PEQUENA INTRODUÇÃO À ESPIRITUALIDADE ORTODOXA – PARTE 2

O homem espiritual é aquele que é testemunha do Espírito Santo em seu coração e, assim, está plenamente consciente da presença do Santo Deus Trino em si. Dessa maneira, ele percebe que é filho de Deus pela graça e, portanto, em seu coração clama: “Aba, Pai”. Segundo o testemunho dos Santos, esse clamor do coração é essencialmente a oração noética, isto é, a oração do coração.

São Basílio, o Grande, ao examinar o que significa que “o homem se torna templo do Santíssimo Espírito”, ensina — inspirado por Deus — que o homem que é templo do Espírito Santo não é perturbado por tentações e preocupações constantes; ele busca a Deus e tem comunhão com Ele. Claramente, o homem espiritual é aquele que tem o Espírito Santo dentro de si, e isso é confirmado pela sua ininterrupta lembrança de Deus 1.

Segundo São Gregório Palamas, assim como o homem dotado de razão é chamado de racional, do mesmo modo o homem enriquecido pelo Espírito Santo é chamado de espiritual. Assim, o homem espiritual é o “homem novo”, regenerado pela graça do Santíssimo Espírito.

Essa mesma visão é compartilhada por todos os Santos Padres. São Simeão, o Novo Teólogo, por exemplo, diz que o homem que é prudente, paciente e manso, e que ora e contempla a Deus, “anda no Espírito”. Ele é, por excelência, o homem espiritual.

Ainda segundo São Simeão, o Novo Teólogo, quando as partes da alma do homem — seu nous 2 e intelecto — não estão “revestidas” pela imagem de Cristo, ele é considerado um homem carnal, pois não possui o senso da glória espiritual. O homem carnal é como o cego que não consegue ver a luz dos raios do sol. De fato, ele é considerado tanto cego quanto sem vida. Em contraste, o homem espiritual, que participa das energias do Espírito Santo, está vivo em Deus 3.

Como enfatizamos anteriormente, a comunhão no Santíssimo Espírito torna o homem carnal espiritual. Por essa razão, de acordo com o ensino ortodoxo, o homem espiritual, por excelência, é o Santo. Certamente, isso é dito do ponto de vista de que um Santo é aquele que participa, em graus variados, da graça incriada de Deus, e especialmente da energia deificante de Deus.

Os Santos são portadores e manifestações da espiritualidade ortodoxa. Eles vivem em Deus e, consequentemente, falam sobre Ele. Nesse sentido, a espiritualidade ortodoxa não é abstrata, mas está encarnada na pessoa dos Santos. Portanto, os Santos não são as pessoas boas, os moralistas no sentido estrito do termo, ou simplesmente aqueles que são bem intencionados. Pelo contrário, santo é a pessoa que se submete e age segundo a orientação do Santíssimo Espírito dentro de si.

Estamos seguros da existência dos Santos, primeiramente, pelo seu ensino ortodoxo. Os Santos receberam e continuam a receber a Revelação de Deus; eles a experimentam e a formulam. Eles são os critérios infalíveis dos Sínodos Ecumênicos. A segunda garantia é a existência das relíquias sagradas dos Santos. As relíquias sagradas são o sinal de que, através do nous, a graça de Deus transfigura também o corpo. Consequentemente, os corpos participam das energias do Santíssimo Espírito.

O trabalho primordial da Igreja é conduzir o homem à theosis, à comunhão e união com Deus. Por isso, de certa forma, podemos dizer que o trabalho da Igreja é “produzir relíquias”.

Assim, a espiritualidade ortodoxa é a experiência da vida em Cristo, a atmosfera do novo homem, regenerado pela graça de Deus. Não é um estado abstrato, emocional e psicológico. É a união do homem com Deus. Dentro desse quadro, podemos detectar algumas características da espiritualidade ortodoxa. Em primeiro lugar, ela é centrada em Cristo, pois Cristo é o único “remédio” para as pessoas, em virtude da unidade hipostática [pessoal] da natureza divina e humana em Sua pessoa. Em segundo lugar, a espiritualidade ortodoxa é centrada na Santíssima Trindade, pois Cristo está sempre unido ao Pai e ao Espírito Santo. Todos os sacramentos são realizados em nome do Deus Triúno. Sendo a Cabeça da Igreja, Cristo não pode ser pensado como estando fora dela. Consequentemente, a espiritualidade ortodoxa também é centrada na Igreja, pois somente dentro da Igreja podemos entrar em comunhão com Cristo. Finalmente, como explicaremos mais adiante, a espiritualidade ortodoxa é mística e ascética.

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1 Cf. São Basílio, o Grande, Padres Gregos da Igreja (em grego, E.P.E.), Tessalônica, 1972, Vol. 1, p. 68.

2 A palavra “nous” tem vários usos no ensinamento patrístico. Ela indica ora a alma, ou o coração, ou até uma energia da alma. No entanto, o nous é principalmente o “olho da alma”; a parte mais pura da alma; a mais alta atenção. Também é chamado de “energia noética”, e não se identifica com a faculdade da razão.

3 Cf. SC 51, 54.


Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos
tradução do Sub-Diácono Gregório Siqueira

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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