PEQUENA INTRODUÇÃO À ESPIRITUALIDADE ORTODOXA – PARTE 1

1. Definindo a Espiritualidade Ortodoxa

É necessário, primeiro, definir os termos: “ortodoxo” e “espiritualidade”. Não podemos falar sobre “espiritualidade ortodoxa” sem saber exatamente o que queremos dizer com essas duas palavras. Foi isso que os Santos Padres da Igreja fizeram. Em seu excepcional livro “A Fonte do Conhecimento”, e mais especificamente nas seções intituladas “Capítulos Filosóficos”, São João Damasceno analisa os significados de palavras como substância, natureza, hipóstase, pessoa, etc. Como esses termos podem ser definidos de maneira diferente em outros contextos, ele explica por que são definidos assim aqui.

O adjetivo “ortodoxo” vem do substantivo “ortodoxia” e mostra a diferença entre a Igreja Ortodoxa e todas as outras denominações cristãs. A palavra “Ortodoxia” manifesta o verdadeiro conhecimento sobre Deus e a criação. Esta é a definição que Santo Anastásio do Sinai oferece.

O termo “Ortodoxia” é formado por duas palavras: “orthi” (ορθή = verdadeiro, correto) e “doxa”. “Doxa” (δόξα) significa, por um lado, crença, fé, ensinamento, e por outro, louvor ou doxologia. Esses dois significados estão intimamente conectados. O verdadeiro ensinamento sobre Deus incorpora o verdadeiro louvor a Deus; pois, se Deus é abstrato, a oração a esse Deus também é abstrata. Se Deus é pessoal, então a oração assume um caráter pessoal. Deus revelou a verdadeira fé, o verdadeiro ensinamento. Assim, dizemos que o ensinamento sobre Deus e todos os assuntos associados à salvação de uma pessoa são a Revelação de Deus e não uma descoberta do homem.

Deus revelou esta verdade a pessoas preparadas para recebê-la. Judas expressa isso ao dizer: “lutai pela fé uma vez por todas entregue aos santos” (Judas 3). Nesta citação, como em muitas outras passagens relacionadas, fica claro que Deus se revela aos santos, ou seja, àqueles que alcançaram um certo nível de crescimento espiritual para receber esta Revelação. Os santos apóstolos foram primeiro “curados” e depois receberam a Revelação. Eles transmitiram essa Revelação a seus filhos espirituais, não apenas ensinando-os, mas, principalmente, efetivando misticamente seu renascimento espiritual. Para que essa fé fosse preservada, os Santos Padres formularam os dogmas e doutrinas. Nós aceitamos os dogmas e doutrinas; em outras palavras, aceitamos essa fé revelada e permanecemos dentro da Igreja para sermos curados. Pois a fé é, por um lado, a Revelação para os que foram purificados e curados e, por outro, o caminho correto para alcançar a teose (deificação) para aqueles que escolhem seguir o “caminho”.

A palavra “espiritualidade” (pnevmaticotis – πνευματικότης) vem de “espiritual” (pnevmatikos – πνευματικός). Assim, espiritualidade é o estado da pessoa espiritual. O homem espiritual tem certa maneira de agir, certa mentalidade. Ele age de forma diferente do modo como as pessoas não espirituais se comportam.

A espiritualidade da Igreja Ortodoxa, no entanto, não leva a uma vida religiosa abstrata, nem é fruto da força interior do homem. A espiritualidade não é uma vida religiosa abstrata porque a Igreja é o Corpo de Cristo. Não é simplesmente uma religião que acredita teoricamente em um Deus. A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade — o Verbo de Deus — assumiu a natureza humana por nós. Ele a uniu à sua hipóstase e se tornou a Cabeça da Igreja.

Assim, a Igreja é o Corpo do Homem-Deus, Cristo. Além disso, a espiritualidade não é uma manifestação das energias da alma, como é o caso da razão ou dos sentimentos, entre outros. É importante afirmar isso porque muitas pessoas tendem a rotular como espiritual alguém que cultiva suas capacidades racionais: um cientista, um artista, um ator, um poeta, etc. Essa interpretação não é aceita pela Igreja Ortodoxa. Certamente não somos contra cientistas, poetas, etc., mas não podemos chamá-los de pessoas espirituais no sentido estrito e ortodoxo do termo.

No ensinamento do Apóstolo Paulo, o homem espiritual é claramente distinguido do homem da alma. Espiritual é aquele que tem a energia do Espírito Santo dentro de si. Já o homem da alma é aquele que possui corpo e alma, mas não adquiriu o Espírito Santo, que dá

vida à alma. “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém” (1a Coríntios 2, 14-15).

Na mesma Epístola, o Apóstolo Paulo faz a distinção entre o homem espiritual e o homem da carne. O homem da carne é aquele que não tem o Espírito Santo em seu coração, mas conserva todas as outras funções psicossomáticas de um ser humano. Portanto, é evidente que o termo “homem da carne” não se refere ao corpo, mas designa o homem da alma que carece do Santíssimo Espírito e que age a partir de seu chamado “eu psicobiológico”. “E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Dei-lhes leite, e não alimento sólido, porque ainda não podíeis recebê-lo, nem tampouco ainda agora podeis; porque ainda sois carnais. Pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais e não andais segundo os homens?” (1 Coríntios 3, 1-3).

Se combinarmos as passagens mencionadas acima com aquelas que se referem à adoção dos cristãos pela graça, constatamos que, segundo o Apóstolo Paulo, o homem espiritual é aquele que, pela graça, tornou-se filho de Deus. “Portanto, irmãos, somos devedores, não à carne, para viver segundo a carne. Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito

mortificardes as obras do corpo, vivereis. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Romanos 8, 12-16).


Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos
tradução do Sub-Diácono Gregório Siqueira

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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