Cristo chora junto ao túmulo de Seu amigo Lázaro. Por quê? Não sabe Ele que, em instantes, Lázaro estará vivo?
Normalmente, ao responder a essa pergunta, fala-se da dor do Criador por Sua criação — a humanidade, que se mergulhou em inúmeras desgraças. “Oferecendo-nos imagens de amor sincero” (Cânone de Santo André de Creta para a Sexta-feira de Ramos).
Mas há outra origem para essas lágrimas. O Senhor Jesus Cristo treme, prevendo o preço exorbitante que terá de pagar por cada nova batida do coração de Seu amigo. Ele compreende claramente: Betânia será o ponto sem retorno para Ele. A ressurreição de Lázaro é o desafio final e fatal para aqueles que já tinham sede de Seu sangue.
Para que Lázaro saia da gruta, Cristo terá que entrar nela. Para que as vestes funerárias sejam retiradas de Lázaro, Jesus terá que Se envolver nelas. Aqui, em Betânia, ocorre um “pacto mortal”: o Salvador tira Lázaro da morte, e a morte, por sua vez, devora o Deus-Homem. O Senhor permite que isso aconteça. “O Senhor que vem sofrer voluntariamente por nossa salvação…” (Cântico da Grande Segunda-feira).
Frequentemente, pedimos a Deus um milagre: cura, ajuda, restauração do que foi perdido. É óbvio para nós que um milagre é uma dádiva fácil e gratuita da onipotência divina de Deus. Mas o mundo está estruturado de tal forma que nada “simplesmente acontece”. E tudo tem um preço.
A gruta tumular em Betânia, escancarada com o vazio da morte, testemunha: não apenas para as pessoas, mas também para Deus, que Se fez homem, toda obra que Ele criou tem seu preço.
O que isso significa?
A ação de Deus no mundo é sempre a Criação. Ele é o único que cria o Ser a partir do nada. Por meio de Sua Criação, Deus criou o mundo. E por meio de Seu Sacrifício, Ele o restaurou da ruína. Ao morrer por nós, Deus realiza o supremo ato criativo: Ele cria a Vida Eterna no próprio abismo da morte. “Eis que faço novas todas as coisas” (Apocalipse 21:5). Essa Vida Eterna é o resultado final de Sua criação — vida em abundância. O próprio Salvador fala disso:
“O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10:10).
O diabo — e ele é o ladrão — é capaz apenas da anticriação: transformar a existência em não existência. Em nada. O instrumento final e mais terrível desse processo é a morte.
Para salvar a humanidade, que escolheu a morte como o objetivo final de sua existência, o Senhor Jesus Cristo precisa destruir a não existência. Destruir a morte. E Ele faz isso permitindo que a não existência O consuma.
Mas no próprio epicentro da não existência, na morte, o Deus-Homem cria de novo! Ele cria a Vida Eterna com Si mesmo!
Somos salvos não pelo truque fácil de alguma onipotência, não por mágica, mas pelo fato de Deus ter preenchido com Si mesmo a totalidade da morte, na qual deveríamos ter desaparecido. Ele criou, a partir de Sua morte, o nosso caminho para a casa do Pai.
Em breve, se Deus quiser, seguiremos nosso Salvador em Sua Semana Santa, em Suas “Jornadas do Mestre”, até a mais alta manifestação da criação divina, até o Triunfo dos Triunfos:
Cristo ressuscitou dos mortos,
vencendo a morte pela morte,
e concedendo vida aos que estavam nos túmulos!
Metropolita Tikhon (Shevkunov) de Simferopol e Crimeia
tradução de monja Rebeca (Pereira)







