POR QUE A IGREJA COMEMORA SANTA MARIA DO EGITO PERTO DO FIM DA QUARESMA?

No Quinto Domingo da Grande Quaresma, a Igreja honra a memória de uma das maiores ascetas — Santa Maria do Egito. Alguns dias antes, a história de sua vida é lida durante as Liturgias nas igrejas. Por que comemoramos os feitos heroicos da santa não no início da Quaresma, quando ainda temos muita energia e determinação para “jejuar corretamente”, mas sim perto do fim, quando nossas forças estão esgotadas e nossas últimas ilusões sobre nós mesmos se dissiparam?

As primeiras semanas da Quaresma são frequentemente marcadas por uma onda de força de vontade: as pessoas se impõem limites, estabelecem metas para o que desejam alcançar e trabalham em si mesmas. Mas, por volta da metade da Quaresma, o cansaço se instala, muitas vezes seguido de decepção e, às vezes, até mesmo desânimo. De repente, torna-se evidente que as paixões, apesar de nossos esforços para superá-las, não desapareceram. Continuamos irritados, até mais do que antes, nossos pensamentos divagam durante a oração e somos incapazes de nos concentrar. E mesmo em termos de alimentação, a Quaresma não transcorre tão bem quanto imaginávamos inicialmente. Em resumo, é um declínio contínuo. É nesse ponto que a Igreja nos convida a refletir sobre a imagem de Maria do Egito.

A vida dela refuta a falsa tese fundamental que causa nosso colapso interior: se a Quaresma falha e eu não consigo levar uma vida espiritual (como eu a imaginava), então há algo de errado comigo e tudo é em vão. Para Maria, que, apesar de seu estilo de vida, era uma cristã devota (não nos esqueçamos de que, ao se encontrar em Jerusalém, ela tentou, como todos os outros, ir à igreja para a Festa da Exaltação da Cruz), “falhar” não significava apenas algumas semanas, mas toda a primeira metade de sua vida, que representou anos de autodestruição, tanto espiritual quanto física, e depois quase metade do seu tempo no deserto. Mas é ela quem se torna um ícone de arrependimento, um exemplo de alguém que começou sua vida espiritual com uma catástrofe e alcançou a santidade angelical. A Igreja parece dizer: olhemos para esta mulher, esta ninfomaníaca completa, em seu ponto de partida espiritual; se o caminho para a santidade é possível para ela, então tudo pode dar certo para nós também.

É significativo que a conversão de Maria a Deus e sua decisão de mudar radicalmente não tenham sido seguidas por uma transformação instantânea. Depois de perceber a profundidade de sua queda, depois que, em suas palavras, “a verdade de Deus, iluminando os olhos da minha alma, tocou meu coração e me mostrou que a vileza dos meus atos me impedia de entrar na Igreja”, e ela se retirou para o deserto, uma longa e dolorosa luta, um verdadeiro colapso, começou em sua vida. Durou dezessete anos, durante os quais Maria, segundo seu relato, lutou “com suas paixões descontroladas, como com feras”, incapaz de vencê-las até que “o poder de Deus transformou completamente” sua alma e seu corpo.

É difícil para nós compreendermos plenamente a intensidade desta batalha espiritual, mas podemos ao menos nos aproximar um pouco da compreensão do estado de Santa Maria olhando para nós mesmos. Planos ambiciosos, ilusões e esperanças de que este ano certamente dará certo são substituídos pela rotina habitual da Quaresma, e no lugar dos sonhos de outrora, surge uma sensação persistente de que nada aconteceu. É precisamente neste momento que Santa Maria do Egito pode nos ajudar, estar ao nosso lado e restaurar a esperança de que tudo dará certo, mesmo que leve tempo.

Um santo não é alguém que tem tudo perfeito espiritualmente, que não peca, que não experimenta conflitos internos e que é completamente auto-satisfeito. A santidade começa com o reconhecimento da verdade sobre si mesmo e a recusa em fugir dessa verdade. Após chegar à metade da Quaresma, uma pessoa, se for verdadeiramente responsável e consciente de si mesma, começa a se ver e a se perceber sem adornos, sentindo intensamente sua insatisfação interior. Isso não é uma falha espiritual, mas, pelo contrário, um resultado muito importante e valioso.

A memória de Maria do Egito, a comovente história de sua vida, lida na mesma celebração em que se lê na íntegra o Grande Cânone Penitencial de Santo André de Creta, é uma resposta litúrgica à questão interior daqueles que jejuam: faz sentido continuar se ainda não sou quem gostaria de ser? A resposta ressoa em sua vida: sim, faz sentido. O caminho para Deus começa quando uma pessoa não tem mais nada de que se orgulhar. É nesse ponto, que muitos alcançam durante este período da Quaresma, que o início da jornada rumo à santidade se torna possível.


Sacerdote Evgeny Murzin
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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