Se o poder salvador do ensinamento dependesse do nosso conhecimento e da nossa concordância com ele, então faria sentido que as pessoas tivessem a ideia de reconstruir o Cristianismo de acordo com as fraquezas humanas ou as exigências da época e adaptá-lo aos desejos pecaminosos de seus corações. Mas o poder salvador da lei cristã não depende de nós, mas da vontade de Deus, decorrente do fato de que o próprio Deus estabeleceu precisamente o caminho exato para a salvação. Além deste, não há outro caminho, nem poderia haver outro. Consequentemente, se as pessoas ensinam de qualquer maneira diferente, isso significa que se desviaram do verdadeiro caminho e estão destruindo a si mesmas e a você. O que há de sensato nisso?
Observe como o julgamento foi severo quando algo semelhante aconteceu ao povo de Israel durante os difíceis anos de cativeiro. Por compaixão pelos doentes e sofredores, alguns profetas falaram ao povo não como o Senhor ordenara, mas segundo o que seus corações lhes diziam. E a respeito desses, o Senhor deu as seguintes instruções a Ezequiel: “Quanto a você, filho do homem, volte o seu rosto contra as filhas do seu povo que profetizam por conta própria e profetize contra elas. Diga: ‘Assim diz o Senhor: Ai das mulheres que costuram almofadas para o cotovelo de todos os braços e fazem véus para todas as cabeças, de todas as idades, para enganar as almas! As almas do meu povo foram enganadas e foram cativadas’” (Ezequiel 13:17-18).
Isso significa: Ai daqueles que ordenam todo tipo de tratamento especial e sugerem tal comportamento que ninguém sente o menor desagrado, nem de cima nem de baixo, indiferente se isso seria para a sua salvação ou destruição, agradável ou repugnante a Deus. Ai deles, porque ‘assim diz o Senhor… seus travesseiros e cobertores (isto é, seu ensinamento melodioso e reconfortante), pelos quais vocês conspiram contra as almas’, eu os arrancarei de seus braços e libertarei essas almas desviadas desse seu ensinamento, e destruirei vocês que as corromperam (Ezequiel 13:20-21).
É para isso que serve esse tratamento especial e essa leniência, que vocês querem ouvir dos pregadores! Quando vocês internalizam tudo isso, não é correto quererem que façamos qualquer tipo de concessão em relação à doutrina cristã, só porque vocês, equivocadamente, querem que os agrademos. Na verdade, pelo contrário, vocês deveriam exigir persistentemente que nos mantivéssemos fiéis à doutrina, da forma mais estrita e firme possível.
Já ouviram falar das indulgências do Papa de Roma? São elas: tratamento especial e clemência, concedidos por ele, ignorando a lei de Cristo. E qual o resultado? Com tudo isso, o Ocidente, com suas indulgências, corrompeu-se na fé e no modo de vida, e agora está perdido em sua infidelidade e estilo de vida desenfreado.
O Papa mudou muitas doutrinas, corrompeu todos os Sacramentos, invalidou todos os cânones referentes à ordem da Igreja e à correção da moral. A partir daí, tudo começou a ir contra a vontade do Senhor e foi de mal a pior.
Depois, surgiu Lutero, um homem inteligente, mas obstinado. Ele disse: “O Papa mudou tudo como quis, por que eu não faria o mesmo?”. Então, começou a modificar e remodelar tudo à sua maneira, e assim estabeleceu a nova fé luterana, que quase nada se assemelha ao que o Senhor ordenou e ao que os santos Apóstolos nos transmitiram.
Depois de Lutero, surgiram os filósofos. E estes, por sua vez, disseram: “Lutero estabeleceu para si uma nova fé, ostensivamente baseada no Evangelho, mas, na realidade, baseada em sua linha de pensamento. Então, por que não criamos doutrinas baseadas apenas em nossa maneira de pensar, ignorando completamente o Evangelho?”. Começaram então a pensar racionalmente e a fazer suposições sobre Deus, sobre o mundo, sobre o homem, cada um à sua maneira, e misturaram tantas outras doutrinas que enumerá-las já seria suficiente para causar vertigem.
Agora, os ocidentais têm a seguinte visão: acredite no que achar melhor, viva como quiser, satisfaça o que atrair sua alma. Portanto, não reconhecem nenhuma lei ou restrição e não se submetem à Palavra de Deus. Seu caminho é largo, todos os obstáculos foram removidos. Mas o caminho largo leva à destruição, como diz o Senhor. É para lá que a leniência na crença nos levou.
Livra-nos, Senhor, deste caminho largo! Melhor é amar cada restrição que o Senhor nos concedeu para a nossa salvação. Amemos as doutrinas cristãs e forcemos nossa mente a adotá-las, compelindo-a a não pensar de outra forma. Amemos a moral cristã e forcemos nossa vontade a segui-la, compelindo-a a carregar o leve fardo do Senhor, com humildade e paciência. Amemos todos os serviços e ritos cristãos que nos admoestam, corrigem e santificam. Forcemos nosso coração com eles, encorajando-o a transferir suas escolhas do terreno e corruptível para o celestial e incorruptível.
Portanto, restrinjamo-nos como se tivéssemos entrado em uma gaiola. Ou melhor, tateemos o caminho, como se estivéssemos avançando por uma passagem estreita. Que seja estreita, para que ninguém possa se desviar nem para a direita nem para a esquerda. Sem dúvida, porém, em troca de atravessarmos essa passagem estreita, receberemos o reino dos céus. Porque este reino, como vocês sabem, é o reino do Senhor. O Senhor estabeleceu este caminho estreito e nos disse: ‘Sigam exatamente por este caminho e vocês alcançarão o reino dos céus’.
Então, como podemos duvidar que os viajantes chegarão ao seu destino? E o que se passa na mente daqueles que começam a querer invalidar os mandamentos de todas as maneiras possíveis, visto que, se isso acontecer, eles se perderão e ficarão perdidos?
Uma vez que você compreenda plenamente esta afirmação, não se preocupe se algo em nossos ensinamentos parecer excessivamente rigoroso. A única coisa que você deve buscar é se algo vem do Senhor. E depois de confirmar que de fato vem do Senhor, aceite-o de todo o coração, por mais rigoroso ou restritivo que seja. E não se limite a pedir tratamento especial e indulgência no dogma e na ética, mas fuja dessas coisas como se fossem o fogo do inferno. Porque aqueles que inventam tais coisas e com elas seduzem os espiritualmente fracos que os seguem, não escaparão desse fogo. Amém.
São Teófano, o Recluso
tradução de monja Rebeca (Pereira)








