POR QUE ESTA QUARTA E SEXTA-FEIRA NÃO HÁ JEJUM? REFLEXÕES

(Quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026)

Esta semana, após o Domingo do Publicano e do Fariseu, os cristãos ortodoxos não jejuam como de costume às quartas e sextas-feiras. A razão para isso é geralmente atribuída à nossa humildade, para não sermos como o Fariseu da parábola (Lc 18,9-14), que se vangloriava em sua oração, dizendo: “Deus, eu Te agradeço porque não sou como os outros homens… jejuo duas vezes por semana…” (o que significava às segundas e quintas-feiras). Mas a razão dada no Typikon eslavo, o livro que rege a ordem dos serviços litúrgicos e as regras de jejum do ano litúrgico, não é essa. Não jejuamos esta semana, diz o Typikon, porque há pessoas heterodoxas ou “outras pessoas” que jejuam esta semana (в сей седмице иномудрствующии содержат пост). Portanto, não jejuamos, “violando o mandamento de tal heresia” (развращающе онех веление толикия ереси). O jejum “herético” ao qual o Typikon se refere é o “Jejum dos Ninivitas”, de três dias, que comemora o arrependimento de Nínive e os três dias de Jonas no ventre da baleia, observado três semanas antes da Grande Quaresma em várias tradições da Igreja Ortodoxa Oriental.

A razão geralmente presumida para não jejuar esta semana (para *não ser como* o fariseu) e a razão do Typikon (para *não ser como* o heterodoxo) são semelhantes no sentido de que, em ambos os casos, o nosso não jejum é uma espécie de exercício de construção de identidade. Ao mantermos um calendário de jejum diferente do deles, afirmamos que não somos como eles. Em nossa época de crescente multiculturalismo e à luz do diálogo ecumênico com as igrejas ortodoxas orientais, jejuar ou não jejuar como demonstração de distinção ou mesmo como forma de menosprezar as tradições deles (como o Typikon faz explicitamente) pode parecer, no mínimo, desagradável. Além disso, pode nos tornar semelhantes ao fariseu que se vangloriava: “Não sou como os outros homens”.

Mas eis a questão sobre as tradições de jejum ou tradições alimentares em geral: quer observemos as proibições bíblicas de certos alimentos no judaísmo, o Ramadã no islamismo, o jejum da Quarta-feira de Cinzas nas igrejas cristãs ocidentais, o sacramento central dos cristãos de comer e beber o Corpo e o Sangue de Cristo, ou mesmo a tradição de comer peru no Dia de Ação de Graças nos EUA, todas essas tradições sempre tiveram funções de construção de identidade, lembrando às pessoas que as seguem quem “elas” são. Na tradição cristã, a primeira menção ao jejum de quarta e sexta-feira que encontramos na “Didaquê” do final do século I afirma explicitamente que “nós” jejuamos na quarta e na sexta-feira, para não jejuarmos na segunda e na quinta-feira como se fazia no judaísmo: “que os vossos jejuns não sejam com os hipócritas”, é a forma extremamente politicamente incorreta como a Didaquê coloca, “pois eles jejuam na segunda e na quinta-feira”.

Dito isto, hoje não creio que nos incomode o fato de que, este ano, o primeiro dia do Ramadã coincidirá com a Quarta-feira de Cinzas (18 de fevereiro), o primeiro dia da Quaresma para os cristãos ocidentais. E, embora a maioria das Igrejas Ortodoxas inicie a Quaresma na segunda-feira seguinte, nosso período de jejum coincidirá com o período de jejum tanto dos muçulmanos quanto dos cristãos não ortodoxos, o que também não incomoda ninguém, incluindo o Typikon. Isso nos mostra que o princípio de não jejuar com “os outros” não foi consistentemente mantido ao longo do desenvolvimento de nossa(s) tradição(ões), mesmo que tenhamos regras de jejum bastante diferentes entre nossas diversas culturas religiosas.

Conclusões:

1. Nossa determinação em evitar ou menosprezar tradições “outras” no que diz respeito à coincidência com seus períodos de jejum enfraqueceu em nossa época; mas

2. A função de construção da identidade proporcionada pelos nossos jejuns (e festas) permanece, o que não considero algo ruim em nossa era de “fluidez”, exceto pela justificativa preconceituosa do Typikon e da Didache, conforme citado acima. Jejuamos ou não jejuamos em comunidade, não porque sejamos melhores ou piores do que “os outros”, mas de acordo com as tradições de nossa própria cultura ou comunidade religiosa. Isso nos lembra quem “nós” somos, com todas as nossas imperfeições, em comunidade.

NdT: Lembramos que este texto é O PONTO DE VISTA de uma monja ortodoxa, Doutora em Liturgia Bizantina, que conhece idiomas e domina sobre o tema que aponta. Esta não é nenhuma colocação da Igreja Ortodoxa em seu pleroma.


Sister Vassa (Larin)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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