistes de Cristo” (Gálatas 3:27). Significa que devemos viver em toda a verdade e justiça. O que é o anel colocado em seu dedo? Este é o noivado com o Espírito Santo, dado aos corações dos que creem. “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Coríntios 3:16). E é apropriado que o templo de Deus seja santificado em todos os momentos: Vivamos vidas santas. Os sapatos em seus pés são a graça de caminhar diretamente pelo caminho dos mandamentos de Cristo: “Ordena os meus passos”, está escrito, “segundo a Tua palavra; e não permitas que a iniquidade me domine” (Salmo 118:133), pois sem esses sapatos de graça, não podemos andar nas veredas retas dos mandamentos de Deus. “Convertei-vos, pois, cada um do seu mau caminho e da maldade das vossas obras” (Jeremias 18:1; 25:5), diz a palavra de Deus. E assim, calçados com a graça espiritual, com zelo espiritual, apressemo-nos a Deus, afastando o sono do pecado, da preguiça e da negligência.
A Grande Quaresma está chegando — um tempo de oração e jejum, confissão de pecados e comunhão dos santos Mistérios que dão vida. Purifiquemos nossas almas e corpos através do jejum, da oração e do arrependimento sincero, e preparemo-nos para sermos o templo do Senhor, que deseja fazer de nós Sua morada e viver em nós. Observem como aqueles que desejam encontrar o rei ou algum homem de alta posição preparam tudo para esse encontro. Eles nivelam e limpam todas as estradas por onde ele irá passar, decoram as casas com estandartes e luzes coloridas e fazem tudo o que podem para demonstrar sua diligência e alegria. Todos tentam vê-lo, e se alguém tiver a sorte de receber o rei em sua casa, ficará extremamente feliz. Se aqueles que desejam encontrar um rei terreno, um homem como eles, se preparam, o saúdam e o recebem dessa maneira, com que cuidado e diligência devemos nos preparar para receber o Rei Celestial, Criador e Deus?
Pois, por ser infinitamente superior ao rei terreno, infinitamente mais justo, tanto maior e mais completa deve ser nossa preparação, e tão diferente da preparação que faríamos para encontrar um rei terreno. O Rei Celestial precisa de nossas almas e corpos puros e adornados com virtudes, e não de casas magnificamente decoradas, nem de estandartes coloridos, mas de uma variedade de virtudes de acordo com a capacidade e a condição de cada um; não de luzes brilhantes, mas de nossas almas ardendo em fé e amor. Preparemos uma recepção tão calorosa para o Rei Celestial, que sejamos dignos de recebê-Lo com alegria em nossos lares espirituais, em nossos corações.
Amém.
São João de Krosntadt
tradução de monja Rebeca (Pereira)








