POR TRÁS DO SOFRIMENTO SE ESCONDE O AMOR DE DEUS

SEMANA DA VENERAÇÃO DA CRUZ

Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!

Saúdo a todos pela festa do Domingo da Veneração da Cruz. Hoje, a Igreja, no coração da Grande Quaresma, quando já estamos exaustos do jejum, oferece-nos um remédio maravilhoso: a veneração da Cruz de Cristo Salvador crucificado. É uma obra maravilhosa da Igreja que demonstra a sua verdadeira sabedoria espiritual. O que é a Cruz do Senhor?

Qual é o sinal do Senhor crucificado que está diante de nós e ao qual hoje prestaremos honra com a nossa mente, os nossos lábios e os nossos corações? É um sinal de um amor divino inconcebível! Se observarmos atentamente o Crucifixo, veremos o sinal da morte terrível e excruciante: pregos quadrados perfuram Suas mãos e pés, Seu sangue jorra, Ele sufoca com edema pulmonar, permanece pendurado em desgraça enquanto Seus inimigos caminham ao Seu redor, zombando d´Ele e dizendo: “Se és o rei dos judeus, salva-Te a Ti Mesmo!” (Lc 23:37) e “Desce da cruz!” (Mc 15:30).

Mas se penetrarmos nas profundezas da Cruz do Senhor com os olhos da nossa mente, veremos que não foi a ira e o ódio dos judeus, nem a ira bestial do primeiro anjo, Lúcifer, nem a vilania e a avareza de Judas que elevaram o Senhor à Cruz. Não podemos dizer que seja uma tragédia que Jesus Cristo tenha morrido na Cruz. Por trás desse espetáculo temível e terrível, reside o amor divino inspirador.

Como diz o santo apóstolo Pedro: “Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula, o qual, na verdade, foi preordenado antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós, os quais, por meio dele, credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus” (1 Pedro 1:19-21).

Cristo foi ordenado para este sacrifício desde antes da criação do mundo. Quando Cristo formou o homem do pó da terra, Ele já sabia como as mãos criadas do homem O pregariam na cruz. Quando Ele soprou uma alma pela boca do homem, Ele já sabia que essa boca O cuspiria. Ele também sabia que de Seu sofrimento, da madeira da Cruz, nasceria uma nova geração de pessoas, um novo tipo de seres viventes — os cristãos, filhos de Deus Pai, para os quais Ele seria o progenitor. Ele também sabia que o Espírito de Deus, por meio da Sua Cruz, transfiguraria os homens, e eles se tornariam deuses pela graça.

Portanto, o Seu sofrimento é aquele sofrimento que Ele recebe de bom grado e diz: “O Meu coração está pronto, ó Deus, o Meu coração está pronto” (Salmo 56:8).

Sua paixão é a paixão de Deus, que sabe para onde se dirige. É a morte, para tornar o homem imortal. E como disse São Filareto de Moscou: “Se você for penetrado pelo profundo mistério da Cruz, então não verá nada ali senão o amor de Deus Pai crucificando Seu Filho, o amor de Deus Filho morrendo na Cruz e o amor do Espírito Santo exultando no sacrifício da Cruz”. Este amor divino, oculto por trás de todos esses horrores da Crucificação, evoca em nós temor reverencial e nos ajuda a lidar corretamente com nossos próprios sofrimentos.

As coisas podem ser ruins e horríveis, às vezes somos traídos e tratados injustamente. Mas se unirmos nossos sofrimentos aos sofrimentos do Senhor, se dissermos: “Em Nome do Senhor crucificado, suportarei este sofrimento”, como exclamaram os mártires que suportaram sofrimento e morte por amor a Cristo, então veremos que o amor divino também está oculto por trás desses sofrimentos. Muitos perguntam durante o sofrimento: “Por quê?”. Mas essa pergunta está errada. Deveria ser: “Deus, por que me deste isto? Com ​​que propósito?”

Por trás dos sofrimentos de um cristão, esconde-se o amor de Deus, que diz: “Isto vem de Mim” (3 Reis 12:24). São Serafim de Vyritsa escreveu que todas as tristezas, dificuldades e sofrimentos que nos acontecem vêm do Senhor, para que nos desapeguemos das coisas terrenas que levam à corrupção e à morte. Deus nos desapega para nos preencher com o Seu amor e a Sua vida, para que não nos alimentemos da vida mortal que causa a morte.

Nossa vida é verdadeiramente permeada pela morte, mas o Senhor transforma essa morte em instrumento de ressurreição e nosso sofrimento em manifestação de Sua glória em nossas vidas (se O ajudarmos nisso). Portanto, hoje a Igreja traz a Cruz diante de nossos olhos para veneração, para que, tendo-a visto, possamos unir nossas dores, nossos sofrimentos causados ​​pela doença, nossa infelicidade, aos sofrimentos do Deus-Homem, tornando-nos assim participantes de Sua glória e de Sua Ressurreição. Na mística noite pascal, cantaremos estas palavras: “Ontem fui sepultado con´Tigo, ó Cristo; hoje ressuscito com a Tua ressurreição. Ontem fui crucificado con´Tigo; glorifica-me con´Tigo, ó Salvador, em Teu Reino!” Quem não morreu com Cristo não ressuscitará com Ele. Quem não sofreu com Cristo, não suportou esta dor como dor com Cristo, jamais poderá sentir a alegria divina de Cristo.

É com razão que Santo Efrém afirma que no Paraíso não há ninguém que não tenha sido crucificado. Todos ali sofreram, todos perseveraram, não por suas próprias forças, mas com Cristo, em Cristo e por Cristo.

Então, essa dor nos refinará, purificará e iluminará, e seremos pessoas penetradas e santificadas pela árvore da Cruz, que permanecerá para sempre em nossos corações. Então, seremos verdadeiramente capazes de ver o mistério do novo túmulo que faz brotar vida para nós. Que a Cruz do Senhor floresça em nossos corações e dê seus frutos aos nossos corações aflitos. Que a Cruz do Senhor nos ensine a ver que tudo vem de Deus, e não de inimigos, maçons, judeus ou do diabo. Todo ser maligno que nos ataca é apenas um instrumento nas mãos do Pai Celestial, que nos sintoniza com a vida imperecível além dos limites do tempo, acessível somente àqueles que se purificaram de todas as impurezas pelo poder da venerável Cruz.

Que o Senhor te salve.

Neo-Mártir Daniel Sysoev
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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